terça-feira, 26 de janeiro de 2016
terça-feira, 19 de janeiro de 2016
domingo, 4 de outubro de 2015
No dia 23 de setembro de 2015 realizamos uma
palestra do TRIEP, ministrada pela psicanalista Leila Veratti* e acompanhada
pela psicanalista Daisy Lino**, com os pais de alunos da EMEB Jânio da Silva
Quadros, no Parque Eloy Chaves. O tema - LIMITES: FRUSTRAM, EDUCAM OU
TRAUMATIZAM? – foi abordado do ponto de vista da Psicanálise e os pais
presentes ao encontro participaram com perguntas, dúvidas e experiências
cotidianas com os filhos entre a idade de 4 a 5 anos.
Abaixo, alguns trechos da palestra abordados com os pais.
(...) “Que tipo de pessoa você deseja que seu filho seja?”
É uma pergunta importante e que precisa, primeiramente, ser respondida pelos
próprios pais, e não de modo vago, mas com precisão. Isso ajudará na hora de
decidir ou de observar-se na relação que se estabelece com a criança e o
limite.
Por exemplo, digo que quero que ele seja honesto, mas acho
graça e o justifico – “foi sem querer” - quando aparece com um objeto que não é
seu, ao invés de lhe dizer que não se toma o que é do outro; que sem permissão,
não se pega nada, e que o objeto deve ser devolvido.
Limites, em primeiro lugar, têm a ver com a disposição dos
pais em pensar sobre si próprios e sobre seus filhos, no sentido de levar a
sério a experiência do convívio familiar; as necessidades das crianças e o
quanto um problema do filho também reflete um problema dos pais.
Ninguém, ao vir ao mundo, sabe o que é certo ou errado, nem
conhece as consequências de uma coisa ou de outra. Ao nascer, o bebê ainda não
tem uma ética definida. Há um conjunto de regras e condutas socialmente
estabelecidas que o antecedem em sua chegada e na qual ele estará mergulhado.
Mas uma ética pessoal ainda será constituída e somos nós,
adultos, especialmente os pais, que terão a tarefa fundamental de passar aos filhos,
à nova geração, conceitos importantíssimos que conferem ao pequeno ser a sua
humanidade, a sua identidade, a sua subjetividade. É isso o que o ajudará no
estabelecimento das relações sociais, a reconhecer limites, definir o que é seu
e o que é do outro, o que é público e o que é privado, a reconhecer-se como
sujeito individual e coletivo, ao mesmo tempo.
Para
que todo esse processo se formalize, é necessário acreditar que estabelecer
limites é
algo importante e necessário. Acreditar que os limites são organizadores da
vida porque não dizem somente o que não se pode, mas também, diz o que se pode.
Dar limites é ajudar a criança a se organizar, é delinear
com ela um contorno de seu campo de atuação, é cuidar! É esclarecer aspectos da
vida para alguém que ainda não o sabe e não consegue fazê-lo por si só. É
ajudar o filho a iniciar um processo de compreensão (perceber, tolerar, ser
condescendente) e apreensão (preocupar-se com; conhecer; assimilar) do outro em
sua diferença.
(...) É ao adulto que a criança recorre para sentir-se
segura para lidar com uma situação nova e desconhecida. É preciso que os pais
tenham clareza de suas convicções e sejam fiéis a elas, assim é que os pais se
constituem como modelos e podem ajudar o filho a se identificar com eles e
estruturar uma personalidade mais saudável.
Mas se, por outro lado, a criança que, por algum motivo,
não apreende os limites que lhe foram transmitidos, não considera regras e
combinados para suas ações, para seus desejos e suas vontades, quer tudo e já,
tende a desenvolver um quadro de dificuldades que, ao ir se instalando, pode
trazer prejuízos a ela e aos que convivem com ela. Por exemplo:
- Não consegue perceber o outro e não o toma em
consideração;
- Pode se desinteressar pelos estudos e pela aprendizagem
em geral;
- Apresentar dificuldade para lidar com frustrações e com a
necessidade de adiar a satisfação;
-Podem se apresentar muito agitadas, excitáveis,
agressivas, irritáveis.
É uma tarefa árdua, cansativa, mas talvez seja a única
maneira de ajudar a criança a se tornar uma pessoa eticamente responsável,
capaz de lidar com suas frustrações, adiar sua satisfação, de organizar-se e de
reconhecer o outro em sua diferença. (...)
*Psicanalista membro do TRIEP
**Psicanalista membro-fundador do TRIEP
segunda-feira, 28 de setembro de 2015
C I C L O D E
P A L E S T R A S
No dia 12 de setembro
de 2015, iniciamos o Ciclo de Palestras no TRIEP.
Colocamos na forma de
pergunta: Psicanalistas, psiquiatras e
psicólogos: como e com o que trabalham?
– a temática deste dia.
Trazemos aqui alguns dos
aspectos sobre a psicanálise, trabalhados pela colega psicanalista Ana Beatriz T. Facchini*.
Os tratamentos
psíquicos de modo geral são nomeados psicoterapias. Criou-se assim uma confusão
recorrente por conta disso...
A Psicanálise é uma
espécie de psicoterapia?
Freud, em seu artigo
de 1904 - “O método psicanalítico de Freud”, focaliza o problema da
psicoterapia e, como faz em outros textos da época, afirma que a psicanálise é
uma psicoterapia.
Porém, quando ele se
referia à psicoterapia era para contrastá-la aos meios curativos
físico-químicos existentes na época e, neste aspecto definia a psicoterapia como
o tratamento que se inicia na mente, ou o tratamento, seja de distúrbios
mentais ou físicos, através de medidas que atuem em primeiro lugar e
imediatamente sobre a mente humana.
Seu objetivo foi
diferenciar o trabalho que ele realizava das outras psicoterapias racionais e
sugestivas vigentes nesse período.
As inquietudes e
hesitações humanas foram compreendidas por Freud como decorrência da divisão estrutural do psiquismo em diversos sistemas, com
funcionamento regido por um conflito permanente entre forças opostas.
A originalidade
freudiana foi demonstrar de que modo o conflito psíquico estava em parte no
inconsciente, portanto oculto ao registro psíquico do Eu e a outra parte do
conflito, no consciente.
O inconsciente
freudiano é absolutamente diferente em relação à psicologia da consciência. Não
é o que temos de mais profundo, não é anárquico ou caótico. Não é aquilo que se
encontra abaixo do consciente.
Ele é uma forma de
articulação com leis próprias e o que o define não são seus conteúdos, mas o
modo como opera, impondo a seus conteúdos uma determinada configuração.
O inconsciente é constituído,
sobretudo de representações imagéticas e apesar de ser concebido como um lugar
psíquico, não significa um lugar anatômico ou corporificável.
Sendo assim, Psicanálise
e Psicologia possuem objetos de estudo distintos e a marca diferenciadora é o
conceito de inconsciente.
O inconsciente possui
natureza inesgotável, e se revela através dos seus efeitos que são: os
sintomas, atos falhos, chistes, sonhos, etc..
A regra fundamental do
tratamento psicanalítico é a associação livre, ou seja, dizer o que vier à mente
e do modo como isso se apresentar ao sujeito.
É se deixar falar para
que apareça o não dito, o indizível ou o irrepresentável, e assim irrompa algo
que possa ser tomado em consideração pelo analista e pelo analisando e, tornar-se
talvez algo elaborado mentalmente.
A fala, na situação
analítica não é como o falar do cotidiano que lança mão apenas de recursos de
linguagem. No tratamento analítico é considerada uma complexa variedade na
comunicação, pois por meio do enquadre analítico se instauram as condições
favoráveis ao trabalho do inconsciente e de sua linguagem – que não se
restringe exclusivamente à linguagem verbal ou da linguística.
Quem procura uma
análise vive um sofrimento, um sintoma que é aquilo que incomoda, provoca
desprazer e dor. O sintoma é sinal de que algo se passa, mas não é só
patológico, não é apenas fonte de sofrimento: pode ser também uma tentativa de
saída para a saúde que garanta certa ordem no sujeito.
Como na análise não se
toma objetivamente o sintoma a ser tratado ou eliminado, o paciente, à medida
que fala, reconhece seu inconsciente trazido à tona no processo analítico pelo discurso,
pensamentos ou palavras que o surpreendem com sua nova possibilidade de
teorização e significação.
Sendo assim,
dirigindo-se a um sujeito em sofrimento, o tratamento proposto pela psicanálise
não será de orientar, aconselhar e muito menos dizer o que deve fazer com a sua
vida. Não se trata de positivar todo pensamento nem apelar ao bom senso ou
ações óbvias. Por quê?
Porque o paciente já se
esforçou bastante antes de chegar a um psicanalista. Já se iludiu com várias
construções psíquicas, com várias teorias sobre o seu sofrer, se recriminou, se
puniu e tem dificuldades nos seus relacionamentos com o mundo. O paciente não
está do jeito que está porque não pensou direito ou lhe faltou ideias. Está
assim porque repete a mesma forma de pensar e essas repetições produziram uma
ruptura no ponto de equilíbrio de sua vida.
*Psicanalista. Graduada em Psicologia. Especialista em Psicologia
Clínica. Membro do TRIEP - Jundiaí.
segunda-feira, 20 de julho de 2015
segunda-feira, 22 de junho de 2015
"Não respeitamos mais a morte", afirma o psicanalista francês Charles Melman.
Psicanalista e
escritor francês considerado um dos principais seguidores do trabalho de Lacan
e Freud, Charles Melman foi escolhido por Lacan para ser um dos dirigentes da
École Freudienne de Paris. É também um dos fundadores da Associação Lacaniana
Internacional e autor de diversas obras de referência para a psicanálise.
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
Em agosto de 1999 foi
fundada em Jundiaí a instituição psicanalítica TRIEP - Trabalhos de Investigação e Estudos em Psicanálise.
A instituição surgiu por vontade e decisão de um pequeno grupo de
psicanalistas, entre elas Daisy Lino.
Com a formação em
Psicanálise pelo Instituto Sedes Sapientiae – SP, essas psicanalistas encontraram
aí as raízes das experiências e as diretrizes necessárias para formar, na
cidade de Jundiaí, um espaço de debate, divulgação e transmissão da Psicanálise.
Esse espaço se constituiu embasado na firme convicção de que, para a especificidade desta formação complexa e interminável, é imprescindível o compromisso ético com o tripé da formação, em especial, com a análise pessoal do analista.
Como primeira atividade
institucional, o TRIEP, na figura de suas idealizadoras, participou da “Semana
de Medicina Preventiva” promovida pelo HPS (Hospital Paulo Sacramento), em novembro
de 1999. O trabalho de participação nessa Semana teve como proposta uma
“Oficina para adolescentes”, com temáticas voltadas para orientação sexual,
doenças sexualmente transmissíveis, planejamento familiar e risco de gravidez
precoce.
Em 2000 o TRIEP iniciou com
sua primeira turma de Formação em Psicanálise, e passou, também, no mesmo ano, a
oferecer cursos de extensão e de aprimoramento, grupos de estudos aos profissionais de diferentes áreas do
conhecimento. Esta vertente é, até hoje, um dos pilares da instituição, a
partir do qual outros se ramificaram.
A partir de então, o solo
institucional estava formado e se ampliaram as
propostas de trabalho com os Encontros Psicanalíticos e eventos, trazendo para o centro da
discussão temas da atualidade e importantes para a prática clínica e para o trabalho
dos profissionais com diferentes atuações.
Contando com psicanalistas
convidados e com seus psicanalistas-membros, a instituição foi, ao longo do
tempo, tornando-se lugar de referência para o pensamento e a prática psicanalítica,
bem como para a discussão de questões que se relacionam ao humano em sua diversidade
e complexidade.
Em 2000 iniciaram-se os
trabalhos de Análise Institucional e
a Clínica dos Cursos, atualmente denominada
Clínica Social. Estas são duas
outras vertentes que, ainda hoje, solidificam a organização das frentes de
trabalho do TRIEP.
A Análise Institucional, oferecida a instituições e empresas, busca reconhecer, elucidar e compreender a causa, o sentido e a própria razão dos sofrimentos psíquicos que interferem no cotidiano do trabalho na instituição/empresa, comprometendo seu andamento e produtividade.
A Clínica Social oferece o Serviços de Atendimento Clínico, que visa possibilitar aos interessados, que não tenham condições de custear tratamento particular, atendimento psicanalítico em condições acessíveis.
O TRIEP, estimando o valor
da boa informação e esclarecimento iniciou, em 2000, parceria com o Jornal de Jundiaí (JJ), com a proposta
de apresentar ao leitor temas do cotidiano a partir da ótica da Psicanálise.
No Caderno Estilo, através da Coluna
Divã, parceria mantida até os dias atuais, aproxima o leitor de uma nova
discussão a respeito de assuntos que envolvem temáticas de saúde,
relacionamentos, sociedade e subjetividade.
Em 2002, a instituição
ampliou sua atuação oferecendo, também, a Supervisão
Clínica, para profissionais que se interessavam em discutir sua prática
clínica e/ou institucional a partir de um enfoque psicanalítico. O trabalho se
estendeu a grupos de profissionais das áreas da Saúde e da Educação, atuantes
nos setores público e privado.
Os espaços dos cursos de
extensão, de aprimoramento e Formação em Psicanálise, com a participação de
profissionais de diferentes áreas, trouxeram ao TRIEP o reconhecimento que se
aplica a uma instituição sólida e séria em sua proposta de trabalho e em seu
percurso.
Assim, desde sua fundação,
o TRIEP se apresentou como uma instituição atuante, estabelecendo temáticas e
fomentando debates do interesse de profissionais de áreas específicas (Saúde e
Educação), de demais áreas do conhecimento e do público em geral, traduzindo-se
como um espaço para reflexões e interlocuções de referencial psicanalítico.
O TRIEP também passou por
renovações e reformulações em seu percurso.
Agora, após 15 anos de
atividade permanente, a instituição se estabelece sob uma nova configuração e
conta, atualmente, com os seguintes psicanalistas, membros do TRIEP: Ana Beatriz T. Facchini, Cíntia Visnardi
Rodrigues, Daisy M. R. Lino, Eunice Gabriel da Silva, Gustavo Florêncio
Fernandes, Leila Cristina dos Santos Veratti, Patrícia M. Macieira Matalani e
Silvana M. J. Gastaldi Schioser.
Com o intuito de dar
continuidade à sua política institucional e a ideia de ampliar e dinamizar as
frentes de atuação, o TRIEP lançou-se a novos desafios, estabelecendo parcerias
com hospitais, empresas, escolas e faculdades, em Jundiaí e na região, sempre
com a proposta de estabelecer e ampliar o diálogo com outras áreas do
conhecimento e da cultura.
E é a partir deste
percurso consistente e com referencial definido e reconhecido que o TRIEP, em
comemoração aos seus 15 anos, convida
os interessados a conhecer e participar das próximas atividades, a serem
realizadas nos meses de outubro e novembro de 2014.
segunda-feira, 28 de julho de 2014
Chamada inadvertidamente de recalque, a inveja vem
sendo amplamente citada entre a grande maioria das letras do funk ostentação
que faz a cabeça dos jovens, inclusive entre seus representantes do sexo
feminino. Os artistas valorizam o
exibicionismo e o consumo excessivo de um lado e o deslumbramento com o acesso
aos bens materiais, a posse e a acumulação do outro. Os hits possuem letras de provocação a outras mulheres e são acompanhados de
videoclipes que invariavelmente seguem a mesma fórmula: bebidas caras, mulheres
exuberantes pouco vestidas, mansões suntuosas, carros luxuosos, motos
possantes, brilho e ouro, muito ouro, por sinal. São
verdadeiros hinos em nome do deboche – um recado bem irônico e direto para as
“recalcadas e invejosas de plantão” – e tem feito muito sucesso, seja nos
bailes funks da periferia ou dos bairros nobres, onde os mais empolgados “se
jogam” sem maiores pudores na coreografia, por sinal, contagiante.
Pensando nisso, recorri a uma antiga elaboração
escrita por mim realizada durante o curso de formação em psicanálise no TRIEP
para lançar alguma luz sobre a ótica da inveja presente na histeria.
Para a Psicanálise, a inveja é um traço de caráter da histeria. O
objetivo da inveja não é querer aquilo que o outro
tem, mas sim querer que o outro não tenha aquilo que já tem, e que supõe
dar-lhe completude. Seu alvo é um objeto parcial, um atributo desejável - poder,
autonomia, brilho do outro etc. -, e não a pessoa em si. O atributo desejável é
um simbolismo da possibilidade de algo ser separado do corpo, tirar do outro
aquilo que o invejoso não tem – uma suposta “felicidade”.
Podemos afirmar, portanto, que os conflitos
histéricos são fantasias inconscientes a espera da escuta psicanalítica. A
fantasia na neurose histérica é a incapacidade para a satisfação real de um
desejo sexual e é nela que as histéricas encontram sua satisfação e reconhecem
em si um enigma. A histeria é um excesso fantasmático, um desejo intenso que,
se não tem destino, produz adoecimento.
O olhar da histérica é um olhar invejoso. Freud
fala da inveja como o afeto presente no desenvolvimento sexual feminino, isto
é, a inveja é o “sentimento particular da falta”. Quando menina, ela julgou e
decidiu imediatamente: viu isso, sabe que não o tem, e quer tê-lo. Portanto, a
inveja do pênis é o processo que deriva do complexo de castração nas
histéricas. A inveja é uma verdadeira luta da suposta onipotência infantil perdida.
A mulher histérica precisa ver o que as outras mulheres têm para supostamente
responder ao seu maior enigma: eu sou mulher? Ela não compreende o que lhe
falta e o porquê de não ter sido “aparelhada”. Vê o horror de deduzir a falta,
da ordem da castração e questiona sua incompreensão.
Concluindo: toda essa cultura exagerada da inveja
não é culpa do funk ostentação. Também não
considero ruim que as pessoas sonhem em ter uma vida melhor ou até mesmo que
almejem a prosperidade. Como já dito, a inveja transita rumo ao desejo. Para a
histérica, existe apenas um atributo, e não dois, cuja posse por uma priva a
outra “recalcada” automaticamente da possibilidade de possuí-lo. Ao lado da
inveja fica uma figuração de tempo: a mulher intui que não tem pênis, mas
poderá tê-lo ou ter um equivalente dele. A histérica tem sua vida conturbada
pela angústia deste desejo inconsciente que encontrará apenas a satisfação
parcial. Há uma intensa hostilidade dirigida àquelas que possuem tantos
privilégios e apresenta-se o desejo de arrancá-los de tais possuidoras. A
lógica binária da castração opera com um “sim” e com um “não”, ou seja, ter ou
não o pênis, ou mais amplamente, ter ou não o atributo valorizado e invejado
pela “recalcada”. Citando São Tomás de Aquino:
“Invidia est
tristitia de alienis bonis : a inveja é a tristeza quanto às coisas boas de outrem.”
O
resto é “recalque”… Então, rala!
Cíntia
Visnardi Rodrigues
Psicanalista. Membro do TRIEP. Graduada em Letras
segunda-feira, 5 de maio de 2014
O luto e a luta*
Leila
Cristina dos Santos Veratti **
As duas palavras parecem não ter relação nenhuma,
para além da composição em quatro letras e uma certa similaridade sonora...
Luto, vem do latim luctus, que designa "dor, pesar, aflição, lamentar,
sofrer". Luta, também tem sua origem no latim, lucta, e significa
"luta, pugna, esforço". Hoje em dia, a forma como expressamos o luto
tem se apresentado bem diferente do modo como era feito décadas atrás.
Os rituais são um tanto distintos, quando os há. Mas os sentimentos e sensações
que envolvem e, muitas vezes, dominam aquele que perdeu uma pessoa muito amada
e querida, parecem não pertencer a essa série de rituais que se modificou com a
passagem do tempo: a tristeza, a revolta, a incompreensão acerca do acontecido,
as perguntas que se apresentam... tudo isso não se modificou. Repete-se na
incansável roda do tempo.
Em seu texto Luto e Melancolia, Freud diz que "o luto é a reação à perda
de uma pessoa amada." E que essa reação é superada com o tempo. Ao se
apresentar uma grande perda, o sujeito começa seu processo de luto. E cada
pessoa o representa a seu modo, procurando uma forma de expressar sua dor, seu
pesar, sua aflição, seu lamento. Nessa expressão bastante peculiar a cada um, o
processo de luto se transforma também em luta.
É preciso que toda uma série de investimentos em lembranças, em situações
vividas com aquele que não está mais presente, possam se apresentar ao
psiquismo do indivíduo para que, abastecido destas memórias, ele possa, aos
poucos, se desligar de tamanho pesar e sofrimento e transformar sua dor em
outra coisa: saudade, lembrança, herança emocional, uma marca que diga respeito
somente à sua relação com o ente querido, mas agora perdido.
Tudo isso requer um trabalho psíquico, um "esforço", uma
"luta", para que haja elaboração. A perda marca em nós uma falta.
Muitas vezes, acreditamos que, com esta falta, nos perdemos naquele que se foi.
Por um período, podemos acreditar que de nós também não restou muita coisa. Mas
se passarmos por esta luta e este luto, de uma maneira a termos internalizadas
nossas imagens, nossas vivências e experiências com aquele que partiu, podemos
verificar o quanto dele é que ficou em nós.
"A imagem preservada pelo amor, substitui o corpo que fomos obrigados a
nunca mais ver." (Diana Corso, psicanalista). Nunca mais! A marca
indelével da falta. Falta para a qual cada civilização, cada sociedade, cada
indivíduo, procura uma forma para lidar com ela. Talvez para não sucumbir à
perda...
"A angústia e a lembrança do mais ou menos de toda separação. A angústia
provém da espera do retorno e não da perda. Assim o luto pela morte realmente
advinda, é diferente (...) da angústia de separação. "Até já" é
justamente o que a morte proíbe e a religião e o amor autorizam. E a gente se
desgasta em imaginar o inimaginável de um "nunca mais", imagem
impossível de um retorno imaginado, diferido ao absurdo. "Até já"...
aí tudo recomeça...(...) A separação é esta dor que é a vida, que se imagina,
se representa e se sonha." (Radmila Zygouris).
*Artigo publicado no Jornal de Jundiaí
de 04/05/14 – Caderno Estilo
**Psicanalista
pelo TRIEP e membro do TRIEP - Trabalhos de Investigação e Estudos em Psicanálise.
sábado, 12 de abril de 2014
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
17 de dezembro de 2013
Rubens M. Volich**
Como esclarece o psicanalista
Rubens M. Volich, somos seres ambivalentes. Queremos que o ano acabe logo para
podermos usufruir dos amplos horizontes de um calendário novinho em folha, mas
tentamos até o último minuto de dezembro fazer acertos de contas com as
promessas que não realizamos na jornada que chega ao fim.
Ao nascer, o ser humano é inserido numa
temporalidade, numa filiação e numa história. Vivemos a experiência do antes e
do depois, do passado e do futuro e também, claro, do presente. Os bebês e as
crianças pequenas não experimentam essas categorias como nós, adultos. O tempo
se organiza aos poucos ao longo do desenvolvimento humano, a partir das
primeiras experiências das crianças com seu corpo, suas necessidades, seus
ritmos biológicos como, por exemplo, o sono, a fome, a sede. Na oscilação entre
a tensão de uma necessidade, como a fome, e o relaxamento vivido quando ela é
saciada constituem-se, para a criança, os ritmos e a experiência do tempo. As
oscilações entre a necessidade e a satisfação, entre o desprazer e o prazer
instauram a temporalidade do humano.
É
importante também lembrar que, ao longo de toda a vida, uma parte de nós, o
inconsciente, persiste em não reconhecer a ordenação temporal. Como revelou
Freud, e como nos mostram diariamente nossos sonhos, o inconsciente é o “lugar”
onde tudo é possível. Nele coexistem, sem nenhuma contradição, o passado e
presente, o antes e o depois, o aqui e o acolá, as cenas da infância e as
fantasias sobre o futuro.
Para
entendermos nossa relação com o tempo, é também preciso perceber que o humano é
um ser em movimento permanente entre o desejo e a realidade; a potência e a
impotência; a culpa e a promessa. Oscilamos entre a esperança de satisfação de
nossos desejos e a frustração por sua insatisfação, entre momentos de prazer e
de desprazer.
Apesar
de aprendermos, a duras penas, a lidar com a realidade da não satisfação e do
desprazer, o inconsciente e as fantasias ligadas a nossas experiências infantis
incitam-nos a acreditar na possibilidade de satisfações e prazeres ilimitados.
Guardamos para sempre as marcas desses funcionamentos, criando, ao longo da
vida, estratégias para lidar com a realidade e com as experiências que
desmentem a onipotência de nossos desejos. Projetamos sobre uma outra pessoa a
responsabilidade pela frustração de um desejo, deslocamos para um outro objeto
a esperança de satisfação desse desejo frustrado, negamos a dor dessa
frustração.
A
temporalidade é o pano de fundo desses movimentos do desejo. O passado é o
tempo da verdade, da realidade implacável do que já aconteceu e não pode mais
ser modificado. É o tempo que nos confronta com o sofrimento dos desejos
insatisfeitos e com o prazer das satisfações já alcançadas. Podemos negar
aqueles sofrimentos e corremos o risco de nos tornarmos prisioneiros das
satisfações já obtidas. O futuro é o tempo em que tudo ainda é possível. É o
tempo das promessas, propício para que acreditemos que todos os nossos desejos
ainda têm chances de se realizarem. As frustrações do passado ou do presente
podem nos convidar a negar ou esquecer esses tempos. O futuro se oferece com
suas novas possibilidades para tentarmos satisfazer o que não foi possível
anteriormente.
Ao
aproximar-se o final de um ano, queremos que ele acabe logo para esquecermos
nossas dores e frustrações e podermos acreditar que no próximo seremos mais
felizes e satisfeitos. O futuro é o tempo propício para a projeção da
onipotência infantil, do pensamento mágico e da ilusão – no bom sentido da
palavra, pois, como nos revelou D. W. Winnicott, precisamos sonhar, inclusive,
para acreditarmos em nós mesmos, nos outros e no mundo que nos rodeia, e
continuar vivendo.
A
passagem de ano marca um momento, aleatório, que se presta de forma
particularmente fértil a esse pensamento mágico, infantil, inconsciente. No
Réveillon, podemos acreditar ter deixado para trás, no Ano Velho, nossas
decepções, nossas perdas e nossa tristeza, projetando, no Novo Ano, todas as
esperanças e desejos que acreditamos, magicamente, serão “certamente”
satisfeitos.
Porém,
por mais que oscilemos entre essas duas possibilidades – querer que tudo acabe
logo esperando a oportunidade de um novo início –, precisamos também negociar
com nossas culpas: “Será que conseguirei suportar o fato de que o ano vai
acabar e não fiz várias coisas que pretendia? Não vi todos meus amigos, não terminei
o trabalho planejado, não encontrei um novo amor…”. Diante do tempo que se
esvai ao final de cada ano, surge então a urgência de resolver todas essas
pendências em dezembro.
Somos
seres ambivalentes. Ao mesmo tempo em que queremos que tudo acabe logo para
termos a chance de um novo início, queremos também ganhar um tempo que não
existe para tentarmos até o último minuto do ano realizar o impossível. Sempre
buscando alcançar tudo o que desejamos, negociamos com nós mesmos. Olhamos para
a lista de promessas de 2013, tentamos nos dar uma última chance, mas guardamos
uma carta, na manga: “Se não der certo, passarei para a lista de 2014… que,
aliás, com certeza, será muito melhor, com mais felicidade, amor, saúde,
dinheiro…”.
“Humano,
demasiadamente humano”, como diria Nietzsche. Nessas vivências, dentro de
certos limites, nada há de doentio. Como o fizemos desde nossas primeiras
experiências infantis com a realidade do mundo, vivemos e alimentamos as
ilusões e as fantasias necessárias para que acreditemos que podemos superar
nossas dores e que a esperança nos dê motivo para que continuemos vivos, em
busca da satisfação de nossos desejos.
Porém,
são essas experiências necessárias à vida, a ilusão e a esperança que nos
tornam presas fáceis do marketing e do consumo. Nessa dimensão mágica,
infantil, onipotente, tornamo-nos facilmente vulneráveis aos apelos e
publicidades que, mais do que prometer, tentam nos garantir que, nas festas de
final de ano, nossos desejos efetivamente serão satisfeitos, que encontraremos
ao pé da árvore o presente pelo qual ansiamos; que sem dúvida o próximo ano
será muito melhor, que conquistaremos tudo aquilo que não alcançamos no ano que
se encerra…
É
através dessa brecha, da “ilusão necessária” para o viver, que se infiltram a
tirania do consumo e dos ideais que nos escravizam – não só no Natal e Ano
Novo, mas especialmente nessas datas.
Quando
isso ocorre, o jogo vira: o que era facultativo – a ilusão, o devaneio, o sonho
– passa a ser compulsório. Nas festas, somos obrigados a ser felizes; nas
ceias, temos de comer e beber bem além de nossa necessidade e prazer; temos a
obrigação de comemorar, ser alegres, esperançosos, apagando as frustrações do
passado.
Mas
o compulsório é uma violência contra o humano. O que poderia ser prazer
torna-se imperativo, fonte de exigência, urgência, pressão. Assim,
“enlouquecemos”, nos “estressamos” e nos maltratamos nos finais de ano. Não
temos mais escolha.
O
que poderia ser uma experiência de recolhimento, de reflexão, um momento para
sintonizarmos com outras dimensões, espirituais e afetivas, pessoais,
familiares e sociais desse período do ano torna-se inviável diante das
exigências das celebrações coletivas.
O
que poderia ser uma pausa, para elaborarmos nossos feitos e decepções, nossas
conquistas e perdas, para sonharmos com o que realmente desejamos no porvir,
torna-se impróprio e mesmo inconveniente.
O que já foi e poderia novamente ser
um jogo delicioso, de liberdade de escolha e de crescimento, transforma-se em
verdadeira servidão.
*artigo publicado na Revista Brasileiros
**Psicanalista. Doutor pela Universidade de Paris VII – Denis Diderot. Professor do Curso de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae. Autor de Psicossomática: de Hipócrates à Psicanálise; Hipocondria: impasse da alma, desafios do corpo; Segredos de mulher: diálogos entre um ginecologista e um psicanalista; coorganizador e autor dos livros da série Psicossoma.
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
sexta-feira, 7 de junho de 2013
quarta-feira, 15 de maio de 2013
A produção da
doença*
Por Vladimir Safatle**
A
partir do final de maio, estará disponível a quinta e última versão do Manual
Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM). É de esperar que, a
partir de agora, um importante debate a respeito da maneira com que as
distinções entre normal e patológico foram modificadas chegue à opinião
pública.
Utilizado de maneira cada vez mais extensiva como
padrão de reflexão sobre a natureza do sofrimento psíquico, o DSM está longe de
ter o fundamento científico e isento que ele gostaria de nos fazer acreditar.
Influências de toda ordem entram em cena. Afinal, cada novo transtorno é
promessa de novos investimentos bilionários da indústria farmacêutica, assim
como garantia do aparecimento certo de verdadeiras epidemias visíveis do dia
para a noite graças à divulgação maciça pela imprensa mundial e suas matérias
de saúde.
Talvez
isso explique ao menos um pouco essa verdadeira tendência de
"patologização da vida cotidiana" levada a cabo pelo DSM-5, que
elevou o número de patologias mentais a 450 categorias diagnósticas. Elas eram
265 no DSM-3, lançado em 1980, e 182 no DSM-2 (de 1968).
De
fato, com modificações como as que diminui o luto patológico de dois meses para
15 dias ou que cria categorias bisonhas como o transtorno disruptivo de
desregulação de humor, o vício comportamental (behavioral addiction) ou o
transtorno generalizado de ansiedade, dificilmente alguém que passa por
conflitos psíquicos e períodos de incerteza entrará em um consultório
psiquiátrico sem um diagnóstico e uma receita médica.
Por
trás desta estratégia clínica, com sua negação de perspectivas etiológicas, há
a tentativa equivocada de transformar toda experiência de sofrimento em uma
patologia a ser tratada. Mas uma vida na qual todo sofrimento é sintoma a ser
extirpado é uma vida dependente de maneira compulsiva da voz segura do
especialista, restrita a um padrão de normalidade que não é outra coisa que a
internalização desesperada de uma normatividade disciplinar decidida em
laboratório. Ou seja, uma vida cada vez mais enfraquecida e incapaz de lidar
com conflitos, contradições e reconfigurações necessárias.
Há
de se perguntar se tal enfraquecimento não será, ao final, o resultado social
destas modificações no campo da saúde mental patrocinadas pelo DSM. Pois uma
coisa é certa: há muito o que questionar na eficácia de tais sobrediagnósticos.
Basta lembrar como houve, de 2000 a 2009, um aumento de 60% no consumo de
antidepressivos nos países da OCDE (Organização para a Cooperação e o
Desenvolvimento Econômico). Nada indica que a taxa de depressão tenha
diminuído.
*artigo publicado na Folha de São Paulo,
15/5/2013.
**Vladimir Safatle é professor
livre-docente do Departamento de Filosofia da USP (Universidade de São Paulo).
sexta-feira, 12 de abril de 2013
Divã: o de Procusto e o da Psicanálise*
Por Leila Cristina dos Santos Veratti**
A atemporalidade da
narrativa dos mitos e lendas nos ajuda, mais uma vez, a compreender, pensar e
ilustrar nossa história, enquanto indivíduos e enquanto sociedade.
Na região da antiga
Grécia, em Ática, na estrada de Elêusis, vivia um criminoso bastante conhecido
pelos métodos que infligia às vítimas que atacava. Com o intuito de assaltar
aqueles que transitavam pelas estradas em que exercia sua “arte ilícita”, Procusto
(como ficou conhecido) oferecia aos viajantes sua “hospitalidade”.
A eles, oferecia
para o descanso, um divã – uma cama de ferro com a justa medida de seu próprio
corpo. Quando o viajante adormecia, Procusto dava início ao suplício: se o
viajante fosse maior, partes de seu corpo lhe eram cortadas, os pés ou a
cabeça, para “facilitar” a adequação. E se o viajante fosse menor, seu corpo
era esticado a fim de caber no espaço a ele designado. Procusto usava a si
mesmo como “a medida única para todas as coisas”. A isso chamava justiça... Sua
aparente benevolência era um atrativo para as vítimas que, mais cedo ou mais
tarde, para mais ou para menos, pagavam com seu próprio corpo.
Talvez Procusto
tenha sido, ainda que em termos mitológicos, um dos primeiros normatizadores de
que se tem notícia. A lenda nos ajuda a compreender questões relativas à
dificuldade em lidar com aquilo que escapa ao que é esperado como normal,
padrão, comum, com aquilo que é diferente e foge a uma conhecida e determinada
curva de normalidade ou de normatização do sujeito...
O divã da psicanálise
é bastante distinto do divã de Procusto. E está relacionado com a essência do
saber psicanalítico que, desde suas construções iniciais, refere-se a uma
espécie de crítica a qualquer tentativa de normalização, pedagogização e
condicionamento, buscando compreender o que está para além ou aquém destas
fronteiras e que diz respeito à subjetividade em sua pluralidade.
O divã de Freud, um
mobiliário azul com várias almofadas e um tapete aos pés, para que o paciente
pudesse se aquecer e se aconchegar, foi presente de uma de suas pacientes,
Madame Benvenisti (que após o término do tratamento, estava muito grata a Freud
e quis concretizar esta gratidão, presenteando-o).
A partir de então,
o divã passou a fazer parte do cenário psicanalítico como um convite ao
paciente para que, deitado, em contato mínimo com estímulos que possam
“distraí-lo de si mesmo” e sem a interferência do olhar do analista, ele possa
entregar-se à sua própria história e ajustar-se a um lugar (psíquico) que é
somente seu.
É este um dos
objetivos da psicanálise que, como ferramenta de interlocução, possibilita que
“o sujeito torne-se não conforme a norma, mas segundo ele mesmo” (Mannoni,
1991). E não em conformidade com algo que lhe é imposto de fora para dentro,
mas de acordo com aquilo que ele se dá a conhecer de si mesmo, do que a cada um
é possível fazer-saber de si.
Assim, podemos
dizer que numa experiência analítica, que não se reduz a uma tentativa de
ortopedia ou engessamento psíquico, o sujeito experimenta o que seria "O périplo pelo qual o personagem se educa para vida, enfrentando-se com a decepção, com a dor e com a perda das ilusões, mas também tomando conhecimento de suas possibilidades, de seus limites e de suas responsabilidades" (Mezan). Enfim, o divã na psicanálise propõe uma acolhida para aquele que se dispõe a esta viagem para o insólito e desconhecido de si mesmo. Mares calmos não serão garantidos, mas a parceria analista-analisando possibilita navegar por estes mares "nunca dantes navegados"...
*Artigo publicado no Jornal de Jundiaí em 07/04/13
**Psicóloga e psicanalista pelo TRIEP, membro do TRIEP.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013
"Amor" letal *
Por Contardo Calligaris**
Por que sempre chega um dia em que ninguém aguenta mais cuidar?
Algumas reflexões depois de assistir a "Amor", de Michael Haneke. Adolescente, eu já achava bizarra a certeza com a qual alguns amigos se expressavam: "Se eu ficar 'assim'", diziam, "eu me mato na hora. E, por favor, se eu não me matar, seja generoso comigo, mate-me você".
O "assim" que justificava tamanha convicção dependia de relatos, leituras e filmes - ia desde uma impotência sexual talvez passageira (mas que parecia acabar com o charme da vida) até a condição terrificante do protagonista de "Jonny Vai à Guerra", livro e filme de Dalton Trumbo: o soldado Joe, sem braços, sem pernas, sem rosto, parece ser apenas uma carne disforme, enquanto a mente dele continua funcionando.
Eu não concordava com a certeza suicida de meus amigos; imaginava que, antes de decidir me matar, seria bom experimentar minha nova condição durante um tempo. Afinal, em geral, as imperfeições nunca impediram os humanos de viver - ao contrário.
Na época de minha adolescência, não dispúnhamos do exemplo do físico Stephen Hawking ou de Christy Brown, o protagonista de "Meu Pé Esquerdo", de Jim Sheridan. Em compensação, um amigo de meus pais, severamente inválido, disse-me, uma vez: "Você, por exemplo, não pode voar como as aves e é desafinado como um sino quebrado; ou seja, tem coisas que não pode fazer, e você vai procurar o valor de sua vida em outras coisas, que você pode fazer. Comigo não é diferente".
Entendi. Mas me sobrou um certo medo (justamente, pela leitura precoce de "Johnny Vai à Guerra"): poderia acontecer que, de imediato, por causa de um acidente cerebral ou, sei lá, de um incidente de carro, eu me encontrasse numa condição na qual eu não quisesse viver de jeito nenhum e na qual eu não tivesse sequer a capacidade material e mental de pôr fim à minha vida ou de pedir para um próximo que ele me ajudasse a morrer.
Anos atrás, conheci alguém realmente preocupado (muito mais do que eu) com essa eventualidade. Ele envelheceu desesperado, oscilando entre o medo de se matar cedo demais, quando ainda poderia viver um tempo que valesse a pena, e o perigo de esperar além da conta e decidir sair de cena quando ele não tivesse mais condições de se matar ou de pedir a alguém que o matasse.
O mesmo alguém se consolava pensando assim: no caso extremo em que eu não pudesse mais pedir, quem me ama (ou melhor, quem amava aquela pessoa que eu era antes) saberá decidir que eu, embora impedido de me manifestar por minha invalidez, não estou querendo mais viver. Nessa situação, para quem me ama (ou amava, que seja), me ajudar a morrer seria um gesto de amor.
Pois é. Não é tão fácil assim nem tão claro. Na sua coluna de sexta passada, Barbara Gancia escreveu, com razão, que "o fardo de cuidar dos idosos tornou-se um dos maiores dramas da atualidade". Os avanços da medicina fazem que, hoje, sejam cada vez mais numerosos os que cuidam de próximos que sobrevivem transformados pela idade, pela invalidez ou pela demência. E sobrevivem, muitas vezes, tanto irreconhecíveis quanto incapazes de reconhecer os que cuidam deles. Perguntas básicas.
1) Será que o outro que nós amávamos, se ele pudesse escolher, toparia viver como ele está agora?
2) Será que o ser do qual cuidamos hoje é o mesmo que nós amávamos antes do acidente, da invalidez ou da demência? Se ele não for o mesmo, será que esse "novo" ser não tem seus próprios critérios do que é uma vida que valha a pena de ser vivida - critérios diferentes dos do nosso amado de antes?
3) Difícil continuar amando alguém que não nos reconhece mais. Mas será que por isso o deixaríamos morrer - por ele não ser mais aquele ou aquela que amávamos?
4) Por que sempre chega um dia em que ninguém aguenta mais cuidar? É porque o custo (em todos os sentidos) é excessivo e queremos recuperar nossas vidas? Ou é porque é quase impossível fazer o luto de um amado que já se foi, mas continua de corpo presente?
Acontece que alguém se suicide depois de ter matado um amado inválido e demente, de que não consegue mais cuidar. É mais que uma maneira de evitar a culpa: renunciando a viver sem você, confirmo que foi por amor que matei você - ou melhor, que matei o desconhecido que tinha tomado seu lugar.
Pois é, foi mesmo por amor que matei você? Ou por vingança, por você ter me deixado sozinho?
Seja como for, fica confirmado, embora num sentido inabitual, que o amor resiste dificilmente ao tempo.
*artigo publicado na Folha de S. paulo, 31/01/2013
** Contardo Calligaris, italiano, é psicanalista, doutor em psicologia clínica e escritor.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
O pensar como doença*
Por Vladimir Safatle**
"O
estado de reflexão é contra a natureza. O homem que medita é um animal
depravado." Tais afirmações de Rousseau parecem servir de guia
involuntário para setores hegemônicos da clínica do sofrimento psíquico.
Há
anos, a filosofa francesa Joëlle Proust foi capaz de afirmar que o sofrimento psíquico
não teria relações com a forma com que o paciente reflete sobre seus sintomas a
partir de suas próprias convicções e motivações.
Com
isso, ela apenas dava forma a um princípio que parece guiar dimensões maiores da
psiquiatria contemporânea. Ou
seja, tudo se passa como se não houvesse relações entre a maneira com que sofremos
e a maneira com que pensamos e procuramos justificar nossas vidas a partir de
valores e normas.
Essa
é uma boa maneira de evitar o trabalho mais doloroso exigido pelo tratamento de
modalidades de sofrimento psíquico, a saber, a crítica dos valores, normas e
formas de pensar que constituem, tacitamente, nosso horizonte de uma vida
bem-sucedida.
A
fim de evitar tal trabalho crítico, que certamente é o que há de mais difícil,
parece que nos tranquilizamos com ideias como as da professora Proust. Elas
acabam por servir para fortalecer a crença de que só haveria cura lá onde
abandonássemos o esforço de pensar sobre nós mesmos. No fundo, talvez porque
ainda estejamos presos a resquícios deste antigo paralelismo que associava, por
exemplo, a melancolia ao ato de "pensar demais".
Décadas
atrás, François Truffaut fez um belo filme sobre uma sociedade no futuro onde a
polícia queimava livros porque eles trariam infelicidade. Melhor seria garantir
a felicidade social por meio de uma política de uso exaustivo de medicamentos.
Tal
filme foi a metáfora perfeita para um fenômeno que o sociólogo Alain Ehrenberg chamou,
décadas depois, de "uso cosmético" de antidepressivos e afins.
Por
"uso cosmético" entendamos o uso de larga continuidade que acaba por
visar conservar performances sociais bem avaliadas, evitando ao máximo a
experiência com transtornos de humor. Ele é o resultado inevitável do modelo de
medicação que impera atualmente. Trata-se de uma distorção daquilo que deveria
ser a regra, a saber, o uso focal ligado exclusivamente a situações e momentos
de crise aguda.
Tal
uso focal procura apenas garantir as condições de possibilidade para que o verdadeiro
tratamento ocorra. Um tratamento que poderá mostrar como, se é a reflexão que
nos adoece, é ela também que nos cura.
*artigo publicado Folha
de S. Paulo em 27/11/2012
** Vladimir Safatle, filósofo, professor universitário
e colunista da Folha de São Paulo.
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