segunda-feira, 26 de abril de 2010


Análise Institucional: uma clínica psicanalítica
Freud nunca negligenciou a técnica psicanalítica e se ocupou dela ora em momento específico de sua escrita, ora de maneira diluída nas análises de casos clínicos e nas considerações conceituais.
Podemos verificar na elaboração teórica freudiana a marca do privilégio da escuta do sofrimento psíquico em sua excentricidade. As perguntas que chegavam da clínica o faziam pensar e repensar analiticamente, não constituindo somente um espaço de mera aplicação do já conceitualizado. O refazer teórico característico da obra freudiana, ainda hoje, propicia a existência de perspectivas de conceber a prática analítica como um campo de investigação e tratamento não homogêneo.
Acreditamos fundamental a recriação da psicanálise em cada possibilidade de escuta do sofrimento em seus aspectos singulares e coletivos, e daí abordamos possibilidades clínicas que extrapolam a prática de consultório – individual.
A Análise Institucional, uma abordagem que desenvolve um conjunto de conceitos e instrumentos para a análise e intervenção nas instituições, surgiu no Brasil nos anos 70, congregando os mais diferentes tipos de profissionais. A expressão análise institucional não tem um sentido único, pois na realidade, ela se constituiu a partir de um conjunto de disciplinas e movimentos que ocorreram na sociedade francesa, a partir dos anos 40 e 50.
Consideramos a "análise institucional" e a "socioanálise", de tradição dialética, originadas, sobretudo das obras de René Lourau e Georges Lapassade, e, de outro lado, a "esquizoanálise", inspirada na filosofia da diferença, relacionada a Félix Guattari e Gilles Deleuze.
Utilizamos a Análise Institucional como um recurso para atuar/intervir no interior de instituições, apoiada na referência psicanalítica, fazendo uma articulação com conceitos da análise institucional que se demonstraram potentes para o entendimento dos elementos do imaginário social atravessadores das práticas institucionais. Trata-se de considerar a saúde mental coletiva da instituição, o que significa examinar a presença de processos grupais dentro do psiquismo individual, ou seja, é possível analisar o discurso de um grupo como uma cadeia de associações onde se produzem diversos mecanismos psíquicos como são os deslocamentos, a condensação entre outros e fantasias referentes àquilo que suscita o encontro grupal.
A cura é pela fala, e permitir um grupo falar ou discursar sobre si mesmos, ou falar sobre as relações de trabalho, o dia a dia, tem uma função terapêutica dentro de uma instituição seja esta de cura, pedagógica ou de prestação de serviços. A psicanálise neste tipo de intervenções vai ao encontro de uma demanda e poderá haver um ato analítico se houver um profissional escutando e interpretando um grupo ou uma equipe discursando livremente. O grupo que descrevo aqui tem como tarefa, falar tudo aquilo que quiserem, referido de preferência ao trabalho, ao dia a dia, as relações entre colegas, com chefias, entre eles e outros setores da empresa. Em síntese falar tudo aquilo que quiserem sobre o cotidiano no trabalho. O importante é que este grupo analítico tem como finalidade realizar uma "cura" ou desvencilhar os processos inconscientes ou descobrir a origem das dificuldades.
O grupo analítico é um trabalho dentro do espaço institucional, organizacional e empresarial aonde o "discursar sobre o dia a dia de trabalho" permite elaborar as relações de trabalho, aprender a reconhecer as próprias limitações, encontrar um sentido a própria dificuldade, aceitar as diferenças, reconhecer o outro.
O trabalho psicanalítico dentro de uma instituição, portanto, não se limita ao espaço íntimo do encontro analítico com o paciente e nem um pouco o reproduz em “grupo”. É necessário pensar e refletir alguns aspectos específicos do quadro estabelecido pela e com a instituição. Como cada instituição apresenta suas próprias normas e leis de funcionamento, torna-se extremamente complexo o estudo dos vínculos institucionais. E, além disso, cada instituição vai constituindo, ao longo de sua história, posições fantasmáticas em relação à população que atende, ao redor do material que trabalha. Nessa relação, a instituição se encontra numa tensão permanente entre a separação e a alienação à imagem que constrói de seus clientes/usuários. Essa imagem, que regula as relações entre os agentes institucionais e seus clientes, está alicerçada numa construção social mais ampla, onde encontramos influências de todo tipo: históricas, políticas, estéticas, midiáticas, etc., que funcionam como poderosos obturadores à possibilidade do encontro singular, à emergência de um sujeito, a uma lógica discursiva que aponta para a alteridade, para a produção de diferença.
Em 1930, Freud ressalta no seu trabalho “O mal estar na civilização” que o futuro da humanidade depende de como os homens enfrentam as perturbações coletivas. A psicanálise pode contribuir imensamente ao oferecer um espaço de elaboração da realidade psíquica mobilizada ou sustentada pelas instituições. A oportunidade de analisar e refletir sobre as dificuldades humanas no enfrentamento da realidade de uma instituição/empresa/organização, pode viabilizar as elaborações necessárias ao nosso próprio futuro.
DAISY MARIA RAMOS LINO
Psicanalista, Analista institucional e Responsável Técnica TRIEP

sábado, 27 de março de 2010


Sigmund Freud como no original*Trabalhos do criador da psicanálise ganham novas traduções feitas diretamente do alemão

Recentemente colocados sob domínio público, os textos de Sigmund Freud (1856- 1939) já começam a chegar às livrarias em suas novas roupagens, como esta providenciada pela Companhia das Letras. A editora planeja o lançamento da obra completa traduzida diretamente do alemão pelo germanista Paulo César de Souza (a exemplo do que vem fazendo a Imago desde 2004, sob coordenação de Luiz Alberto Hanns). O projeto editorial, organizado em 20 volumes, respeita a sequência cronológica dos textos, mas lança inicialmente os títulos publicados por volta de 1915, ou seja, de um período no qual o pensamento freudiano estava consolidado e em expansão teórica. Assim aparecem agora os volumes 10 (Observações Psicanalíticas sobre um Caso de Paranóia Relatado em Autobiografia - O Caso Schreber -, Artigos sobre Técnica e Outros Textos - 1911-1913); 12 (Introdução ao Narcisismo, Ensaios de Metapsicologia e Outros Textos - 1914-16); e 14 (História de Uma Neurose Infantil - O Homem dos Lobos -, Além do Princípio do Prazer e Outros Textos - 1917-20).
Temos aí trabalhos teóricos e técnicos da maior importância e dois dos famosos casos clínicos de Freud, o Caso Schreber e O Homem dos Lobos, que certamente encantarão o leitor curioso. Schreber foi um importante magistrado alemão que escreveu um registro biográfico no qual expõe com riqueza de detalhes (embora a família tenha censurado grande parte do texto) a transformação de seu corpo para ser a mulher de Deus e com ele engendrar uma nova raça de homens. A partir deste livro, Freud retraça as origens e os significados do delírio, mostrando como mesmo as ideias mais loucas e descabidas podem ser compreendidas, desde que remetidas à lógica própria do inconsciente. O mesmo pode ser dito sobre O Homem dos Lobos, jovem russo e rico que perambulava pela Europa atrás de quem o curasse de suas angústias e que, aos 4 anos, tivera um sonho no qual via uma árvore em cujos galhos estavam sentados alguns lobos (razão do apelido com o qual ficou conhecido), o que permitiu a Freud realizar uma controvertida construção.
Concomitantemente às obras de Freud, a editora relança a tese de doutorado do tradutor, As Palavras de Freud - O Vocabulário Freudiano e Suas Versões, defendida na USP, centrada no exame das dificuldades apresentadas na tradução de determinados termos "técnicos" fundamentais dentro da teoria freudiana. São eles Ich (ego), Es (id), Besetzung (catexia), Verdrängung (recalque ou repressão), Vorstellung (representação), Angst (angústia), Nachtraglichkeit (posterioridade), Verneinung (negação), Verwerfung (forclusão), Zwang (obsessão), Trieb (pulsão ou instinto) e Versagung (frustração). Esse foco poderia ter resultado em um texto árido, o que não ocorre, pois, para desenvolver a discussão filológica desses termos, Souza parte das duas grandes traduções paradigmáticas da obra freudiana que o antecederam - a inglesa Standard Edition, de James Strachey, e a Oeuvres Complètes, o projeto francês ainda em curso dirigido por Jean Laplanche - oferecendo um rico panorama de seus contextos históricos e institucionais. Seguimos com interesse o percurso da Standard Edition, durante décadas considerada o padrão-ouro das traduções dos textos freudianos. Seu prestígio diminuiu com o aparecimento das críticas de Bruno Bettelheim, publicadas - certamente não por coincidência - logo após a morte de Anna Freud, defensora de Strachey, fato que mostra a influência dos fatores políticos no trato da obra freudiana. Da mesma forma, tomamos conhecimento das grandes polêmicas que cercam ainda hoje a tradução francesa, vazada, na opinião de alguns, num bizarro "laplanchês". No capítulo sobre estilo e terminologia de Freud, Souza resume as análises estilísticas de Walter Muschg, Walter Schönau, François Roustang, Robert Holt, Patrick Mahony e Uwe Pörksen, dissecando os aspectos formais do texto freudiano, que oscila entre a prosa artística e a prosa científica, usando com desenvoltura tropos e figuras de retórica.
Souza faz uma anotação com a qual qualquer leitor de textos psicanalíticos imediatamente concorda: "Quem observa, ainda que panoramicamente, a produção e o modo de atuar dos meios psicanalíticos estrangeiros, constata um divórcio entre a prosa direta, sem adornos e apegada à referência clínica, própria da psicanálise nos países de expressão inglesa, e a prosa mais refinada e um tanto vaga, cônscia de si mesma e autorreferente, peculiar a boa parte do movimento psicanalítico francês." Nesse aspecto, os autores de língua inglesa, mesmo sem o talento literário de Freud, estão mais próximos de sua didática clareza, que procurou sempre se afastar das esfumaçadas formulações em que tão facilmente se abriga a falsa profundidade.

Sérgio Telles é psicanalista e escritor, autor de Visita Às Casas de Freud e Outras Viagens (Casa do Psicólogo), entre outros.

LançamentoDois eventos marcam o início da publicação destas novas traduções de Freud. No dia 29, começa, no CineSesc, a mostra Mal-Estar na Cultura. E, no dia 30, no Sesc Pinheiros, José Miguel Wisnik faz paralelos entre conceitos freudianos e obras literárias brasileiras, com participação de Caetano Veloso.


Resenha publicada no Jornal O Estado de São Paulo de 27/03/10

sexta-feira, 5 de março de 2010


ADOLESCÊNCIA E VIOLÊNCIA *

*(Artigo publicado na revista E-Sesc – no. 140 - Janeiro 2009)
“Em um mundo que parece cada dia mais violento, pretendemos debater a violência à qual os adolescentes, em especial, estão submetidos. Em que a violência da qual eles são vitimas se diferencia dos adultos? Quais são os riscos de uma adolescência submetida à violência?”
A questão proposta superpõe dois importantes problemas – o da violência e o da adolescência. Comecemos pela violência. Sempre que falamos sobre ela, a primeira coisa que fazemos é vê-la como um problema externo, que não nos diz respeito a não ser como eventuais vítimas inocentes. Jamais admitimos que nós mesmos possamos ser agentes produtores de violência.
Os violentos e agressivos são sempre os outros, nunca nós mesmos. Agimos de modo semelhante com a sexualidade. Estamos muito atentos e fazendo julgamentos sobre os comportamentos sexuais dos outros, como se nós mesmos não passássemos por vicissitudes semelhantes àquelas que tão severamente censuramos nos outros. Negamos e reprimimos nossos impulsos agressivos e sexuais. Até certo ponto isso é necessário.

Como Freud dizia, para vivermos em sociedade, não podemos dar plena vazão a nossos desejos sexuais e agressivos. Temos de controlá-los, caso contrário ficaria impossibilitada a convivência que com o outro. Mas esse controle não deve fazer com que neguemos a presença de tais fortes pulsões em nós mesmos e que as projetemos no outro, atribuindo-lhe com exclusividade aquilo que também possuímos. A projeção dos desejos agressivos e sexuais no outro, e sua concomitante negação em nós mesmos, é fonte de inesgotáveis desentendimentos entre os seres humanos. O ideal é que reconhecêssemos nossa constituição pulsional, que nos dota de sexualidade e agressividade, sendo tarefa de todos e de cada um a administração destas poderosas forças internas.
Assim, quando se fala da violência que atingiria o adolescente, tal afirmação pareceria colocá-lo como vítima indefesa e passiva, deixando de lado que a violência habita também o adolescente, pois ela nos habita a todos. Mas é verdade que os recursos internos para o manejo da violência diferem em função do nível de estruturação do psiquismo, estando ele ainda em processo de organização nas crianças e nos adolescentes. Falemos agora da adolescência. Ela é um período de extraordinária turbulência interna, no qual o corpo e o psiquismo sofrem amplas modificações. O adolescente deve deixar a vida infantil com todos seus valores e se defrontar com grandes desafios, especialmente aqueles ligados a sua personalidade, a sua identidade. O adolescente não é mais o filhinho de papai e mamãe, a quem deve obedecer sem discussão. Ele agora precisa se firmar como sujeito, deve definir sua sexualidade e descobrir a posição que vai ocupar no mundo dos adultos. O adolescente está exposto à violência interna de seus próprios desejos e conflitos, pois tanto sua sexualidade como sua agressividade adquirem aspectos e intensidades por ele até então desconhecidas. Seu complexo de Édipo ressurge com grande intensidade, deixando-o confuso e assustado ao constatar que agora poderia realizar suas velhas fantasias incestuosas inconscientes, coisa que seu corpo infantil impossibilitava. Da mesma forma, sua própria agressividade precisa ser modulada. O adolescente se depara com muitos desafios.

Como lidar com os modelos que a sociedade lhe oferece para seu sexo, sua posição social, seu futuro? Deve se conformar com eles? Precisa se rebelar contra eles? Para impor sua identidade, deverá lutar contra os pais. Mesmo quando estes estão do seu lado e se dispõem a ajudá-lo, ainda assim ele tem de se desprender deles. Ao mesmo tempo em que ele quer fazer isso e seguir seu próprio caminho, teme se afastar dos pais e perder o lugar protegido que eles lhe têm proporcionado. Frente a angústia que tudo isso lhe provoca, o adolescente pode reagir com grande agressividade, voltada para os outros ou contra si mesmo, em condutas auto destrutivas. As questões sobre a identidade sexual ocupam um lugar central para os adolescentes. Os rapazes confundem masculinidade com agressividade e se engajam em estrepitosas exibições machistas. As meninas engravidam como uma forma de provar que são mulheres, apesar de terem as informações objetivas necessárias que as poupariam dos problemas daí decorrentes. Ambos podem ser levados a praticar sexo não seguro, expondo-se a doenças sexualmente transmissíveis ou de gravidezes não planejadas. Aqueles que descobrem ter uma sexualidade diversa da maioria padecem grandes agonias. Ao se afastar do protegido grupo familiar, o adolescente necessita vitalmente se incluir em outros grupos, que o amparem em seus conflitos identitários. Nos novos grupos, deve aprender a lidar com os fortes mecanismos que regem seus funcionamentos, com as lideranças, as disputas de facções rivais que podem uni-los ou fragmentá-los, a eleição de bodes expiatórios, etc. Nestes grupos, a afirmação da masculinidade faz com que os comportamentos agressivos nos rapazes sejam supervalorizados, da mesma forma que o comportamento sedutor por parte das meninas, o que gera situações potencialmente perigosas. Tais são os percalços quase inevitáveis que o adolescente tem de atravessar em sua busca de uma nova identidade. Este tumulto interno deixa os adolescentes especialmente vulneráveis às drogas e ao álcool, que são ingeridos como calmantes, no intuito de aplacar o sofrimento que lhes provoca o crescimento, a perda da identidade infantil, o ter de enfrentar desafios que, naquele instante, podem parecer-lhes imensos e intransponíveis.

Até agora, falei da violência interna própria do momento psíquico da adolescência. Mas, é claro, aspectos sociais e culturais podem acolher e proteger o adolescente neste momento de confusão identitária e violentas descargas sexuais e agressivas, ou deixá-lo entregue a si mesmo, agravando suas dificuldades. De modo geral, para que a adolescência transcorra do melhor modo possível, desembocando numa organização estável da identidade, os pais deveriam ocupar adequadamente suas funções paterna e materna. Teóricos da psicanálise julgam que, nas ultimas décadas, tem havido um progressivo enfraquecimento da figura paterna. Isso se dá por inúmeros fatores – o abandono dos valores ligados ao patriarcado, as conquistas do feminismo, por exemplo - o que tem criado novas dificuldades no já crítico processo da adolescência. Além disso, nos últimos anos a família também tem sofrido grandes alterações. Ao invés do modelo tradicional, a prática difundida do divórcio faz com que as famílias reconstituídas sejam cada vez mais numerosas e isto certamente não ajuda a atenuar os conflitos desencadeados pela adolescência. Num país como o nosso, de profundos abismos socioeconômicos, com grandes parcelas da população segregadas em condições sub-humanas de vida, é claro que o tumulto próprio da adolescência encontra uma retaguarda social e familiar muito precária. Frequentemente lemos nos jornais noticias sobre “chacinas”, a forma consagrada pela imprensa para se referir aos freqüentes assassinatos em massa de adolescentes e jovens moradores de bairros pobres das grandes cidades. Habitualmente tais chacinas são atribuídas a lutas de gangues de traficantes de drogas, acertos de contas, ação de grupos policiais. A indiferença da sociedade frente a estes bárbaros assassinatos fica ainda mais chocante ao se contrastá-la com o alarde que é produzido pela morte de um único adolescente das classes mais abastadas, coisa que raramente ocorre. A adolescência é um período de grande violência interna e essa violência interna pode ser neutralizada ou potencializada pelo meio ambiente, pela familia, pela sociedade. No Terceiro Mundo, a desigualdade social é, em si, uma violência que recai sobre todos nós. Sendo os adolescentes mais frágeis e susceptíveis, não é de admirar que sejam por ela mais atingidos

Sérgio Telles
Psicanalista, psiquiatra e escritor. Membro do Departamento de Psicanálise do Sedes - SP
http://www.sergiotelles.com.br/






quarta-feira, 27 de janeiro de 2010



Lacan: um convite a reflexão psicanalítica


Jacques-Marie Émile Lacan nasceu em Paris no dia 13 de abril de 1901 e faleceu em 9 de setembro de 1981. De família burguesa e educação extremamente católica, frequentou os melhores colégios, mas debateu-se com fundamentos católicos desde a adolescência seguindo assim por toda sua obra. Formado em medicina, passou da neurologia a psiquiatria e teve seu primeiro contato formal com a Psicanálise em 1951. A partir daí, passou a ocupar-se desta por toda vida, estando em frente à sua mesa de trabalho das 6 horas da manhã às 8 horas da noite. Leitor profundo da obra freudiana publicou sua primeira produção teórica (Escritos) de fato, somente em 1966.
De Lacan, como nos cita Colette Soler, “pintaram-se mil e um retratos contrastantes, sinal de uma transferência generalizada sobre sua pessoa”, mas o fato é que temos um teórico que em todo seu percurso empenhou-se em “denunciar” o quanto os pós-freudianos haviam se desviado da teoria original. Assim, Lacan propôs-se o “retorno à Freud” em busca do resgate da teoria freudiana. Para tal, utilizou-se da linguística, da antropologia e posteriormente da lógica e topologia, passando sempre seus ensinamentos, basicamente, de forma oral em aulas, seminários e conferências.
Marcou a Psicanálise com suas ideias consideradas por muitos como áridas e de difícil compreensão, além de transgressivas, uma vez que opunha-se às regras estabelecidas pela Associação Psicanalítica Internacional, especialmente no que diz respeito ao tempo das sessões e formação de analistas.
Estudar Lacan, de certa forma é retomar Freud, pois é nele que sua teoria encontra fundamentos e tem seu ponto de ancoragem, mesmo que isso não se apresente claramente num primeiro momento.
A reputação da obra lacaniana é de uma obra de difícil acesso, recheada de conceitos herméticos e até inacessíveis, porém, não podemos deixar de lembrar que é a partir de sua obra que derivaram importantes teorizações de pós lacanianos atuais e comuns hoje no estudo da Psicanálise e na prática psicanalítica: André Green, Jean Laplanche, Pontalis, Françoise Dolto, casal Mannoni, Piera Aulagnier entre outros.
Segundo Renato Mezan (Memória da Psicanálise, edição 8), “a psicanálise contemporânea parece viver um pluralismo de idéias” e sem dúvida, os alunos e discípulos de Lacan marcaram e marcam sua presença com novos desdobramentos teóricos, os quais abrem diferentes caminhos para o estudo do inconsciente. Em outras palavras, vários são os psicanalistas que endossam a proposta lacaniana de retorno à Freud e a realizam cada um a seu modo, avançando nas pesquisa de seus antecessores, muitas vezes de forma até mais consistente que seus mestres.
Lacan, que nos anos 70 muitas vezes foi visto como contestador, cada vez mais é estudado em diferentes Instituições. Do estudo crítico do esboço de sua vida às etapas de sua obra que vão desde o simbólico, a linguagem, ao real e sua tentativa de capturá-lo através da topologia e dos nós borromeanos podemos extrair as conseqüências na prática psicanalítica.
Estudar Lacan é estudar paralelamente Freud, além de ser um convite a reflexão psicanalítica da Escola Francesa e de todos seus desdobramentos na atualidade.

SILVIA COARI
Psicanalista convidada do TRIEP para a coordenação do curso Iniciação ao Pensamento de Jacques Lacan.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Feliz Tempo Útil!
*texto para o Caderno Estilo do Jornal de Jundiaí


Daqui a poucos dias estaremos oficialmente em 2010! Os comentários sobre a rapidez da passagem do ano anterior sempre traz a ideia de que o tempo, traiçoeiramente, novamente nos pegou de surpresa. O tempo passa e deixa uma sensação que não deu tempo... Algo faltou por fazer, por alcançar.
Como será a nossa relação com o tempo na atualidade? Sim, porque a pressa não é mais inimiga da perfeição e devagar não se vai mais ao longe. Não temos mais tempo! Cada dia levantamos mais cedo e vamos dormir mais tarde, com a impressão que ou o dia deveria ser mais extenso ou não soubemos nos organizar. Preocupa-nos coisas como: vai demorar em aprender isso? A leitura do livro é demorada? Demora a fazer esta comida? Fazer terapia é demorado? Então, não se pode querer. Tem alguma coisa estranha nessa aceleração toda. A vida não é mais um percurso, mas uma correria.
O fenômeno característico da atualidade é a exagerada aceleração do cotidiano e a velocidade com a qual as alterações se processam. Nessa correria o urgente não deixa tempo para o importante, e temos daí um efeito colateral naquela que deveria ser a marca humana: a capacidade de reflexão e consciência. Essa capacidade, sob o efeito da correria, no esgotamento fica sem condição para persistir, combater, pensar e, assim, não evita o amortecimento dos sentidos e dos sonhos pessoais. Afinal, o corpo e a mente se vêem frente a verdadeiros ataques imperativos: várias medicinas, tantas dietas, muitas ordens da moda e do consumo com repreensões da mídia; corpo e mente que carecem cada dia mais, de horas de sono, de lazer e de sossego.
Vive-se de forma desesperada, ansiosamente, principalmente os jovens, mas não só eles. Por exemplo, na lógica de “aproveite a vida” não importa se para acelerar ou intensificar isso se consuma substâncias ou bebidas alcoólicas. “Aproveite a vida” pode até ser uma mensagem positiva, mas não se dá tempo para conhecer o outro. Exemplo? Não se conversa mais (conversar?), o negócio é “ficar” e o tempo supostamente bem gasto se mede pelo número de “ficadas”. O ser humano é um ser capaz de dizer não às tentativas de sequestro da sua subjetividade, então o que acontece? Há recusa da realidade nas psicoses, e vemos a ideia de recusa se expandindo, tornando-se possível falar de recusa do tempo.
A recusa do tempo ocupa um lugar importante na dinâmica psíquica das neuroses, com configurações particulares nos vários quadros neuróticos. Freud em seu texto “Sobre a transitoriedade”, de 1914, fala do sentimento de inconformismo diante da constatação de que tudo está fadado à transitoriedade, a mortalidade, logo nossa própria existência está aí compreendida. A exigência de imortalidade, como produto do desejo, não pode reivindicar seu direito à realidade. No entanto, ela persiste no mundo mental como fruto da recusa.
Frente ao fenômeno da implacabilidade do tempo, faz-se “negociatas” com o imponderável e imagina-se que se pode burlar a falibilidade do corpo. E além das diversas buscas de intervenções no corpo para “parar” o tempo, a passagem do tempo impregna-se e encarna-se na imagem do outro que no envelhecimento torna-se descartável e é “trocado por duas (ou dois) de vinte”. A problemática do tempo possui diversas faces e diversos graus de gravidade. Na neurose e em certos quadros de ansiedade o melhor é falarmos em uma “luta” contra o tempo. Mas o fato é que o fator tempo está no âmago da angústia humana em geral. É uma das suas agruras. Citando Jean de la Bruyère (1645-1696) ensaísta francês: “Aqueles que gastam mal o seu tempo são os primeiros a queixar-se de sua brevidade”.

Desejo a você, caro leitor, um feliz tempo útil! Tempo útil é aquele que se usa e não se perde. Saber ocupar o tempo, o tempo da vida é inventar. E inventar pode ser refazer, recriar... Lembrar o que já se foi para orientar o desejo daquilo que virá. Ser o senhor da sua vida.

Daisy Maria Ramos Lino


sexta-feira, 27 de novembro de 2009


O que é um psicanalista?*

*texto publicado no Caderno Estilo do Jornal de Jundiaí em 15/11/09
Vira e mexe, perguntam: “Por que pagar a um profissional, se posso conversar de graça com o pastor ou com a mãe-de-santo? Os meus melhores amigos não me entendem mais que um desconhecido? Afinal os meus pais não saberiam o que é bom pra mim? Qual a diferença entre o padre que escuta e aconselha, e um psicanalista?”
A diferença é: o psicanalista é formado em psicanálise, os outros não. E aí, insistem: “Formado como?”
Cabe esclarecer que a psicanálise não faz parte da psicologia, pois são duas ciências diferentes. A psicanálise é a ciência do inconsciente que foi fundada por Sigmund Freud (1856 – 1939). Um método de investigação, que consiste essencialmente em evidenciar os significados inconscientes das palavras, das ações, das produções imaginárias (sonhos, fantasias, delírios) de um sujeito, que os desconhecendo sofre e faz sintomas que atormentam sua vida. A formação preconiza que o psicanalista se submeta ao mesmo processo que é proposto a seus pacientes – análise pessoal do analista. E isso é uma espécie de precaução: é preciso evitar que interfiram nos tratamentos, motivações do analista que ele mesmo desconhece.
Além disso, entender as motivações do sofrimento psíquico dos outros será proporcional ao entendimento que o analista possue de si mesmo, que teve coragem de encarar em seu processo de análise. Um psicanalista sério e comprometido com seu ofício tem a disposição para encontrar dentro de si as inquietações mais turvas e cicatrizes mais supuradas. E por quê? Da sua análise pessoal depende sua capacidade de escutar, algo bem mais complexo que ouvir no sentido da audição. A prática clínica de um tratamento psicanalítico implica, para o analista, um esforço significativo que consiste em suportar “visitar” os porões assutadores e, muitas vezes desesperadores, do passado infantil de seus pacientes.
Acreditamos, então, que para lidar com o sofrimento mental humano é necessário uma formação profissional, porque não se trata simplesmente de conversar com outra pessoa, por mais querida ou bem intencionada que seja, e que ao ouvir nossas aflições, angústias e dúvidas ela poderá nos ajudar. É preciso tratar a causa desse sofrer que se expressa no mal estar. É preciso encarar os demônios de nossa alma de frente, cuidar deles. Não fazê-los calar, fazê-los falar no lugar aonde poderão encontrar o sentido de suas manifestações. Os outros pontos da formação são o estudo da teoria psicanalítica e a discussão da prática com um psicanalista mais experiente.
Nesse sentido, o TRIEP é uma instituição que propõe a transmissão e divulgação da psicanálise. Reúne profissionais da área de saúde mental que buscam desenvolver esses pontos da formação de um psicanalista: o aprofundado estudo do pensamento de Freud e de autores da atualidade, a supervisão da clínica e o incentivo à análise pessoal do psicanalista. Entendemos que a prática clínica deve estar vinculada, também, a uma reflexão teórica e prática que torne possível a construção do lugar de escuta do psicanalista.
Freud em um dos seus textos afirmou que “nenhuma regra a respeito da felicidade vale para todos. Cada um deve buscar por si mesmo a maneira em que possa ser feliz.” O sofrimento psíquico não é coisa fácil, e precisamos de ajuda para desempedir o caminho obstruído da própria felicidade. Do analista se pode esperar interpretações que levem o analisando à produção de verdades sobre si, sobre seus sintomas, seus medos e suas dificuldades na vida.

Daisy Maria Ramos Lino

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Alguns Encontros

A clínica de Freud caminha. Paralelamente, caminham também suas teorias, obrigando-o a rever pontos de seus escritos. Da mesma forma, o analisando chega repleto de teorias construídas ao longo de sua vida e se propõe então a rever muitas delas no percurso de sua análise.
Dentro dessa proposta o analisando encontra novos significados à sua história e seu discurso passa a nomear suas angústias dando suporte maior à sua subjetividade, por vezes abandonada ao sintoma. Se conhecer melhor para a Psicanálise é dar significado a trechos onde antes só existia um significante. Tornando-se possuidor desses significados, além de ser explicitado o que é seu e o que é do outro, delimita-se um Eu separado do outro.
Nenhuma novidade em dizer que a clínica é invadida pela vida e espera-se que enigmas que ali surjam incitem a reflexão para fora do setting.
Somos instruídos a falar o que nos venha à cabeça e uma das minhas associações livres, “iniciou-se”, não por acaso, quando parei em um café antes da sessão de minha análise pessoal. Descubro que a moça que ali trabalha, me confundiu, dias atrás, com outra pessoa para a qual trabalha depois do expediente. De fato, antes dessa ocasião ela havia falado comigo, que pouco a conhecia, sobre sua ausência de dois dias no trabalho, por conta de um exame médico. Estranhei a intimidade da fala, porém nada perguntei. Frente à confusão que tinha repercutido em uma falta supostamente avisada mais endereçada à pessoa errada, rimos e fui para análise.
Na sessão, comunicando mais do que sabia – “sabe sem saber que sabe”, dizia Freud – esclareço como em diversas situações vou-me “confundindo” ao outro e as influências disso em minhas escolhas. No meu silencio frente ao enigma da fala dessa quase desconhecida nada perguntei, me “deixo” passar por esse outro ao não questionar esclarecimentos.
Comento, depois da sessão de análise: “Pior que pensarem que você é outra pessoa é se pensar que é outro, por
que daí é coisa de maluco”. A caricatura clássica do louco que diz ser Napoleão aparece na minha mente, e me fica clara a dimensão do conflito do neurótico em relação à entrega do psicótico.
Da mesma forma como as crianças levam a sério seus jogos, faz também os escritores criativos, nos aponta Freud. O louco também se entrega a sua “causa”, apenas seu arranjo psíquico não leva em conta o princípio de realidade. Ora, é o princípio de realidade que sempre nos remete a castração. Nossa criança, nossa onipotência infantil, quer um lugar de glória a qualquer preço. Por sorte a organização psíquica do neurótico se sustenta com um conflito, mas com os psicóticos é diferente, não se submeteram à lei paterna.
Para aprender uma ciência é preciso se submeter às leis da mesma. Assim, como a maçã já caía antes de Newton, foi ele quem equacionou a gravidade e trouxe luz à física que a partir de então pode se desenvolver baseada em uma lei; também os homens já viviam seus conflitos antes de Freud, este sistematizou o funcionamento psíquico e propôs uma maneira de tratá-lo.
Se Freud foi o pai da psicanálise e tomarmos a histeria como quem a pariu, se entregar aos sedutores convites feitos ao nosso narcisismo que aparecem na clínica é passar por cima da lei paterna, é nos tornarmos psicóticos caso disso não nos dermos conta ou perverso caso daí se extraia algum gozo.
Por fim, não se busca um psicanalista sem voz própria, incapaz de pensar, de criar e contestar. Graças a essa postura é que a Psicanálise pode caminhar desde Freud, mas sempre prestando contas à lei paterna, que nos impõe entre outras coisas a postura investigativa que deve prevalecer sobre qualquer tentação dogmática que possa surgir durante o percurso. Suportar o luto de ver teorias, sejam elas sobre o entendimento de determinado ponto teórico, sejam sobre os analisandos ou sobre si, serem abandonadas para privilegiar a verdade do sujeito, é uma das garantias de que estamos no caminho que torna possível a Psicanálise.

Gustavo Florencio Fernandes