quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O valor da amizade*

A amizade não é um fenômeno recente, assim como não são recentes suas diferentes formas de manifestação. Desde a antiguidade, ela podia ser definida como um laço que unia as virtudes entre duas pessoas, mas também havia amizades fundadas em interesses ou na possibilidade de algum usufruto, o que Aristóteles chamava de "amizades políticas".
Em nossos dias temos amizades "estendidas, amizades virtuais": são "amigos" em comunidades virtuais que compartilham um mesmo gosto, uma mesma reivindicação, um mesmo desgosto... Há aqueles que seguimos em seu dia-a-dia, a qualquer click, e dos quais nos dizemos amigos. Há amigos de amigos que também são acrescentados, ou melhor, adicionados à lista de amigos nas páginas pessoais. Quanto mais amigos, melhor! E para cada um, isto vai se estabelecer como um indicativo: o mais popular, o mais querido, o mais articulado... Enfim, há uma infinidade de maneiras de se vincular e chamar de amigo. São novas definições, mas fato é que a amizade sempre representou e representa uma necessidade humana de estar com o outro.
Freud pensou também sobre este tema e analisou suas amizades e inimizades em períodos que considerava significativos. Para ele, "um amigo íntimo e um inimigo odiado sempre foram requisitos necessários de sua vida emocional". E em outro momento, acrescentou que, tanto o amigo íntimo quanto o inimigo odiado se reuniam na mesma pessoa...
O que é este sentimento que, por um motivo ou outro, aproxima as pessoas e as faz se tornarem amigas? Como todas as marcas psíquicas que nos acompanham no decorrer da vida, as marcas referentes ao signo da amizade também encontram sua origem nos primeiros laços amorosos estabelecidos na infância.
No que se refere ao amor, a criança vai aos poucos se dando conta de que não é, para a mãe, tudo o que a preenche e satisfaz. A mãe possui outros amores: o marido, outros filhos, o trabalho, os cuidados consigo mesma... Quebra-se a certeza, quase onipotente da criança, de que ela possuía da mãe um voto de amor exclusivo, de que ela era "seu mundo inteiro". Instala-se a partir de então, um sentimento de decepção, a primeira marca de decepção da qual a criança tem notícia e a partir da qual estarão marcadas suas experiências posteriores. Seu amor (pela mãe) não foi correspondido da forma que a criança desejou.
A amizade entraria neste cenário, como um substituto deste amor não correspondido. Daí sua exigência será a de reciprocidade, de correspondência. Neste sentido, a psicanalista Danièle Brun comenta que esta exigência de reciprocidade em relação à amizade é o que a diferencia do amor. Afinal, podemos amar sem sermos amados, mas "não há como ser amigo de alguém que se recusa a sê-lo".
A amizade também exige investimento no outro e é uma exigência da vida psíquica. Fora do círculo familiar, vamos buscar outros vínculos, estabelecer relações em que se possam partilhar problemas e, em alguns momentos, até mesmo a solidão; vamos fazer outras escolhas, inventar um mundo novo, apesar dos percalços, traições e decepções que elas possam acarretar.
A exigência de reciprocidade na amizade é, em outras palavras, uma tentativa de, ilusoriamente, nos garantir de que o amor investido não estará de novo perdido ou que, pelo menos, possa ser reencontrado/reinvestido, num outro laço, num novo amigo. Assim, a amizade é um vínculo complexo e sofisticado, e é própria de seres humanos com capacidade de empatia e personalidade equilibrada. Os psicopatas, os perversos, os insuficientemente maduros não sabem sustentar uma amizade verdadeira. Ou seja, amigo, mas amigo mesmo, tem a ver com qualidade e nada a ver com quantidade.

Leila Cristina dos Santos Veratti
Psicanalista
*texto publicado no Jornal de Jundiaí - Caderno Estilo - de 06/02/11


quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A vida por uma corda


As cenas dramáticas do resgate da Sra. Ilair, (veja http://www.youtube.com/watch?v=G1n7hvM3i2A ) moradora de São José do Vale do Rio Preto, na Região Serrana do Rio de Janeiro, no último dia 12/01, sensibilizou a todos e “correu” o mundo. Impossível, a partir dessas cenas, não pensar na incrível pulsão de vida desta mulher que apesar da idade, de ser fumante desde os nove anos, de nunca ter realizado nenhum tipo de nó em corda, se agarrou a única chance de viver.
Viver é perigoso, mas a esperança é um princípio vital. Agarrada a corda, Ilair intensamente esperançosa, recusou o domínio da realidade e sonhou com mais e melhor.

Sonho aqui não significa devaneio inútil ou delírio; mas o lugar do desejado, ansiado, querido. Pois, podemos compreender a esperança como produtora de futuro e aniquiladora da dureza de existir.
Porém, para alimentar a esperança é preciso do cuidar. O cuidar está na origem do ser humano e não é apenas um começo temporal. O cuidar é o que dá forma a criatura humana, que é corpo e espírito, e se torna responsável por ela enquanto viver. É o cuidado que humaniza e dá o contorno humano.
O psicanalista americano Rollo May comentando a civilização moderna, disse: “Nossa situação é a seguinte: na atual confusão de episódios racionalistas e técnicos perdemos de vista e nos despreocupamos do ser humano; precisamos agora voltar humildemente ao simples cuidado...”
Na Austrália choveu muito mais que na Região Serrana do Rio de Janeiro, mas lá diferente daqui faleceram somente dezenove pessoas contra mais de seiscentos dos nossos. Porque lá, diferentemente daqui, se dá maior centralidade ao cuidado do ser humano. E isso fez toda essa diferença!
Dar centralidade ao cuidado significa renunciar. Renunciar a vontade de poder que reduz tudo a objetos; impor limites à obsessão pela ganância a qualquer custo; colocar o interesse coletivo da sociedade acima do eu – narcísico...
Em nossa sociedade capitalista, competitiva, na qual a frieza perpassa as relações humanas, não é de estranhar que o modo de entender o cuidado tenha ficado reduzido ao cuidado com o corpo, negando a dimensão do eu e o outro. Não se entende o cuidado como atenção e reconhecimento das necessidades – próprias e do outro – e não se dá a devida importância no compartilhar essas necessidades para que possam ser percebidas. Não se trata de incentivar a compreensão entre as pessoas, mas combater a indiferença diante do sofrimento alheio.

Nossa sociedade está enferma. Produz má qualidade de vida para todos, seres humanos e demais seres da natureza.
Vivemos em concentrações urbanas com inacreditável densidade populacional e ao mesmo tempo nos sentimos sozinhos. O termo solidariedade vem de “solidez”, daquilo que consolida e dá firmeza à vida coletiva, enquanto solidão está atada a ideia de ser e ou estar “por si mesmo”, em isolamento. Não seria a solidão isolante sintoma do narcisismo inesgotável?
A Sra. Ilair disse em entrevista a um canal de televisão que “pediu aos vizinhos que não a deixassem morrer” e que “queria viver para cuidar de seus filhos”.



E você, que vida quer viver? Como cuida de si mesmo e dos outros?



Daisy Maria Ramos Lino
Psicanalista e analista institucional



*texto publicado no Jornal de Jundiaí - Caderno Estilo - de 23/01/11











segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Espírito de Natal*

Um panetone médio custa R$ 6 na padaria da esquina (sem contar que meu padeiro, quando lhe expliquei as razões de minha compra, ofereceu um desconto). Um pequeno brinquedo novo, na sua caixa, custa por volta de R$ 10 (menos, se você se aventurar na rua 25 de Março).
Segundo suas possibilidades, compre de cinco a dez panetones e de cinco a dez brinquedos (para meninas e meninos). Coloque tudo no carro e circule pelas ruas; se puder, leve seus filhos consigo. Quando encontrar crianças pedindo esmola ou vendendo chicletes, ofereça a cada uma um panetone e um brinquedo. Não vale jogar o pacote pela janela e sair correndo: abra o vidro inteiramente e troque umas palavras. Aproxime-se.

Claro, seu gesto não vai mudar o Brasil nem o mundo. Tampouco vai resolver os problemas das crianças que você encontrará. Será que servirá só para acalmar um pouco sua culpa social?
Nada disso. Seu gesto terá um efeito específico, relevante e comprovado -um efeito em você mesmo. Explico.



Em 2001, a revista "Science" (vol. 293, nº 5.537) publicou uma pesquisa de Joshua Greene, Jonathan Cohen e outros, "An FRMI Investigation of Emotional Engagement in Moral Judgment" (uma investigação por ressonância magnética funcional do engajamento emocional no juízo moral). Foram propostos dilemas práticos a uma série de sujeitos cujo funcionamento cerebral estava sendo monitorado.
Seja o dilema seguinte: há um trem descontrolado que, se continuar no seu curso, matará inevitavelmente cinco pessoas. Numa cabine de controle do tráfico ferroviário, você pode acionar um interruptor que desviará o trem. Detalhe incômodo: em seu novo percurso, também inevitavelmente, o trem matará uma pessoa. A grande maioria dos sujeitos escolhe o mal menor e aciona o interruptor sem hesitar.
Agora, um dilema apenas diferente. Imagine o mesmo trem descontrolado, mas, desta vez, para evitar a catástrofe que mataria cinco passoas, você deve empurrar sobre os trilhos um ser humano, que você não conhece, mas que está de seu lado. O sacrifício do desconhecido salvará os cinco. A situação é parecida à anterior, mas a maioria dos sujeitos testados se recusa a agir. Os que decidem empurrar o vizinho chegam à sua decisão num tempo muito mais longo do que o tempo necessário aos sujeitos do primeiro teste para acionar o interruptor.
Greene e Cohen constatam que, no segundo teste, a atividade cerebral dos sujeitos envolve uma grande agitação emocional, ausente no caso do primeiro teste. Eles concluem que, quando o cenário comporta uma relação próxima e pessoal, a decisão deixa de ser completamente racional ou funcional.

O fato não é surpreendente. Entende-se que, na maioria dos casos, a proximidade do outro produza um mínimo de empatia afetiva que torna complicado, por exemplo, jogá-lo nas rodas de um trem.
Talvez seja por isso que, para decidir a morte da criança que come um sorvete ao seu lado, o terrorista se transforma em homem-bomba: sua própria morte resolve o conflito interno insolúvel entre ideologia e emoção (compaixão, empatia etc.).

Deduções. O general Medici, no começo de seu mandato, deveria ter passado uma noite, incógnito, numa reunião de estudantes de esquerda. Fidel Castro deveria ter cortado a barba para insinuar-se num bar gay de La Havana, e o presidente Bush deveria ter deixado crescer a barba para freqüentar uma mesquita de Bagdá.
Stalin deveria ter vivido uma temporada entre os camponeses soviéticos; Nixon e Kissinger deveriam ter plantado arroz num vilarejo do Vietnã. Pode ser que não por isso eles tomassem decisões diferentes das que tomaram, mas, no mínimo, como mostram Greene e Cohen, eles teriam hesitado.
Entre os dilemas propostos por Greene e Cohen, aliás, há o caso de quem deve aprovar políticas que alvejam o bem da maioria (ou mesmo, a longo prazo, o de todos), mas que produzem mortes ou danos imediatos. A escolha é muito mais penosa para o governante que enxerga, nos governados, seu próximo. O bom governante é uma figura trágica, pois sempre chega o dia em que ele é levado a decidir, de uma maneira ou de outra, num conflito entre razão e empatia.

Ora, em nossa sociedade, há um exército de desfavorecidos que não decide quase nada. E as decisões dos favorecidos se parecem com o gesto de quem aciona o interruptor no dilema do trem de Greene e Cohen: o fosso que nos separa de quem não tem nada é tamanho que é fácil agir sem empecilhos emocionais. Por exemplo, é cômodo, moralmente, apropriar-se de dinheiro público, pois a figura de quem sofrerá pelo abuso é distante: um número.
A experiência de Greene e Cohen sugere que nossos atos são diferentes quando os outros não são números, mas semelhantes. Como produzir essa mudança?
Por exemplo, no futuro, uma reforma pedagógica poderia instituir o trabalho social concreto como matéria obrigatória para os alunos dos colégios privados. Mas, desde já, podemos inventar alguns truques para nos lembrar de que há semelhantes nas esquinas. Truques piegas, como minha proposta do panetone e dos brinquedos.

Feliz Natal a todos.


*por Contardo Calligaris,  psicanalista, doutor em psicologia clínica e colunista da Folha de São Paulo. Italiano, hoje vive e clinica entre Nova York e São Paulo.







quinta-feira, 25 de novembro de 2010


Desbravando os caminhos da Psicopatia

Há cerca de um ano, postei um texto neste mesmo espaço, onde falei sobre os “Caminhos da Psicopatia”.
O tema seguiu em minha mente e no último dia 10, após ser convidada a participar da Jornada de Estudos Psicodinâmicos da Unianchieta, voltei a mergulhar uma vez mais nos estudos sobre esta intrigante psicopatologia.
Conceitualizar a Psicopatia é realmente uma grande empreitada.

A Psicopatia, também conhecida como Sociopatia, tem sido associada ao protótipo do assassino em série, porém, nem todos os assassinos são psicopatas e nem todos os psicopatas chegam a ser assassino.
Descrita como um distúrbio mental grave, a psicopatia se caracteriza por um desvio de caráter, frieza, insensibilidade aos sentimentos alheios, manipulação, egocentrismo, falta de remorso e culpa. Sua vida afetiva é pobre e impessoal, são equilibrados e descontraídos em muitas situações nas quais qualquer outro estaria normalmente tenso e ansioso. Geralmente se apresentam como pessoas charmosas, eloqüentes, envolventes e sedutores. Caso sejam desmascarados em algum ato ilícito ou alguma mentira, não demonstram qualquer vergonha ou constrangimento.
Ao contrário, os psicopatas são extremamente hábeis para inverterem situações, ou seja, quando são pegos em algo ilícito recorrem rapidamente ao lugar vitimado e tratam a certeza como se fosse dúvida, o justo como se fosse injusto e a verdade como se fosse mentira. As regras e a leis sociais não despertam nos psicopatas qualquer inibição. Outra característica muito comum em indivíduos com este transtorno é a intolerância a frustrações - este talvez seja o único motivo que os faça chorar de verdade.
Esses indivíduos não são considerados loucos, nem apresentam qualquer tipo de desorientação. Também não sofrem de delírios ou alucinações, como na esquizofrenia e tampouco apresentam intenso sofrimento psíquico como os neuróticos. Ao contrário disso, seus atos criminosos provêm de um raciocínio frio e calculista.

Bem, até aqui procurei traçar as características da psicopatia, acerca da descrição dos sintomas. Porém, o que pensar quanto à etiologia, ao desenvolvimento e ao prognóstico desta intrigante psicopatologia?
Os termos “psicopatia”, “sociopatia” ou “transtorno de personalidade anti-social” são raramente utilizados em psicanálise. Na perspectiva psicanalítica, uma pessoa psicopata é uma pessoa perversa.
Tomo aqui como referência os estudos de Otto Kernberg, psiquiatra e psicanalista austríaco, que dividiu as manifestações perversas, sob o ponto de vista psicoestrutural, onde a Psicopatia é definida como uma das manifestações da perversão no âmbito social. Descrita por muitos autores como perversão de caráter.
As estruturas mentais do psicopata e do psicótico estariam muito próximas, com a diferença que o psicótico abandonou as relações com os objetos reais, criando através das alucinações uma “nova” realidade; enquanto o psicopata as manteve, mas com caráter muito particular. Pode haver também uma confusão entre o neurótico e o psicopata em função da atuação, na qual os sintomas comportamentais de agressividade e anti-sociais são comuns. Daí o cuidado que devemos ter na compreensão e exploração dos comportamentos anti-sociais apresentados, antes da classificação diagnóstica, uma vez que vários quadros clínicos podem apresentar características anti-sociais.
O psicopata propriamente dito, tem como característica primordial uma incapacidade de sentir culpa e remorso.
Assim, para reconhecer a psicopatia é preciso avaliar a existência ou não de uma instância moral ou de valores para o próprio sujeito. Ou seja, como ele se coloca (ou não) a questão de um compromisso com alguma lei internalizada.
Chegamos aqui no momento de falarmos do superego, um conceito determinante para entendermos a psicopatia.

Segundo Freud, a formação do superego é correlativa do declínio do complexo de Édipo: a criança, renunciando à satisfação de seus desejos edipianos marcados pela interdição, transforma o seu investimento nos pais em identificação com os pais.
Em “O Ego e o Id” de 1923, Freud dirá: “e aqui temos essa natureza mais alta, neste ideal do ego ou superego, o representante de nossas relações com nossos pais. Quando éramos criancinhas, conhecemos essas naturezas mais elevadas, admiramo-las, tememo-las e, posteriormente colocamo-las em nós mesmos”.
Assim, o superego é o resultado dos valores morais, éticos e sociais que herdamos dos nossos pais, quando da dissolução do complexo de Édipo. O que ocorreu na formação do superego do psicopata?
O curso regular do seu complexo de Édipo não aconteceu, o sujeito não ascendeu às fases do desenvolvimento da libido no sentido de fazer investimentos em objetos externos. Trata-se de uma problemática em torno do Narcisismo.
O psicopata possui uma falha na formação superegoica; ele reconhece a realidade, sabe que seus atos poderão prejudicar o outro, mas tem um código moral falho. Ele tem uma pobreza do mundo de fantasias, por isso recorre ao ato. Ao invés de pensar e fantasiar ele age.
O psicopata não se considera uma pessoa doente, portanto ele raramente busca ajuda. Quem geralmente nos procura nos consultórios não são os psicopatas, mas algum familiar que sofre as conseqüências dos atos psicopáticos, ou alguém que com ele se envolveu e geralmente saiu profundamente lesado, seja psiquicamente, financeiramente ou mesmo fisicamente.

Como falei anteriormente, o psicopata nem sempre é assassino, violento ou mesmo assustador. . .
Dentro desta psicopatologia temos um espectro que vai desde casos mais graves e agressivos, onde houve maior prejuízo do superego, até um grau mais atenuado onde aparecem graus variados de manifestações psicopáticas. Surge aí o psicopata do tipo “passivo-parasita” como definiu Kernberg. São sedutores, simpáticos, geralmente com uma história vitimada e triste para contar e comover a todos. Adoram presentear e elogiar e quando menos se espera aplicam seus botes. Nesses casos, as verdadeiras vítimas freqüentemente se questionam quanto a sua responsabilidade sobre a situação, pois tardam a reconhecer que foram enganadas e ludibriadas.
O psicopata seduz não apenas pela voz doce ou pelo olhar vitimado, mas também e principalmente, pela ousadia com que burlam a lei. Pela ousadia com que nos deixam acreditar que tudo é possível. Frente a eles nos vemos paralisados e até mesmo, porque não dizer, admirados. Afinal, para nós, simples neuróticos, seria impossível prejudicar outra pessoa sem experimentarmos culpa e um tremendo remorso, ao contrário do psicopata, que se posiciona livremente em relação às regras morais e sociais.
Felizmente sentimos culpa! Porque é este sentimento que nos mostra até onde podemos ir, que há limites e há leis a serem seguidas. E que temos estruturado um superego que funciona como mediador entre nossos impulsos mais intempestivos e a realidade.

O psicopata é quem não tem culpa! O psicopata é quem não se reconhece doente e é ele quem não busca análise!


Edilaine Bronzeri Pugliese
Psicanalista


quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Meu corpo não é meu corpo,
é ilusão de outro ser.
Sabe a arte de esconder-me
e é de tal modo sagaz
que a mim de mim ele oculta.
Meu corpo, não meu agente,
meu envelope selado,
meu revólver de assustar,
tornou-se meu carcereiro, me sabe mais que me sei.
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, "As contradições do Corpo",
in Corpo novos poemas

Anorexia, bulimia e a psicanálise

Na manhã do último dia 25 de setembro, sob o título: “A problemática alimentar, o corpo e a feminilidade”, falei sobre anorexia e bulimia. Esse tema deu início às “Atualizações em Psicanálise” promovido pelo TRIEP.
Para transmitir os fundamentos e princípios norteadores de meus estudos sobre anorexia e bulimia disparados pelas inquietações da clínica priorizei, no que diz respeito à teoria psicanalítica, o arcaico: o investimento libidinal realizado pela mãe junto ao seu bebê.
Fiz essa escolha por entender que a consideração que o sujeito dará ao seu próprio corpo e sua constituição em um ser desejante dependerá do investimento que a mãe operou no seu corpo, é a fase do auto-erotismo.
Além de que, é nesta fase que a função alimentar exerce um papel importante de apoio às instâncias reguladoras da vida psíquica.
Quando falamos deste investimento entendemos que a mãe age a fim de conter o quê aflige o corpinho do bebê no que se refere ao acúmulo de excitações provenientes de fontes internas e externas.
A mãe exerce, também, uma mediação entre o bebê e o mundo externo, supondo neste, mais do que demanda de alimento, nomeando vai transformando este “corpo de sensações” num “corpo falado”.
Nos relatos de pacientes anoréxicas, bulímicas e na literatura a respeito encontramos uma mãe que domina a cena familiar, que não dirige seus desejos para outros objetos, o que não permite a entrada do pai em cena. E, também, uma mãe que não suporta o afastamento da filha quando isso seria imprescindível no processo de construção da identidade.
Já, as pacientes anoréxicas, por exemplo, não percebem seu emagrecimento com risco de morrer e, tanto essas quanto as bulímicas, não conseguem reconhecer e nomear o quê sentem, seja dor, fome ou se quer falar de seus sentimentos. Portanto podemos dizer que estamos diante de falhas num período primordial da vida destas pacientes.
Destaquei na minha transmissão os tópicos: sociedade contemporânea e subjetivação na mulher para buscar compreender através da psicanálise questões como: o corpo colocado em evidência e a maior incidência de anorexias e bulimias na mulher adolescente/jovem adulta comparada ao adoecimento nos homens.
Trabalhei a limitação das descrições e classificações dos manuais psiquiátricos frente a singularidade que as dimensões subjetivas podem tomar nas histórias de vidas de nossos pacientes.
Apresentei a anorexia e bulimia como sintomas que podem estar presentes nos mais variados quadros psicopatológicos, sejam eles de ordem neurótica ou psicótica; e que, como sintomas, tem a função de uma tentativa de sobrevivência psíquica perante a situação conflitiva, neste caso, a tentativa de construção de uma outra feminilidade diferente do modelo materno.
Muito interessante foi a discussão que se seguiu com a colocação do público presente que trouxe questões técnicas como: o uso do divã, sobre a organização psíquica da mãe dessas pacientes e a simbiose entre as duas, sobre as convocações do analista à atuações, sobre o analista fazendo o papel de terceiro, entre outras.
Enfim, como Freud continuou a desenvolver a teoria em decorrência das limitações impostas pelos impasses vividos na sua clínica, nós psicanalistas, perante as queixas relacionadas ao comportamento alimentar que motivam a procura de análise e frente a tantas outras formas de sofrimento psíquico priorizadas na atualidade, nos sentimos impulsionados em nossos estudos a refletir a respeito dos princípios teóricos, técnicos e metodológicos da psicanálise para encontrar um lugar de escuta mais fértil para a especificidade desses fenômenos clínicos.

Patrícia Merli Macieira Matalani
Psicanalista







segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Desejo edipiano na política*
 Revista Não Lugar, Série Inimigos, páginas 52 a 61

É inequívoco o teor político de Inimigos, trabalho de Gil Vicente agora exposto na Bienal. São "autorretratos" do artista matando Lula, FHC, rainha Elizabeth, papa Bento XVI, Kofi Annan, Eduardo Campos, George Bush, Ariel Sharon, Jarbas Vasconcelos.
Essa dimensão polêmica fica agora potencializada por coincidir sua exposição com o momento pré-eleitoral.
De fato, essas circunstâncias dão mais força a algumas imagens, como a de Lula sendo garroteado pelo artista e prestes a ser por ele degolado. Não poderia ser mais gritante o contraste que ela estabelece com a tão apregoada popularidade do presidente, que lhe garante 80% de aprovação dos eleitores.
Poderíamos ver esse contraste como um exemplo da diferença entre o funcionamento psíquico próprio das massas em oposição à forma de pensar do sujeito fora das massas. A psicologia das massas se caracteriza por sua identificação com um líder que ocupa o lugar de figuras paternas idealizadas.
Isso faz com que as massas adotem uma postura infantilizada frente ao líder, que é visto como um pai ou uma mãe que as protege e conduz, fantasia inconsciente muitas vezes deliberadamente manipulada pelo poder. Já o sujeito fora das massas - e ninguém mais que o artista para representar essa condição - mantém o espírito crítico frente ao líder e, apesar de não estar isento de nele também fazer projeções, pode vê-lo com mais objetividade. Para ele, tais "pais" ou "mães" são vistos como inimigos a serem eliminados. Ou seja, para o artista, a sociedade não deve ser regida por "pais" e "mães" onipotentes e sim por cidadãos como ele, a quem delega temporariamente o poder e de quem exigirá uma prestação de contas no seu devido tempo.
Em nosso caso brasileiro, à primeira vista podemos pensar que a posição infantil, dependente e acrítica das massas se deve à sua indiscutível ignorância. Tal ideia logo se mostra insustentável ao lembramos que essa mesma atitude foi tomada pelas massas letradas e instruídas da Europa frente a Mussolini e Hitler, no século passado. A popularidade do líder depende dos elementos psíquicos inconscientes já mencionados, reforçados por fatores advindos da realidade sócio-econômico-cultural.
Mas a dimensão política de Inimigos não pode ser confundida com uma estreita atitude panfletária ou partidária. O variado espectro ideológico dos líderes "assassinados" pelo artista mostra que o que está em jogo é algo maior, é a revolta crítica contra o poder instituído e seus infindáveis desmandos, é o cansaço e a saudável intolerância com os embustes e fraudes que se escondem nas pompas e circunstâncias que envolvem os mandatários.
A identificação daqueles que estão no exercício do poder com figuras paternas faz com que a observação de Inimigos possa evocar nos espectadores a fantasia do assassinato do pai.
Tal fantasia ocupa lugar central na teoria psicanalítica, sendo detalhadamente explorada nas elaborações sobre o complexo de Édipo (processo que estrutura o sujeito) e em Totem e Tabu (mito antropológico de larga envergadura criado por Freud para explicar a gênese da cultura).
De certa forma, podemos dizer que, nesses dois momentos, o assassinato do pai tem conotações diferentes. No complexo de Édipo, o pai é o rival frente ao objeto de desejo (mãe) e agente da interdição do incesto, o que possibilita o crescimento do filho, além de ser para ele um modelo identificatório. Em Totem e Tabu, o pai da horda primitiva é a encarnação da onipotência narcísica que impede o desenvolvimento dos filhos, vistos por ele como rivais a serem eliminados. Se o assassinato do pai teria efeitos catastróficos no complexo de Édipo, em Totem e Tabu ele é a condição necessária para o aparecimento da lei, da religião, da moral e da organização social, pois ao assassinato se sucede a culpa dos filhos, o que leva à internalização das leis do pai morto.
Se temos esse modelo freudiano em mente, a obra de Gil proporcionaria ao espectador uma dupla gratificação. Satisfaria seus desejos edipianos de matar o pai enquanto rival frente a mãe, ao mesmo tempo que remete ao assassinato do pai primevo, o tirano possessivo e violento que impõe seu desejo sem restrições, pois a lei só será instaurada após (e em função de) sua morte.
Diríamos que os poderosos que Gil Vicente "assassina" não são pais edipianos, portadores e mantenedores da lei. Os políticos estão bem mais próximos dos pais da horda primitiva, onipotentes e vorazes usurpadores que se colocam num espaço acima da lei e veem o poder como a oportunidade para dar vazão ao narcisismo mais predatório.


SÉRGIO TELLES, psicanalista e escritor, autor de Fragmentos Clínicos de Psicanálise (Casa do Psicólogo), entre outros. 
*artigo publicado no Jornal O Estado de São Paulo.