quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Feliz Tempo Útil!
*texto para o Caderno Estilo do Jornal de Jundiaí


Daqui a poucos dias estaremos oficialmente em 2010! Os comentários sobre a rapidez da passagem do ano anterior sempre traz a ideia de que o tempo, traiçoeiramente, novamente nos pegou de surpresa. O tempo passa e deixa uma sensação que não deu tempo... Algo faltou por fazer, por alcançar.
Como será a nossa relação com o tempo na atualidade? Sim, porque a pressa não é mais inimiga da perfeição e devagar não se vai mais ao longe. Não temos mais tempo! Cada dia levantamos mais cedo e vamos dormir mais tarde, com a impressão que ou o dia deveria ser mais extenso ou não soubemos nos organizar. Preocupa-nos coisas como: vai demorar em aprender isso? A leitura do livro é demorada? Demora a fazer esta comida? Fazer terapia é demorado? Então, não se pode querer. Tem alguma coisa estranha nessa aceleração toda. A vida não é mais um percurso, mas uma correria.
O fenômeno característico da atualidade é a exagerada aceleração do cotidiano e a velocidade com a qual as alterações se processam. Nessa correria o urgente não deixa tempo para o importante, e temos daí um efeito colateral naquela que deveria ser a marca humana: a capacidade de reflexão e consciência. Essa capacidade, sob o efeito da correria, no esgotamento fica sem condição para persistir, combater, pensar e, assim, não evita o amortecimento dos sentidos e dos sonhos pessoais. Afinal, o corpo e a mente se vêem frente a verdadeiros ataques imperativos: várias medicinas, tantas dietas, muitas ordens da moda e do consumo com repreensões da mídia; corpo e mente que carecem cada dia mais, de horas de sono, de lazer e de sossego.
Vive-se de forma desesperada, ansiosamente, principalmente os jovens, mas não só eles. Por exemplo, na lógica de “aproveite a vida” não importa se para acelerar ou intensificar isso se consuma substâncias ou bebidas alcoólicas. “Aproveite a vida” pode até ser uma mensagem positiva, mas não se dá tempo para conhecer o outro. Exemplo? Não se conversa mais (conversar?), o negócio é “ficar” e o tempo supostamente bem gasto se mede pelo número de “ficadas”. O ser humano é um ser capaz de dizer não às tentativas de sequestro da sua subjetividade, então o que acontece? Há recusa da realidade nas psicoses, e vemos a ideia de recusa se expandindo, tornando-se possível falar de recusa do tempo.
A recusa do tempo ocupa um lugar importante na dinâmica psíquica das neuroses, com configurações particulares nos vários quadros neuróticos. Freud em seu texto “Sobre a transitoriedade”, de 1914, fala do sentimento de inconformismo diante da constatação de que tudo está fadado à transitoriedade, a mortalidade, logo nossa própria existência está aí compreendida. A exigência de imortalidade, como produto do desejo, não pode reivindicar seu direito à realidade. No entanto, ela persiste no mundo mental como fruto da recusa.
Frente ao fenômeno da implacabilidade do tempo, faz-se “negociatas” com o imponderável e imagina-se que se pode burlar a falibilidade do corpo. E além das diversas buscas de intervenções no corpo para “parar” o tempo, a passagem do tempo impregna-se e encarna-se na imagem do outro que no envelhecimento torna-se descartável e é “trocado por duas (ou dois) de vinte”. A problemática do tempo possui diversas faces e diversos graus de gravidade. Na neurose e em certos quadros de ansiedade o melhor é falarmos em uma “luta” contra o tempo. Mas o fato é que o fator tempo está no âmago da angústia humana em geral. É uma das suas agruras. Citando Jean de la Bruyère (1645-1696) ensaísta francês: “Aqueles que gastam mal o seu tempo são os primeiros a queixar-se de sua brevidade”.

Desejo a você, caro leitor, um feliz tempo útil! Tempo útil é aquele que se usa e não se perde. Saber ocupar o tempo, o tempo da vida é inventar. E inventar pode ser refazer, recriar... Lembrar o que já se foi para orientar o desejo daquilo que virá. Ser o senhor da sua vida.

Daisy Maria Ramos Lino


sexta-feira, 27 de novembro de 2009


O que é um psicanalista?*

*texto publicado no Caderno Estilo do Jornal de Jundiaí em 15/11/09
Vira e mexe, perguntam: “Por que pagar a um profissional, se posso conversar de graça com o pastor ou com a mãe-de-santo? Os meus melhores amigos não me entendem mais que um desconhecido? Afinal os meus pais não saberiam o que é bom pra mim? Qual a diferença entre o padre que escuta e aconselha, e um psicanalista?”
A diferença é: o psicanalista é formado em psicanálise, os outros não. E aí, insistem: “Formado como?”
Cabe esclarecer que a psicanálise não faz parte da psicologia, pois são duas ciências diferentes. A psicanálise é a ciência do inconsciente que foi fundada por Sigmund Freud (1856 – 1939). Um método de investigação, que consiste essencialmente em evidenciar os significados inconscientes das palavras, das ações, das produções imaginárias (sonhos, fantasias, delírios) de um sujeito, que os desconhecendo sofre e faz sintomas que atormentam sua vida. A formação preconiza que o psicanalista se submeta ao mesmo processo que é proposto a seus pacientes – análise pessoal do analista. E isso é uma espécie de precaução: é preciso evitar que interfiram nos tratamentos, motivações do analista que ele mesmo desconhece.
Além disso, entender as motivações do sofrimento psíquico dos outros será proporcional ao entendimento que o analista possue de si mesmo, que teve coragem de encarar em seu processo de análise. Um psicanalista sério e comprometido com seu ofício tem a disposição para encontrar dentro de si as inquietações mais turvas e cicatrizes mais supuradas. E por quê? Da sua análise pessoal depende sua capacidade de escutar, algo bem mais complexo que ouvir no sentido da audição. A prática clínica de um tratamento psicanalítico implica, para o analista, um esforço significativo que consiste em suportar “visitar” os porões assutadores e, muitas vezes desesperadores, do passado infantil de seus pacientes.
Acreditamos, então, que para lidar com o sofrimento mental humano é necessário uma formação profissional, porque não se trata simplesmente de conversar com outra pessoa, por mais querida ou bem intencionada que seja, e que ao ouvir nossas aflições, angústias e dúvidas ela poderá nos ajudar. É preciso tratar a causa desse sofrer que se expressa no mal estar. É preciso encarar os demônios de nossa alma de frente, cuidar deles. Não fazê-los calar, fazê-los falar no lugar aonde poderão encontrar o sentido de suas manifestações. Os outros pontos da formação são o estudo da teoria psicanalítica e a discussão da prática com um psicanalista mais experiente.
Nesse sentido, o TRIEP é uma instituição que propõe a transmissão e divulgação da psicanálise. Reúne profissionais da área de saúde mental que buscam desenvolver esses pontos da formação de um psicanalista: o aprofundado estudo do pensamento de Freud e de autores da atualidade, a supervisão da clínica e o incentivo à análise pessoal do psicanalista. Entendemos que a prática clínica deve estar vinculada, também, a uma reflexão teórica e prática que torne possível a construção do lugar de escuta do psicanalista.
Freud em um dos seus textos afirmou que “nenhuma regra a respeito da felicidade vale para todos. Cada um deve buscar por si mesmo a maneira em que possa ser feliz.” O sofrimento psíquico não é coisa fácil, e precisamos de ajuda para desempedir o caminho obstruído da própria felicidade. Do analista se pode esperar interpretações que levem o analisando à produção de verdades sobre si, sobre seus sintomas, seus medos e suas dificuldades na vida.

Daisy Maria Ramos Lino

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Alguns Encontros

A clínica de Freud caminha. Paralelamente, caminham também suas teorias, obrigando-o a rever pontos de seus escritos. Da mesma forma, o analisando chega repleto de teorias construídas ao longo de sua vida e se propõe então a rever muitas delas no percurso de sua análise.
Dentro dessa proposta o analisando encontra novos significados à sua história e seu discurso passa a nomear suas angústias dando suporte maior à sua subjetividade, por vezes abandonada ao sintoma. Se conhecer melhor para a Psicanálise é dar significado a trechos onde antes só existia um significante. Tornando-se possuidor desses significados, além de ser explicitado o que é seu e o que é do outro, delimita-se um Eu separado do outro.
Nenhuma novidade em dizer que a clínica é invadida pela vida e espera-se que enigmas que ali surjam incitem a reflexão para fora do setting.
Somos instruídos a falar o que nos venha à cabeça e uma das minhas associações livres, “iniciou-se”, não por acaso, quando parei em um café antes da sessão de minha análise pessoal. Descubro que a moça que ali trabalha, me confundiu, dias atrás, com outra pessoa para a qual trabalha depois do expediente. De fato, antes dessa ocasião ela havia falado comigo, que pouco a conhecia, sobre sua ausência de dois dias no trabalho, por conta de um exame médico. Estranhei a intimidade da fala, porém nada perguntei. Frente à confusão que tinha repercutido em uma falta supostamente avisada mais endereçada à pessoa errada, rimos e fui para análise.
Na sessão, comunicando mais do que sabia – “sabe sem saber que sabe”, dizia Freud – esclareço como em diversas situações vou-me “confundindo” ao outro e as influências disso em minhas escolhas. No meu silencio frente ao enigma da fala dessa quase desconhecida nada perguntei, me “deixo” passar por esse outro ao não questionar esclarecimentos.
Comento, depois da sessão de análise: “Pior que pensarem que você é outra pessoa é se pensar que é outro, por
que daí é coisa de maluco”. A caricatura clássica do louco que diz ser Napoleão aparece na minha mente, e me fica clara a dimensão do conflito do neurótico em relação à entrega do psicótico.
Da mesma forma como as crianças levam a sério seus jogos, faz também os escritores criativos, nos aponta Freud. O louco também se entrega a sua “causa”, apenas seu arranjo psíquico não leva em conta o princípio de realidade. Ora, é o princípio de realidade que sempre nos remete a castração. Nossa criança, nossa onipotência infantil, quer um lugar de glória a qualquer preço. Por sorte a organização psíquica do neurótico se sustenta com um conflito, mas com os psicóticos é diferente, não se submeteram à lei paterna.
Para aprender uma ciência é preciso se submeter às leis da mesma. Assim, como a maçã já caía antes de Newton, foi ele quem equacionou a gravidade e trouxe luz à física que a partir de então pode se desenvolver baseada em uma lei; também os homens já viviam seus conflitos antes de Freud, este sistematizou o funcionamento psíquico e propôs uma maneira de tratá-lo.
Se Freud foi o pai da psicanálise e tomarmos a histeria como quem a pariu, se entregar aos sedutores convites feitos ao nosso narcisismo que aparecem na clínica é passar por cima da lei paterna, é nos tornarmos psicóticos caso disso não nos dermos conta ou perverso caso daí se extraia algum gozo.
Por fim, não se busca um psicanalista sem voz própria, incapaz de pensar, de criar e contestar. Graças a essa postura é que a Psicanálise pode caminhar desde Freud, mas sempre prestando contas à lei paterna, que nos impõe entre outras coisas a postura investigativa que deve prevalecer sobre qualquer tentação dogmática que possa surgir durante o percurso. Suportar o luto de ver teorias, sejam elas sobre o entendimento de determinado ponto teórico, sejam sobre os analisandos ou sobre si, serem abandonadas para privilegiar a verdade do sujeito, é uma das garantias de que estamos no caminho que torna possível a Psicanálise.

Gustavo Florencio Fernandes

segunda-feira, 7 de setembro de 2009


A Inveja é uma...*

Da tradição católica como um dos sete pecados capitais à concepção de um sentimento complexo, a inveja não goza de boa reputação. Há aqueles que afirmam não tê-la e outros que acreditam ter aquela que chamam de “boa”. Admitir inveja de outrem não é algo fácil de se revelar publicamente. Por isso, usa-se defensivamente a qualificação “boa” ou “saudável”. Mas inveja é só inveja. Não tem boa nem má.
Confessam-se várias emoções como o medo, o amor, a esperança ou até o ciúme. A inveja é vergonhosa. Mas por que surge essa vergonha? O que é inveja?
A inveja traz sentimentos de inferioridade, dificuldade de aceitação, culpa, sentimento de destino injusto e desejo por algo de terceiros. Apresenta característica própria e distingue-se dos outros afetos. O sentimento de inveja tem parentesco com o desejo e a agressividade. Seu alvo é indeterminado, variando do “qualquer coisa” ao “tudo”. Não é um sentimento simples, possui fatores ligados à intensidade e envolve um conflito emocional.
O essencial da inveja é arrebatar do outro a coisa invejada importa mais do que procurar obter a posse de um objeto semelhante. Na lógica invejosa não existe “objeto semelhante”. Há um objeto único, aquele que o outro tem e a ausência em si faz sofrer.
A expressão do dito popular de que a inveja é a dor de cotovelo traduz bem essa dor psíquica. Com essa dor intensa consumindo sua mente, o invejoso movido pelo ódio procura destruir a alegria alheia. Mas por que tem que ser única a coisa invejada? Porque o objeto da inveja é um objeto imaginário. Uma fantasia de totalidade. Algo que se supõe dar ao seu dono um estado de felicidade, de completude.
O coração do invejoso palpita por um bem que não pode ser compartilhado. Palpita não pela necessidade de ter o que o outro possui, mas pela necessidade de sentir o mesmo prazer que ele, alcançar o mesmo nível de felicidade que supõe ver no outro. O invejoso atribui ao outro um estado de que se imagina privado (“você tem tudo”), e passa a associar este estado à posse de um “algo”, uma espécie de amuleto, do qual é obrigatório privar o outro seja por que meio for (“e eu terei isto...”).
Todos os seres humanos sofrem de inveja, é um sentimento inerente ao humano. Podemos afirmar que a inveja é, de início, inevitável, mas superável ao longo da vida. Em nossa infância desconhecemos a limitação, imperfeição e a finitude como características dos seres humanos. Criamos a ilusão de completude, de onipotência e a descoberta de que não é assim, costuma ser extremamente dolorosa e suscita angústias de extraordinária intensidade.
A fantasia de completude, de onipotência, de tranqüilidade de espírito, não será eliminada com a descoberta que não se é autosuficiente. Ela irá se deslocar para outros setores da vida psíquica. Com isso, tudo aquilo que contribuir para dar a impressão de autosuficiência é passível de ser entendido e fantasiado como uma encarnação dessa ilusão infantil: por exemplo, a inteligência, o saber, o poder, o sexo, o corpo, a beleza, ou a independência de quem “se basta a si próprio”.
A intensidade da inveja vai depender de como se deu o relacionamento da criança com aqueles que cuidaram dela durante o processo de diferenciação entre o seu eu e o outro. Vale ressaltar que a inveja pode ter características construtivas. Isso pode acontecer quando, por exemplo, um indivíduo deseja adquirir para si qualidades, bens e posses que admira nos outros, através de seu próprio esforço. Nessa situação o objeto da inveja torna-se um modelo a ser seguido. Com isso torna-se um sentimento estimulante, aumentando o sentimento de ambição e a competição saudável para se obter o que se deseja.
Como não é possível evitar sentir inveja, devemos-nos preocupar com aqueles que não conseguem controlar seus sentimentos prejudicando os demais. São pessoas que ao depreciar seu objeto de inveja acabam por destruir suas próprias relações interpessoais ou de trabalho.
Existem, também, aqueles que sentem inveja e sofrem com isso, sem fazer nada para mudar suas atitudes. Normalmente são deprimidos, amargos e ansiosos. Procuram fazer papel de vítima provocando no outro sentimento de culpa pelo sucesso obtido. E, muitas vezes, com dificuldade em aceitar seu sentimento procuram bajular o objeto de inveja, depreciando-o quando da sua ausência.
A inveja pode acontecer também entre as diferentes gerações, onde o mais velho inveja o mais novo por viver a juventude numa época “mais fácil” e o mais novo inveja a experiência e a maturidade do mais velho.
Estas diferentes expressões da inveja indicam que as formas de fazer frente a ela podem ser construtivas ou destrutivas, e que ela evoluirá para um lado ou outro dependendo da intensidade do conflito intrapsíquico.
A inveja é uma tremenda complicação psíquica pelas dimensões que pode assumir.
Por uma saúde mental lúcida, cuide bem da sua inveja.

Daisy Maria Ramos Lino

* texto publicado no Jornal de Jundiaí – Caderno Estilo de 18/08/09.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Atendimento Infantil: um campo singular

Trabalhar ou se debruçar sobre as questões do infantil, com todos seus paradoxos, de alguma forma sempre nos põe frente a várias questões. São vários os autores que na história da psicanálise de crianças se viram frente a variados impasses que até hoje não foram superados ou ainda não atingiram um estatuto conceitual.
Freud, já constatava que o entendimento da criança sustenta dificuldades para a análise, o que é muito bem citado por Ângela Vorcaro:
Freud abordou a dificuldade implicada no estatuto da criança... não apenas ao dizer que a observação de crianças não responde pelo infantil e origina mal entendidos, mas ao dizer também que a observação da vida anímica infantil é uma tarefa difícil, que a criança ensinou-lhe coisas para as quais não estava preparado, que poderia estar muito idoso para ter paciência com elas; paciência inclusive para escrever sobre elas. Buscou reparar esse descuido na delegação de sua tarefa à sua criança, a Anna Freud, que representava então o futuro da psicanálise”.
Quantos desafios que a clínica infantil nos traz...
Gostaria aqui de considerar a clínica com crianças, apoiada em alguns conceitos lacanianos e em alguns textos de autores de sua escola. Talvez pensar em Lacan e psicanálise de crianças num primeiro momento pareça não coincidir, porém segundo Pierre Kaufmann:
“...é por certo na obra de Lacan que encontramos os elementos de uma reorganização apoiada numa base estrutural de dados referentes ao fundamento do psiquismo infantil na experiência analítica.”
Várias são as questões que poderíamos abordar. Por ora, porém, uma questão que sempre me intriga, é que normalmente a criança nos chega ao consultório, vinda pelas mãos e demanda de seus pais. Apresenta os mais variados sintomas, os quais os pais relatam muito bem na maioria das vezes. Mas, seriam de fato sintomas? Seriam sentidos pela criança como queixa? São questões importantes, pois daí deriva grande parte da nossa conduta como analistas.
A princípio, sabemos que nos cabe acolher esses pais e também essa criança por eles trazida. Mas, o que seria acolhê-la? Seria tomar um lugar de função parental, de cuidados? Ou um lugar parecido com o de uma professora que aborda a função pedagógica? E ainda, seria favorecer nosso paciente a se inscrever no que lhe é esperado, no que os pais esperam dele, amarrado unicamente à adequação social? Essas questões são amplas e complexas, pois se como dissemos anteriormente, a criança nos chega via pais, os seus sintomas também são vistos por esses pais, e portanto sua gravidade e até quem sabe - sua existência, são diretamente relacionados ao olhar e à subjetividade destes. A singularidade de cada criança vai surgindo de acordo também com a capacidade e possibilidades que ela encontra de manifestação de suas necessidades. Os pais, não são completos para os filhos, não podem lhes dar a satisfação total (ainda bem!), então sempre sobrarão restos, possibilidades de busca, faltas que determinarão a constituição desse sujeito.
O sujeito que trato aqui, é a criança, um ser em formação do psiquismo e que busca no outro, especialmente nas figuras parentais as respostas para suas inquietudes e necessidades.
O analista não pode unicamente se apresentar como substituto desses pais ou como detentor de um saber que será impresso na criança, ato bem desempenhado muitas vezes pelos professores, educadores, mas não pelo analista. Pelo contrário, na observação de crianças por exemplo, o analista deveria observar as possibilidades que a criança traz, esta criança, sem incutir-lhe sentidos ou pior, interpretar segundo seus ideais culturais, o que fatalmente conduziriam a um suposto trabalho analítico a serviço da chamada “boa educação”. Os desejos do analista não devem entrar na terapia de crianças. Sua ação contratransferencial, seu querer cuidar, seus próprios aspectos infantis acabam levando-o muitas vezes a incutir sentidos à criança, desviando o atendimento por caminhos de sua própria subjetividade (a do analista). Um caminho que deve ser trilhado na análise pessoal do analista e não pelas “linhas tortas” do atendimento da criança.
Se para Lacan, a análise deve levar o sujeito ao encontro com o id, com suas pulsões, a análise de crianças não deve ser diferente. Deve também caminhar para que a criança possa ir a busca de suas pulsões e desejos, sair em parte da posição que os pais lhe determinam e dos sintomas nos quais a vêem ou a colocam. Deslocar-se então de uma posição alienante que o Outro a insere e assumir um papel ativo, fazendo um Real ao invés de sofrê-lo.
Pensemos seriamente que o atendimento de crianças deve ser um campo singular, campo onde a criança encontre a possibilidade de construção da sua própria alteralidade. Qualquer tipo de maternagem, didática ou “coluio” com os pais somente leva a um empobrecimento da Psicanálise.
Silvia Coari

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Caminho das Psicopatias*

“Ele será sempre enganado mesmo, então que seja por mim!...” O que levaria uma pessoa a pensar desta maneira e a se relacionar assim com as outras? Um tema sempre atual e presente nas tramas de nossas telenovelas, que levam diariamente um grande número de telespectadores fiéis e, porque não dizer, ansiosos por assistirem os desfechos inusitados de seus personagens favoritos.

Trata-se dos caminhos percorridos pelos “vilões” das tramas. A personalidade de tais vilões tem gerado maior interesse e atenção do telespectador do que o próprio par romântico da história. Ardilosos, simpáticos, meigos e altamente convincentes, os vilões das teledramaturgias não usam nada além das palavras, das ”caras e bocas” para atingirem seus objetivos. Não lutam, não batem, não xingam e raramente se exaltam nas conversas. Parecem altamente equilibrados e até sensatos, porém assistimos a cada capítulo, o resultado da manipulação sórdida que exercem sobre os demais e dos ganhos que obtém com isto.
Quem de nós não parou ao menos 5 minutos para assistir boquiaberto a rapidez com que a personagem Flora, interpretada por Patrícia Pillar na novela “A Favorita”, transformava-se de uma pobre vítima em uma inescrupulosa vilã? Atualmente, a nova trama Global tem trazido às telas da tv, uma vez mais, a questão da Psicopatia através da personagem Yvone, interpretada pela atriz Letícia Sabatella em “Caminho das Índias”.


A psicopatia é um distúrbio de personalidade que afeta o sujeito diretamente em seu relacionamento social, por isso é também definido em alguns manuais de Psicopatologia como Sociopatia.
O psicopata é um grande dissimulador daí saber reconhecê-lo é tarefa extremamente difícil. Entendem muito bem o fato, mas não se importam, é como se os processos emocionais fossem para eles uma segunda língua. Podem entender o que os outros sentem do ponto de vista intelectual, uma vez que a noção de realidade não se altera, mas são incapazes de sentir como pessoas normais.

A personagem Yvone é meiga, simpática e altamente sedutora. Suas manobras são tão ardilosas que impedem que os demais desconfiem da veracidade de suas falas ou da meiguice de seu olhar.
Assim é o psicopata. Resultado de uma cisão na estruturação de seu “eu”, acredita que a lei não terá efeito sobre ele. Ou seja, duvida e por vezes se diverte com a suposta certeza de que nunca será pego em suas falcatruas, em seus atos ilícitos. Não se coloca em obediência às normas sociais com relação aos comportamentos legais; possui propensão para enganar, mentindo repetidamente tenta obter vantagens pessoais ou prazer. É capaz de dramatizar desde um lugar de vítima com voz de súplica, ou de apresentar-se como uma pessoa humilde e ignorante onde o outro rapidamente o “compreende” e o apóia. Eleva o falso à condição de autêntico e o inferior à condição de superior e melhor.
A partir do seu desempenho, se é fisgado e atado em um relacionamento onde se crê existir amor e respeito. Porém, assim que o psicopata é desmascarado, ficamos ali, paralisados e perplexos sem entender nada do que aconteceu.
Infelizmente é comum que escutemos, nos meios psicanalíticos, que o psicopata raramente procura uma análise ou qualquer outro tipo de ajuda. Geralmente os que nos procuram são aqueles que sofrem ou sofreram as conseqüências de sua ação. Driblar a lei e enganar o outro é experimentado pelo psicopata, como uma sensação triunfal e não penosa. Não está sujeito às ruminações de culpa, tem ausência de remorso e indiferença por ter ferido, maltratado ou roubado outra pessoa. As práticas de atos ilícitos garantem a ele alguma identidade subjetiva que o protege contra angústias psicóticas, angústias estas, claramente observadas no personagem Tarso, protagonizado pelo ator Bruno Gagliasso na trama e que apresenta outra psicopatologia.
Entretanto, o prazer experimentado pela psicopatia também apresenta efeitos colaterais indesejáveis: burlar as leis e viver muitas vezes como se elas não existissem vai provocando cada vez mais a cisão do sujeito com a realidade, ao mesmo tempo em que o leva a um estado de vazio psíquico e uma ausência de relacionamentos afetivos verdadeiros. Ou seja, a solidão e a infelicidade podem se tornar perturbadoras para o psicopata e é nestas horas que ele poderá cometer atos mais “descuidados” e se deixar “pegar” na ilegalidade.
E será aí, onde assistiremos surpresos, vir à tona um sujeito absolutamente desconhecido por nós, que em algum momento acreditamos conhecer. Nesta hora, nem mesmo a Índia nos será tão estranha!

Edilaine Bronzeri Pugliese

*texto publicado no Jornal de Jundiaí – Caderno Estilo de 26/07/09.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

"Divã ou Diva - sobre o feminino"


O cinema e a psicanálise têm entre si uma estreita proximidade, seja desde o nascimento de ambos na mesma época ao sentido dado aos sonhos por Freud. Um filme pode se prestar bem para “sonharmos” , como também para buscar, o quê Freud buscou em clássicos da literatura, como Édipo Rei e Hamlet, uma teorização das questões psíquicas universais. O filme “O Divã”, de José Alvarenga, baseado no romance de Martha Medeiros, conta a história de Mercedes, uma mulher de 40 anos, que vive às voltas com as alegrias e desafios da sociedade contemporânea. Casada, mãe de dois filhos, Mercedes decide, sem bem saber o porquê procurar um psicanalista.
Proponho aqui realizar a análise de fragmentos deste longa nacional, privilegiando a escuta do feminino. À parte do tom caricatural, cômico-crítico dado ao psicanalista no filme, efeito estereotipado do senso comum e do propósito comercial destinado a fazer rir, não pretendo esgotar outras tantas possibilidades de leituras psicanalíticas que esse filme poderia disparar. Interessou-me pensar sobre aspectos da constituição psíquica da mulher. Escrevo o quê ecoou à minha escuta frente a uma única sessão de cinema que assisti do filme em questão, assim como fazemos trabalhar o quê nos suscita em uma inédita, por ser sempre única, sessão entre o analista e o analisando.
Mercedes se vê à meia idade frente ao desmoronamento dos antigos acordos conjugais, a traição do marido, a separação, os filhos crescidos e a sua não realização profissional. Ela lança ao analista questões sobre sua capacidade de sedução - “alguém tem desejo por mim?” -, numa busca de que “algo” a faça acreditar, confiar na sua existência como sujeito, e como todos demanda amor. Acompanhamos a escuta do analista, Lopes, e suas intervenções que passam a provocar recordações, onde havia repetições.
A psicanálise se dirige ao sujeito do inconsciente, e assim, assistimos um analista, através da sua escuta, propiciar sua emergência. Percorrendo um caminho no sentido regressivo, do manifesto ao latente, converte a repetição em recordação pelos sentidos novos encontrados. Começa-se a reescrever uma história, que não é outra história, mas potencialmente nova na maneira de entender, experimentar e viver a vida.
Mercedes conta que perdeu a mãe ainda pequena, não chorou sua morte e que a partir daí “algo surpreendente aconteceu: o pai foi tão carinhoso...”. Ao falar ela recorda a cena que se segue: uma menina, aproximadamente no final da primeira infância, caminhando triunfante em torno do caixão num velório e, em seguida a vemos sentada no colo do pai, acolhida carinhosamente.
Proponho a partir dessa cena pensarmos sobre a especificidade do Édipo feminino. Freud formulou o complexo de Édipo, na chamada forma simples e positiva, o desejo da morte do rival que é a pessoa do mesmo sexo e desejo sexual da personagem do sexo oposto
[1]. O esquema inicial proposto por Freud compreenderia, então, a menina que se enamorava do pai e o menino, da mãe; e durante a estruturação deste conflito a função paterna desempenharia a interdição imprescindível, porta voz da castração simbólica. No caso do menino, submetido à ameaça de perder o quê lhe era precioso, renuncia ao lugar psíquico de único e exclusivo objeto amoroso da mãe, identifica-se com o pai e abre-se, assim, a possibilidade da busca de outra mulher. Com a teorização de que a mãe é o primeiro objeto amoroso para todos, sejamos meninos ou meninas, haverá acréscimos teóricos neste complexo, tendo que ser teorizado o que acontecia com a menina. No caso da menina, a relação do complexo de Édipo com o complexo de castração é muito diferente do que no menino. O desejo exacerbado de possuir aquilo do qual a mulher se crê privada pelo destino – ou pela mãe – expressa uma insatisfação fundamental. Nessa fase um só sexo, o masculino, é conhecido pelas crianças, e assim, compreende-se o despeito invejoso da menina por ser dele desprovida. Diante da decepção com a mãe, por ela não ter lhe “feito completa” ou devidamente paramentada, troca de objeto de amoroso, e volta-se para o pai.
Seguimos Mercedes em suas tentativas de obter uma completude, antes buscada no pai, depois na maternidade, agora em casos com moços vigorosos. O Édipo feminino é construído a partir da mudança de objeto libidinal da mãe para o pai, e também se refere à separação da mãe, ou seja, a menina vive com a mãe uma completude imaginária, e a entrada de um terceiro (o pai) anunciará a angústia de castração – não existe a completude – promovendo a separação e possibilitando o processo de subjetivação. Quando adulta, nas escolhas de um par amoroso, ao formar um casal, a mulher pode repetir suas más relações com a mãe, em última instância. Pensemos nas conseqüências psíquicas no caso descrito da mãe que morre enquanto se dá no psiquismo da menina toda essa construção estruturante: o desejo de ter o pai para si e destruir sua rival, terrivelmente, parecem ser realizados. O perigo da interdição simbólica não se cumpriu? Contudo, neste caso, o pai parece ter exercido uma função organizadora.
O filme também faz referência a amizade entre mulheres, a melhor amiga, com quem confidências íntimas e cosméticas são compartilhadas, o olhar para uma outra em busca de saber o quê esta tem, na intenção de responder aos próprios enigmas da falta. Neste sentido, Mercedes observa a suposta bela relação de um casal – a amiga e o marido - que tem uma filha, com a qual parece identificada. Mercedes se irrita com o analista que parece insistir em lhe pontuar: “O quê minha mãe tem a ver com isto?”. Contudo, parece ser após a morte da amiga, falada na análise, que pode revisitar suas lembranças, chorar a morte da mãe, fazer o trabalho de luto: identificar-se e separar-se do objeto perdido, lançando-se à própria subjetividade. Reconciliando-se com suas perdas, com sua própria finitude: “O quê minha mãe tem a ver com isto?... Tudo tem um fim...” retoma.
O feminino que, como possibilidade, passa a se entender além da questão do corpo, da procura em obturar a falta, encontra a última saída descrita por Freud: “tornar-se” mulher. Nas últimas cenas do filme vemos Mercedes protagonista da sua arte numa mostra de suas obras de pintura a óleo encontrando contorno à falta. Pôde fazer escolhas e ser o melhor e o mais feliz que podia ao percorrer o solitário e singular caminho das respostas subjetivas.
Uma Diva... Uma mulher dona das suas peculiaridades pôde sobrevir.

Patrícia Merli Macieira Matalani


[1] J.Laplanche/J.-B.Pontalis, Vocabulário de Psicanálise, verbete Complexo de Édipo

segunda-feira, 11 de maio de 2009




Nadar sem raia ou navegando perto dos ventos


Experimentar algo, sentir na pele, parece mesmo ser aquilo que faz uma idéia mudar de estado. Passar de uma forma funcional de inconsciente para consciente.
Podemos informar, trazer a luz da consciência de forma didática, mas isso só não basta, pois, o conhecimento informado, um a mais, soma, mas não transforma.

“A lição sabemos de cor, só nos resta aprender”, diz a letra da música de Beto Guedes.
No contexto da música, não me recordo qual seria a lição decorada. Porém, o pequeno trecho, me serve para ilustrar esse saber que só a vivencia pode trazer, virar experiência de vida. Afinal, não é uma análise uma experiência de vida? Uma experiência assistida e com inúmeras particularidades, mas por ser experimentada, sentida na pele, é que tem algum efeito.
Para ilustrar a construção do meu conhecimento e ilustrar da melhor forma possível o que me ocorre quanto a formação em psicanálise (momento que vivo) tratarei de dois extremos, serão as raias do meu texto e me ajudarão a nadar em linha reta buscando ser o mais claro possível e melhor transmitir como tenho entendido a construção do conhecimento psicanalítico.
De um lado vou utilizar um psicanalista teórico, estritamente teórico e que talvez nem encontremos de fato e se assim o for tomo a liberdade da ficção como auxílio. Um que se interessou em "saber a lição".
Vale lembrar a posição de Freud, ele elaborava a teoria através da prática fosse com sua intitulada e polêmica auto-análise ou na clínica e a revisou até a morte, sem medo de ser feliz. E que não se entenda com isso uma apologia a balburdia, mas quem sabe um convite à reflexão. Claro que nós, os "iniciados" sabemos o quão Freud ansiava pelo reconhecimento de sua obra, porém isso não o conduzia a atitudes irresponsáveis com relação à construção de sua ciência. Tinha com certeza direito a sua loucura neurótica, mas evitava se confundir a dos pacientes.
Os anos se passaram, a obra psicanalítica cresceu, muito se praticou, muitas direções, muito fracionamento classificatório dos sofrimentos psíquicos. Eles se tornaram "populares", por vezes muletas a nossa racionalidade, assunto de revista semanal e telenovelas. Com a internet é fácil encontrar um teste que diga o que você tem, um diagnóstico partindo de um comportamento catalogado. Tudo isso, claro, com um viés psiquiátrico, neurológico com a busca de talvez, com tudo explicadinho encontrarmos a paz. Agrada-se assim o público cada vez mais apenas um consumidor e a indústria que em suas diversas facetas se fortalece.
Enquadrando-se em algum número estatístico, seja com a pior das doenças psiquiátricas, dá-se nome aos bois e sente-se assim menos estranho a algum rebanho, menos estranho a esse outro diferente, menos estranho segundo as "leis vigentes", ou as que são válidas naquele momento, e por isso as leis que vigiam e que por fim vão sempre ajudar a fortalecer a resistência, aquilo justamente que deveria ser trabalhado.
Devido a esse natural acumulo de "conhecimento" na biblioteca dos sofrimentos psíquicos é que estamos falando desse possível psicanalista teórico. Claro que encontramos nele uma prática também. A prática da leitura, indispensável claro, mas estudar não basta, por vezes, apenas faz crescer idealizações que o distanciarão de se descobrir desejante, independente do desejo do outro. Entendo que seja salutar à construção do conhecimento, mas exemplos e metáforas não poderiam substituir o principal. Navegar perto dos ventos fortes que encontramos ao reconstruir nossa subjetividade para, então, aprendermos a nadar sem as raias.
Talvez o grande ensinamento da metapsicologia seja esse: nos deixar na dúvida, na falta, na incerteza. Seria idealização imaginar que Freud sabiamente queimou partes de sua obra no intuito de ensinar aos póstumos como conviver com a falta e seria mais sensato pensar que isso fala da sua neurose, o retorno do recalcado talvez. O fato é que me serve de exemplo para esse aprendizado de conviver com o "buraco".
Se opondo aos profícuos escritos teóricos da psicanálise por vezes podem aparecer na clínica observações reducionistas, simplistas, como por exemplo: o comedor compulsivo tem um buraco, sente um grande vazio em sua existência e tenta tapá-lo preenchendo-o com a comida. Pergunto-me: E daí? De que serve isso?
O psicanalista teórico, que feito um de “comedor compulsivo” come a teoria pode limitar-se na clínica, tampar as descobertas do analisando (por vezes até as próprias), “obturar” sua história.
A reconstrução da subjetividade na clínica deve aparecer como descobertas do analisando e ligadas a sua história. Fazer uso da linguagem em prol do seu desejo. Dentro do contexto (para não me parecer com o que vinha criticando) abrir a boca para dizer não. Quem sabe um dia possa até escutar dessa boca, mas que parta dela, a observação de que sentia um vazio com o qual não sabia lidar, agora eu sei, aprendi.
Para terminar vale lembrar que em se tratando de tapar buracos o tripé na formação de um psicanalista não será capaz de fazê-lo e seremos como todos, incompletos.
Psicanalistas incompletos, mas que valorizam a importância do tripé em sua formação.
Gustavo Florencio Fernandes

domingo, 1 de fevereiro de 2009


O Analista e a Esfinge
É um erro acreditar que a ciência consiste apenas em proposições definitivamente provadas, e é injusto exigir que assim seja. Tal exigência é feita somente por aqueles que anelam mais que tudo pela Autoridade, e precisam substituir seu catecismo religioso por outro, ainda que de caráter científico”. Freud, S. “Conferências Introdutórias – III”

Quando o TRIEP me propôs que preparasse um texto para o seu blog, fiquei tomada por grande entusiasmo. Afinal, preparar um texto é sempre um “pretexto” para rever leituras, remexer antigos apontamentos, tentar entender o por quê ter sublinhado determinado parágrafo de um livro, quando o seguinte parece tão mais esclarecedor agora. . . Enfim, é uma boa oportunidade para se debruçar sobre o que se avaliava como já “sabido” e para se repensar sobre o quanto ainda não se “sabe”.
Já fazia algum tempo que não me debruçava para escrever algo mais formal e sistemático. Mas ocorre que no que diz respeito à Psicanálise, a questão não é começar a discorrer sobre a teoria apenas, pois envolve algo mais, algo que tem a ver com a sua prática.Digo “prática”, não apenas com a ideia de praticar a Psicanálise, mas a “prática” que envolve o ser analista: o analista - analista, o analista - analisando, o analista - supervisor, o analista - supervisionando, o que transmite, o que recebe ... Enfim, o campo específico da prática e da teoria psicanalítica.A melhor maneira então de iniciar um estudo da Psicanálise será voltar-se para sua origem histórica, voltar-se à época dos primórdios. E será justamente aí, onde poderemos acompanhar Freud, o criador da Psicanálise, em seu isolamento, explorando, questionando, duvidando e explorando novamente. Neste momento, era o amigo Fliess[1] quem se oferecia como único ouvinte, com quem ousou questionar as verdades da época; a quem expôs sua própria vida – analisando sonhos, atos falhos, lembranças – no trabalho de construção da teoria que se entrelaçava com sua auto-análise.Em busca pela verdade humana, na qual obviamente se incluía, Freud nos leva a participar constantemente de suas dúvidas, incertezas, abandonos e retomadas.
“A verdade”, escreveu Freud a Sandor Ferenczi
[2] em 1910, “é para mim o objetivo absoluto da ciência”.A verdade a qual persegue, podemos vê-la em sua maneira de escrever, onde há uma combinação dos processos primários e os processos secundários[3], onde seus aspectos intelectuais e inconscientes tem uma participação complementar.
As ideias são descobertas e pensadas à medida que as escreve, o que dá ao texto um tom de humildade, propriedade, dignidade e verdade. Ao mesmo tempo em que demonstra sua tolerância em relação ao incerto, suporta a angústia da dúvida e do não saber.
Não se defende das verdades, mas vai a busca delas - o que podemos observar em vários momentos da obra. Porém, o momento crucial onde questiona a teoria na qual vinha apoiando sua clínica e toda sua construção teórica, ocorreu em 1897 com o abandono da teoria da sedução.
É na carta datada de 21 de Setembro de 1897(carta 69), onde Freud fala pela primeira vez sobre a realidade psíquica e escreve: “Confiar-lhe-ei de imediato o grande segredo que lentamente comecei a compreender nos últimos meses. Não acredito mais em minha neurótica (teoria das neuroses).”
Em seguida passa a relatar os motivos que o levaram à sua descrença e completa : “...devo reconhecê-las (as dúvidas), como o resultado de um trabalho intelectual honesto e esforçado e devo ter orgulho, depois de ter ido tão fundo, ainda ser capaz de tal crítica. Será que essa dúvida representa apenas um episódio no avanço em direção a novos conhecimentos?”

Quem de nós, neste exato momento estaria livre o suficiente para tal posicionamento? Quem de nós suporta uma questão sem resposta?
Penso que a construção da teoria psicanalítica abriga o paradigma do que veio a ser o próprio ofício da psicanálise. Deparar-se com o novo, o desconhecido, com um enigma que se oferece para ser decifrado. É justamente com o que se deparou Freud na construção de sua obra e é com o que seguimos nos deparando e nos confrontando enquanto analistas.
O analista em sua clínica se depara a cada dia, a cada sessão e a cada minuto com algo do desconhecido. Assim como um arqueólogo que a cada fragmento da cerâmica encontrada, se surpreende com a história que se recria a sua frente. Os fragmentos da história “oculta” do sujeito, surgindo a partir do suporte de um outro, que ocupa o lugar de uma testemunha, transforma seu passado ao ressignificar suas marcas de memória, possibilitando novas perspectivas no seu presente e no seu futuro.
Ao introduzir o conceito de Inconsciente, Freud coloca a fala em outro lugar: “alguém que fala e ao fazê-lo diz mais do que aquilo que se propunha” (Alonso, S. 1988)
[4].Por isso, o que a Psicanálise traz de precioso para qualquer situação é seu dispositivo de “escuta”, a eficácia mágica do “deixar falar” os conteúdos latentes que surgem, os não ditos, as recorrências e repetições, as redes e interligações de novas falas que este dispositivo de escuta permite. E é em um trabalho de investigação psicanalítica que o analista exerce a suspeita de que há sempre um a mais do que o dito para ser escutado.Porém, quem se dispõe a escutar se depara com o inesperado; o inesperado que “pula” para dentro da sessão apoiando-se em aspectos da realidade para fazer-se presente e encontrar algum sentido. E é na forma surpreendente com a qual surge, que podemos presenciar o fenômeno da transferência. O analisando se dirige ao analista como o único e verdadeiro destinatário de sua palavra que traz seus desejos e fantasias. O analista mantém a transferência e é neste cenário que o trabalho analítico se passa.Contudo, como o analista poderá manter a transferência sem se confundir com ela?Sustentar o lugar de analista implica dificuldades. Implica em abdicar a todo momento o lugar de saber que lhe é oferecido. Esse processo poderá ser árduo para o analista, pois, depende de sua análise pessoal e do quanto é possível ao psicanalista realizar a renúncia narcísica para não correr o risco de ocupar o lugar de amo do desejo - convertendo a análise em sugestão; e tampouco se oferecer como ideal a ser imitado - convertendo a análise em pedagogia.
Vemos então, que o conhecimento da teoria nunca será o suficiente para tornar alguém apto para o ofício da psicanálise. Há que se reconhecer que “o analista interpreta sempre em função de uma tripla determinação: do que consegue escutar do que é falado pelo paciente (via atenção flutuante), do que incorporou do sistema conceitual (conhecimento teórico) . . e por último, . . . pelo conhecimento, sempre relativo, que o analista tem de seus próprios processos inconscientes.” (Hornstein, L., 1989)[5].
Se nos remetermos à tragédia do Édipo Rei, veremos que além da identificação no plano universal, que todos temos com Édipo, há outra situação que vive o herói da tragédia, à qual podemos nos livrar.
Refiro-me aqui a arrogância com que Édipo, após ter decifrado o enigma imposto pela Esfinge e entrar na cidade proibida, imaginou-se acima dos mortais e tornou-se surdo para o que não queria ouvir. Afinal era ele quem possuía o saber, aquele que pôde decifrar o enigma e com isso calar a Esfinge. Um saber que o tornou rei, mas que também o levou ao incesto, ao desespero e à cegueira.

O analista deve usar o que conhece da teoria em prol de um fazer falar e não de um fazer calar. Há que se pensar, que o que se sabe jamais será suficiente para aplacar todas as dúvidas e todas as faltas.
Como analistas temos que ressuscitar a cada dia a Esfinge, para que os enigmas sigam presentes, pedindo para serem decifrados.

Jundiaí, Fevereiro de 2009.
Edilaine Bronzeri Pugliese
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Bibliografia
FREUD, Sigmund. Recomendações aos médicos que exercem a Psicanálise, in Obras Completas, RJ, Imago Editora, 1969, vol XII.
GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o Inconsciente, RJ, Jorge Zahar Editor, 1984.
GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Introdução à Metapsicologia Freudiana – 2, RJ, Jorge Zahar Editor, 1991.
MEZAN, Renato. A vingança da Esfinge: Ensaios de Psicanálise, SP, Brasiliense, 1995.
HORNSTEIN, Luis. Introdução à Psicanálise. SP, Ed. Escuta, 1989.
ALONSO, Silvia. A escuta psicanalítica. Revista Percurso, nº 1, 1988.
ALONSO, Silvia. Efeitos na clínica dos ideais instituídos. Revista Percurso, nº 3, 1989.
KON ROSENFELD, Helena. O estilo do escritor Sigmund Freud: um passeio por Totem e Tabu. Revista Percurso nº 4, 1990.
MASSON, Jeffrey Moussaieff. Carta à Fliess de 21/09/1897 (carta 69), in: A correspondência Completa de Sigmund Freud para Wilhem Fliess 1887 – 1904, RJ, Imago Editora, 1986.
[1] Wilhelm Fliess (18581928) médico alemão, especializado em cirurgia e otorrinolaringologia.[2] Sandor Ferenczi (1873-1933), médico psiquiatra, psicanalista húngaro.[3] Processo primário, Processo secundário – dois modos de funcionamento do aparelho psíquico. Pode-se diferencia-los através do modo de escoamento da energia psíquica.[4] Silvia Leonor Alonso – psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae SP[5] Luis Hornstein – psicanalista membro do “Foro Psicanalítico de Buenos Aires”.