sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Atendimento Infantil: um campo singular

Trabalhar ou se debruçar sobre as questões do infantil, com todos seus paradoxos, de alguma forma sempre nos põe frente a várias questões. São vários os autores que na história da psicanálise de crianças se viram frente a variados impasses que até hoje não foram superados ou ainda não atingiram um estatuto conceitual.
Freud, já constatava que o entendimento da criança sustenta dificuldades para a análise, o que é muito bem citado por Ângela Vorcaro:
“Freud abordou a dificuldade implicada no estatuto da criança... não apenas ao dizer que a observação de crianças não responde pelo infantil e origina mal entendidos, mas ao dizer também que a observação da vida anímica infantil é uma tarefa difícil, que a criança ensinou-lhe coisas para as quais não estava preparado, que poderia estar muito idoso para ter paciência com elas; paciência inclusive para escrever sobre elas. Buscou reparar esse descuido na delegação de sua tarefa à sua criança, a Anna Freud, que representava então o futuro da psicanálise”.
Quantos desafios que a clínica infantil nos traz...
Gostaria aqui de considerar a clínica com crianças, apoiada em alguns conceitos lacanianos e em alguns textos de autores de sua escola. Talvez pensar em Lacan e psicanálise de crianças num primeiro momento pareça não coincidir, porém segundo Pierre Kaufmann:
“...é por certo na obra de Lacan que encontramos os elementos de uma reorganização apoiada numa base estrutural de dados referentes ao fundamento do psiquismo infantil na experiência analítica.”
Várias são as questões que poderíamos abordar. Por ora, porém, uma questão que sempre me intriga, é que normalmente a criança nos chega ao consultório, vinda pelas mãos e demanda de seus pais. Apresenta os mais variados sintomas, os quais os pais relatam muito bem na maioria das vezes. Mas, seriam de fato sintomas? Seriam sentidos pela criança como queixa? São questões importantes, pois daí deriva grande parte da nossa conduta como analistas.
A princípio, sabemos que nos cabe acolher esses pais e também essa criança por eles trazida. Mas, o que seria acolhê-la? Seria tomar um lugar de função parental, de cuidados? Ou um lugar parecido com o de uma professora que aborda a função pedagógica? E ainda, seria favorecer nosso paciente a se inscrever no que lhe é esperado, no que os pais esperam dele, amarrado unicamente à adequação social? Essas questões são amplas e complexas, pois se como dissemos anteriormente, a criança nos chega via pais, os seus sintomas também são vistos por esses pais, e portanto sua gravidade e até quem sabe - sua existência, são diretamente relacionados ao olhar e à subjetividade destes. A singularidade de cada criança vai surgindo de acordo também com a capacidade e possibilidades que ela encontra de manifestação de suas necessidades. Os pais, não são completos para os filhos, não podem lhes dar a satisfação total (ainda bem!), então sempre sobrarão restos, possibilidades de busca, faltas que determinarão a constituição desse sujeito.
O sujeito que trato aqui, é a criança, um ser em formação do psiquismo e que busca no outro, especialmente nas figuras parentais as respostas para suas inquietudes e necessidades.
O analista não pode unicamente se apresentar como substituto desses pais ou como detentor de um saber que será impresso na criança, ato bem desempenhado muitas vezes pelos professores, educadores, mas não pelo analista. Pelo contrário, na observação de crianças por exemplo, o analista deveria observar as possibilidades que a criança traz, esta criança, sem incutir-lhe sentidos ou pior, interpretar segundo seus ideais culturais, o que fatalmente conduziriam a um suposto trabalho analítico a serviço da chamada “boa educação”. Os desejos do analista não devem entrar na terapia de crianças. Sua ação contratransferencial, seu querer cuidar, seus próprios aspectos infantis acabam levando-o muitas vezes a incutir sentidos à criança, desviando o atendimento por caminhos de sua própria subjetividade (a do analista). Um caminho que deve ser trilhado na análise pessoal do analista e não pelas “linhas tortas” do atendimento da criança.
Se para Lacan, a análise deve levar o sujeito ao encontro com o id, com suas pulsões, a análise de crianças não deve ser diferente. Deve também caminhar para que a criança possa ir a busca de suas pulsões e desejos, sair em parte da posição que os pais lhe determinam e dos sintomas nos quais a vêem ou a colocam. Deslocar-se então de uma posição alienante que o Outro a insere e assumir um papel ativo, fazendo um Real ao invés de sofrê-lo.
Pensemos seriamente que o atendimento de crianças deve ser um campo singular, campo onde a criança encontre a possibilidade de construção da sua própria alteralidade. Qualquer tipo de maternagem, didática ou “coluio” com os pais somente leva a um empobrecimento da Psicanálise.
Silvia Coari

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Caminho das Psicopatias*

“Ele será sempre enganado mesmo, então que seja por mim!...” O que levaria uma pessoa a pensar desta maneira e a se relacionar assim com as outras? Um tema sempre atual e presente nas tramas de nossas telenovelas, que levam diariamente um grande número de telespectadores fiéis e, porque não dizer, ansiosos por assistirem os desfechos inusitados de seus personagens favoritos.

Trata-se dos caminhos percorridos pelos “vilões” das tramas. A personalidade de tais vilões tem gerado maior interesse e atenção do telespectador do que o próprio par romântico da história. Ardilosos, simpáticos, meigos e altamente convincentes, os vilões das teledramaturgias não usam nada além das palavras, das ”caras e bocas” para atingirem seus objetivos. Não lutam, não batem, não xingam e raramente se exaltam nas conversas. Parecem altamente equilibrados e até sensatos, porém assistimos a cada capítulo, o resultado da manipulação sórdida que exercem sobre os demais e dos ganhos que obtém com isto.
Quem de nós não parou ao menos 5 minutos para assistir boquiaberto a rapidez com que a personagem Flora, interpretada por Patrícia Pillar na novela “A Favorita”, transformava-se de uma pobre vítima em uma inescrupulosa vilã? Atualmente, a nova trama Global tem trazido às telas da tv, uma vez mais, a questão da Psicopatia através da personagem Yvone, interpretada pela atriz Letícia Sabatella em “Caminho das Índias”.


A psicopatia é um distúrbio de personalidade que afeta o sujeito diretamente em seu relacionamento social, por isso é também definido em alguns manuais de Psicopatologia como Sociopatia.
O psicopata é um grande dissimulador daí saber reconhecê-lo é tarefa extremamente difícil. Entendem muito bem o fato, mas não se importam, é como se os processos emocionais fossem para eles uma segunda língua. Podem entender o que os outros sentem do ponto de vista intelectual, uma vez que a noção de realidade não se altera, mas são incapazes de sentir como pessoas normais.

A personagem Yvone é meiga, simpática e altamente sedutora. Suas manobras são tão ardilosas que impedem que os demais desconfiem da veracidade de suas falas ou da meiguice de seu olhar.
Assim é o psicopata. Resultado de uma cisão na estruturação de seu “eu”, acredita que a lei não terá efeito sobre ele. Ou seja, duvida e por vezes se diverte com a suposta certeza de que nunca será pego em suas falcatruas, em seus atos ilícitos. Não se coloca em obediência às normas sociais com relação aos comportamentos legais; possui propensão para enganar, mentindo repetidamente tenta obter vantagens pessoais ou prazer. É capaz de dramatizar desde um lugar de vítima com voz de súplica, ou de apresentar-se como uma pessoa humilde e ignorante onde o outro rapidamente o “compreende” e o apóia. Eleva o falso à condição de autêntico e o inferior à condição de superior e melhor.
A partir do seu desempenho, se é fisgado e atado em um relacionamento onde se crê existir amor e respeito. Porém, assim que o psicopata é desmascarado, ficamos ali, paralisados e perplexos sem entender nada do que aconteceu.
Infelizmente é comum que escutemos, nos meios psicanalíticos, que o psicopata raramente procura uma análise ou qualquer outro tipo de ajuda. Geralmente os que nos procuram são aqueles que sofrem ou sofreram as conseqüências de sua ação. Driblar a lei e enganar o outro é experimentado pelo psicopata, como uma sensação triunfal e não penosa. Não está sujeito às ruminações de culpa, tem ausência de remorso e indiferença por ter ferido, maltratado ou roubado outra pessoa. As práticas de atos ilícitos garantem a ele alguma identidade subjetiva que o protege contra angústias psicóticas, angústias estas, claramente observadas no personagem Tarso, protagonizado pelo ator Bruno Gagliasso na trama e que apresenta outra psicopatologia.
Entretanto, o prazer experimentado pela psicopatia também apresenta efeitos colaterais indesejáveis: burlar as leis e viver muitas vezes como se elas não existissem vai provocando cada vez mais a cisão do sujeito com a realidade, ao mesmo tempo em que o leva a um estado de vazio psíquico e uma ausência de relacionamentos afetivos verdadeiros. Ou seja, a solidão e a infelicidade podem se tornar perturbadoras para o psicopata e é nestas horas que ele poderá cometer atos mais “descuidados” e se deixar “pegar” na ilegalidade.
E será aí, onde assistiremos surpresos, vir à tona um sujeito absolutamente desconhecido por nós, que em algum momento acreditamos conhecer. Nesta hora, nem mesmo a Índia nos será tão estranha!

Edilaine Bronzeri Pugliese

*texto publicado no Jornal de Jundiaí – Caderno Estilo de 26/07/09.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

"Divã ou Diva - sobre o feminino"


O cinema e a psicanálise têm entre si uma estreita proximidade, seja desde o nascimento de ambos na mesma época ao sentido dado aos sonhos por Freud. Um filme pode se prestar bem para “sonharmos” , como também para buscar, o quê Freud buscou em clássicos da literatura, como Édipo Rei e Hamlet, uma teorização das questões psíquicas universais. O filme “O Divã”, de José Alvarenga, baseado no romance de Martha Medeiros, conta a história de Mercedes, uma mulher de 40 anos, que vive às voltas com as alegrias e desafios da sociedade contemporânea. Casada, mãe de dois filhos, Mercedes decide, sem bem saber o porquê procurar um psicanalista.
Proponho aqui realizar a análise de fragmentos deste longa nacional, privilegiando a escuta do feminino. À parte do tom caricatural, cômico-crítico dado ao psicanalista no filme, efeito estereotipado do senso comum e do propósito comercial destinado a fazer rir, não pretendo esgotar outras tantas possibilidades de leituras psicanalíticas que esse filme poderia disparar. Interessou-me pensar sobre aspectos da constituição psíquica da mulher. Escrevo o quê ecoou à minha escuta frente a uma única sessão de cinema que assisti do filme em questão, assim como fazemos trabalhar o quê nos suscita em uma inédita, por ser sempre única, sessão entre o analista e o analisando.
Mercedes se vê à meia idade frente ao desmoronamento dos antigos acordos conjugais, a traição do marido, a separação, os filhos crescidos e a sua não realização profissional. Ela lança ao analista questões sobre sua capacidade de sedução - “alguém tem desejo por mim?” -, numa busca de que “algo” a faça acreditar, confiar na sua existência como sujeito, e como todos demanda amor. Acompanhamos a escuta do analista, Lopes, e suas intervenções que passam a provocar recordações, onde havia repetições.
A psicanálise se dirige ao sujeito do inconsciente, e assim, assistimos um analista, através da sua escuta, propiciar sua emergência. Percorrendo um caminho no sentido regressivo, do manifesto ao latente, converte a repetição em recordação pelos sentidos novos encontrados. Começa-se a reescrever uma história, que não é outra história, mas potencialmente nova na maneira de entender, experimentar e viver a vida.
Mercedes conta que perdeu a mãe ainda pequena, não chorou sua morte e que a partir daí “algo surpreendente aconteceu: o pai foi tão carinhoso...”. Ao falar ela recorda a cena que se segue: uma menina, aproximadamente no final da primeira infância, caminhando triunfante em torno do caixão num velório e, em seguida a vemos sentada no colo do pai, acolhida carinhosamente.
Proponho a partir dessa cena pensarmos sobre a especificidade do Édipo feminino. Freud formulou o complexo de Édipo, na chamada forma simples e positiva, o desejo da morte do rival que é a pessoa do mesmo sexo e desejo sexual da personagem do sexo oposto
[1]. O esquema inicial proposto por Freud compreenderia, então, a menina que se enamorava do pai e o menino, da mãe; e durante a estruturação deste conflito a função paterna desempenharia a interdição imprescindível, porta voz da castração simbólica. No caso do menino, submetido à ameaça de perder o quê lhe era precioso, renuncia ao lugar psíquico de único e exclusivo objeto amoroso da mãe, identifica-se com o pai e abre-se, assim, a possibilidade da busca de outra mulher. Com a teorização de que a mãe é o primeiro objeto amoroso para todos, sejamos meninos ou meninas, haverá acréscimos teóricos neste complexo, tendo que ser teorizado o que acontecia com a menina. No caso da menina, a relação do complexo de Édipo com o complexo de castração é muito diferente do que no menino. O desejo exacerbado de possuir aquilo do qual a mulher se crê privada pelo destino – ou pela mãe – expressa uma insatisfação fundamental. Nessa fase um só sexo, o masculino, é conhecido pelas crianças, e assim, compreende-se o despeito invejoso da menina por ser dele desprovida. Diante da decepção com a mãe, por ela não ter lhe “feito completa” ou devidamente paramentada, troca de objeto de amoroso, e volta-se para o pai.
Seguimos Mercedes em suas tentativas de obter uma completude, antes buscada no pai, depois na maternidade, agora em casos com moços vigorosos. O Édipo feminino é construído a partir da mudança de objeto libidinal da mãe para o pai, e também se refere à separação da mãe, ou seja, a menina vive com a mãe uma completude imaginária, e a entrada de um terceiro (o pai) anunciará a angústia de castração – não existe a completude – promovendo a separação e possibilitando o processo de subjetivação. Quando adulta, nas escolhas de um par amoroso, ao formar um casal, a mulher pode repetir suas más relações com a mãe, em última instância. Pensemos nas conseqüências psíquicas no caso descrito da mãe que morre enquanto se dá no psiquismo da menina toda essa construção estruturante: o desejo de ter o pai para si e destruir sua rival, terrivelmente, parecem ser realizados. O perigo da interdição simbólica não se cumpriu? Contudo, neste caso, o pai parece ter exercido uma função organizadora.
O filme também faz referência a amizade entre mulheres, a melhor amiga, com quem confidências íntimas e cosméticas são compartilhadas, o olhar para uma outra em busca de saber o quê esta tem, na intenção de responder aos próprios enigmas da falta. Neste sentido, Mercedes observa a suposta bela relação de um casal – a amiga e o marido - que tem uma filha, com a qual parece identificada. Mercedes se irrita com o analista que parece insistir em lhe pontuar: “O quê minha mãe tem a ver com isto?”. Contudo, parece ser após a morte da amiga, falada na análise, que pode revisitar suas lembranças, chorar a morte da mãe, fazer o trabalho de luto: identificar-se e separar-se do objeto perdido, lançando-se à própria subjetividade. Reconciliando-se com suas perdas, com sua própria finitude: “O quê minha mãe tem a ver com isto?... Tudo tem um fim...” retoma.
O feminino que, como possibilidade, passa a se entender além da questão do corpo, da procura em obturar a falta, encontra a última saída descrita por Freud: “tornar-se” mulher. Nas últimas cenas do filme vemos Mercedes protagonista da sua arte numa mostra de suas obras de pintura a óleo encontrando contorno à falta. Pôde fazer escolhas e ser o melhor e o mais feliz que podia ao percorrer o solitário e singular caminho das respostas subjetivas.
Uma Diva... Uma mulher dona das suas peculiaridades pôde sobrevir.

Patrícia Merli Macieira Matalani


[1] J.Laplanche/J.-B.Pontalis, Vocabulário de Psicanálise, verbete Complexo de Édipo

segunda-feira, 11 de maio de 2009




Nadar sem raia ou navegando perto dos ventos


Experimentar algo, sentir na pele, parece mesmo ser aquilo que faz uma idéia mudar de estado. Passar de uma forma funcional de inconsciente para consciente.
Podemos informar, trazer a luz da consciência de forma didática, mas isso só não basta, pois, o conhecimento informado, um a mais, soma, mas não transforma.

“A lição sabemos de cor, só nos resta aprender”, diz a letra da música de Beto Guedes.
No contexto da música, não me recordo qual seria a lição decorada. Porém, o pequeno trecho, me serve para ilustrar esse saber que só a vivencia pode trazer, virar experiência de vida. Afinal, não é uma análise uma experiência de vida? Uma experiência assistida e com inúmeras particularidades, mas por ser experimentada, sentida na pele, é que tem algum efeito.
Para ilustrar a construção do meu conhecimento e ilustrar da melhor forma possível o que me ocorre quanto a formação em psicanálise (momento que vivo) tratarei de dois extremos, serão as raias do meu texto e me ajudarão a nadar em linha reta buscando ser o mais claro possível e melhor transmitir como tenho entendido a construção do conhecimento psicanalítico.
De um lado vou utilizar um psicanalista teórico, estritamente teórico e que talvez nem encontremos de fato e se assim o for tomo a liberdade da ficção como auxílio. Um que se interessou em "saber a lição".
Vale lembrar a posição de Freud, ele elaborava a teoria através da prática fosse com sua intitulada e polêmica auto-análise ou na clínica e a revisou até a morte, sem medo de ser feliz. E que não se entenda com isso uma apologia a balburdia, mas quem sabe um convite à reflexão. Claro que nós, os "iniciados" sabemos o quão Freud ansiava pelo reconhecimento de sua obra, porém isso não o conduzia a atitudes irresponsáveis com relação à construção de sua ciência. Tinha com certeza direito a sua loucura neurótica, mas evitava se confundir a dos pacientes.
Os anos se passaram, a obra psicanalítica cresceu, muito se praticou, muitas direções, muito fracionamento classificatório dos sofrimentos psíquicos. Eles se tornaram "populares", por vezes muletas a nossa racionalidade, assunto de revista semanal e telenovelas. Com a internet é fácil encontrar um teste que diga o que você tem, um diagnóstico partindo de um comportamento catalogado. Tudo isso, claro, com um viés psiquiátrico, neurológico com a busca de talvez, com tudo explicadinho encontrarmos a paz. Agrada-se assim o público cada vez mais apenas um consumidor e a indústria que em suas diversas facetas se fortalece.
Enquadrando-se em algum número estatístico, seja com a pior das doenças psiquiátricas, dá-se nome aos bois e sente-se assim menos estranho a algum rebanho, menos estranho a esse outro diferente, menos estranho segundo as "leis vigentes", ou as que são válidas naquele momento, e por isso as leis que vigiam e que por fim vão sempre ajudar a fortalecer a resistência, aquilo justamente que deveria ser trabalhado.
Devido a esse natural acumulo de "conhecimento" na biblioteca dos sofrimentos psíquicos é que estamos falando desse possível psicanalista teórico. Claro que encontramos nele uma prática também. A prática da leitura, indispensável claro, mas estudar não basta, por vezes, apenas faz crescer idealizações que o distanciarão de se descobrir desejante, independente do desejo do outro. Entendo que seja salutar à construção do conhecimento, mas exemplos e metáforas não poderiam substituir o principal. Navegar perto dos ventos fortes que encontramos ao reconstruir nossa subjetividade para, então, aprendermos a nadar sem as raias.
Talvez o grande ensinamento da metapsicologia seja esse: nos deixar na dúvida, na falta, na incerteza. Seria idealização imaginar que Freud sabiamente queimou partes de sua obra no intuito de ensinar aos póstumos como conviver com a falta e seria mais sensato pensar que isso fala da sua neurose, o retorno do recalcado talvez. O fato é que me serve de exemplo para esse aprendizado de conviver com o "buraco".
Se opondo aos profícuos escritos teóricos da psicanálise por vezes podem aparecer na clínica observações reducionistas, simplistas, como por exemplo: o comedor compulsivo tem um buraco, sente um grande vazio em sua existência e tenta tapá-lo preenchendo-o com a comida. Pergunto-me: E daí? De que serve isso?
O psicanalista teórico, que feito um de “comedor compulsivo” come a teoria pode limitar-se na clínica, tampar as descobertas do analisando (por vezes até as próprias), “obturar” sua história.
A reconstrução da subjetividade na clínica deve aparecer como descobertas do analisando e ligadas a sua história. Fazer uso da linguagem em prol do seu desejo. Dentro do contexto (para não me parecer com o que vinha criticando) abrir a boca para dizer não. Quem sabe um dia possa até escutar dessa boca, mas que parta dela, a observação de que sentia um vazio com o qual não sabia lidar, agora eu sei, aprendi.
Para terminar vale lembrar que em se tratando de tapar buracos o tripé na formação de um psicanalista não será capaz de fazê-lo e seremos como todos, incompletos.
Psicanalistas incompletos, mas que valorizam a importância do tripé em sua formação.
Gustavo Florencio Fernandes

domingo, 1 de fevereiro de 2009


O Analista e a Esfinge
“É um erro acreditar que a ciência consiste apenas em proposições definitivamente provadas, e é injusto exigir que assim seja. Tal exigência é feita somente por aqueles que anelam mais que tudo pela Autoridade, e precisam substituir seu catecismo religioso por outro, ainda que de caráter científico”. Freud, S. “Conferências Introdutórias – III”

Quando o TRIEP me propôs que preparasse um texto para o seu blog, fiquei tomada por grande entusiasmo. Afinal, preparar um texto é sempre um “pretexto” para rever leituras, remexer antigos apontamentos, tentar entender o por quê ter sublinhado determinado parágrafo de um livro, quando o seguinte parece tão mais esclarecedor agora. . . Enfim, é uma boa oportunidade para se debruçar sobre o que se avaliava como já “sabido” e para se repensar sobre o quanto ainda não se “sabe”.
Já fazia algum tempo que não me debruçava para escrever algo mais formal e sistemático. Mas ocorre que no que diz respeito à Psicanálise, a questão não é começar a discorrer sobre a teoria apenas, pois envolve algo mais, algo que tem a ver com a sua prática.Digo “prática”, não apenas com a ideia de praticar a Psicanálise, mas a “prática” que envolve o ser analista: o analista - analista, o analista - analisando, o analista - supervisor, o analista - supervisionando, o que transmite, o que recebe ... Enfim, o campo específico da prática e da teoria psicanalítica.A melhor maneira então de iniciar um estudo da Psicanálise será voltar-se para sua origem histórica, voltar-se à época dos primórdios. E será justamente aí, onde poderemos acompanhar Freud, o criador da Psicanálise, em seu isolamento, explorando, questionando, duvidando e explorando novamente. Neste momento, era o amigo Fliess[1] quem se oferecia como único ouvinte, com quem ousou questionar as verdades da época; a quem expôs sua própria vida – analisando sonhos, atos falhos, lembranças – no trabalho de construção da teoria que se entrelaçava com sua auto-análise.Em busca pela verdade humana, na qual obviamente se incluía, Freud nos leva a participar constantemente de suas dúvidas, incertezas, abandonos e retomadas.
“A verdade”, escreveu Freud a Sandor Ferenczi
[2] em 1910, “é para mim o objetivo absoluto da ciência”.A verdade a qual persegue, podemos vê-la em sua maneira de escrever, onde há uma combinação dos processos primários e os processos secundários[3], onde seus aspectos intelectuais e inconscientes tem uma participação complementar.
As ideias são descobertas e pensadas à medida que as escreve, o que dá ao texto um tom de humildade, propriedade, dignidade e verdade. Ao mesmo tempo em que demonstra sua tolerância em relação ao incerto, suporta a angústia da dúvida e do não saber.
Não se defende das verdades, mas vai a busca delas - o que podemos observar em vários momentos da obra. Porém, o momento crucial onde questiona a teoria na qual vinha apoiando sua clínica e toda sua construção teórica, ocorreu em 1897 com o abandono da teoria da sedução.
É na carta datada de 21 de Setembro de 1897(carta 69), onde Freud fala pela primeira vez sobre a realidade psíquica e escreve: “Confiar-lhe-ei de imediato o grande segredo que lentamente comecei a compreender nos últimos meses. Não acredito mais em minha neurótica (teoria das neuroses).”
Em seguida passa a relatar os motivos que o levaram à sua descrença e completa : “...devo reconhecê-las (as dúvidas), como o resultado de um trabalho intelectual honesto e esforçado e devo ter orgulho, depois de ter ido tão fundo, ainda ser capaz de tal crítica. Será que essa dúvida representa apenas um episódio no avanço em direção a novos conhecimentos?”

Quem de nós, neste exato momento estaria livre o suficiente para tal posicionamento? Quem de nós suporta uma questão sem resposta?
Penso que a construção da teoria psicanalítica abriga o paradigma do que veio a ser o próprio ofício da psicanálise. Deparar-se com o novo, o desconhecido, com um enigma que se oferece para ser decifrado. É justamente com o que se deparou Freud na construção de sua obra e é com o que seguimos nos deparando e nos confrontando enquanto analistas.
O analista em sua clínica se depara a cada dia, a cada sessão e a cada minuto com algo do desconhecido. Assim como um arqueólogo que a cada fragmento da cerâmica encontrada, se surpreende com a história que se recria a sua frente. Os fragmentos da história “oculta” do sujeito, surgindo a partir do suporte de um outro, que ocupa o lugar de uma testemunha, transforma seu passado ao ressignificar suas marcas de memória, possibilitando novas perspectivas no seu presente e no seu futuro.
Ao introduzir o conceito de Inconsciente, Freud coloca a fala em outro lugar: “alguém que fala e ao fazê-lo diz mais do que aquilo que se propunha” (Alonso, S. 1988)
[4].Por isso, o que a Psicanálise traz de precioso para qualquer situação é seu dispositivo de “escuta”, a eficácia mágica do “deixar falar” os conteúdos latentes que surgem, os não ditos, as recorrências e repetições, as redes e interligações de novas falas que este dispositivo de escuta permite. E é em um trabalho de investigação psicanalítica que o analista exerce a suspeita de que há sempre um a mais do que o dito para ser escutado.Porém, quem se dispõe a escutar se depara com o inesperado; o inesperado que “pula” para dentro da sessão apoiando-se em aspectos da realidade para fazer-se presente e encontrar algum sentido. E é na forma surpreendente com a qual surge, que podemos presenciar o fenômeno da transferência. O analisando se dirige ao analista como o único e verdadeiro destinatário de sua palavra que traz seus desejos e fantasias. O analista mantém a transferência e é neste cenário que o trabalho analítico se passa.Contudo, como o analista poderá manter a transferência sem se confundir com ela?Sustentar o lugar de analista implica dificuldades. Implica em abdicar a todo momento o lugar de saber que lhe é oferecido. Esse processo poderá ser árduo para o analista, pois, depende de sua análise pessoal e do quanto é possível ao psicanalista realizar a renúncia narcísica para não correr o risco de ocupar o lugar de amo do desejo - convertendo a análise em sugestão; e tampouco se oferecer como ideal a ser imitado - convertendo a análise em pedagogia.
Vemos então, que o conhecimento da teoria nunca será o suficiente para tornar alguém apto para o ofício da psicanálise. Há que se reconhecer que “o analista interpreta sempre em função de uma tripla determinação: do que consegue escutar do que é falado pelo paciente (via atenção flutuante), do que incorporou do sistema conceitual (conhecimento teórico) . . e por último, . . . pelo conhecimento, sempre relativo, que o analista tem de seus próprios processos inconscientes.” (Hornstein, L., 1989)[5].
Se nos remetermos à tragédia do Édipo Rei, veremos que além da identificação no plano universal, que todos temos com Édipo, há outra situação que vive o herói da tragédia, à qual podemos nos livrar.
Refiro-me aqui a arrogância com que Édipo, após ter decifrado o enigma imposto pela Esfinge e entrar na cidade proibida, imaginou-se acima dos mortais e tornou-se surdo para o que não queria ouvir. Afinal era ele quem possuía o saber, aquele que pôde decifrar o enigma e com isso calar a Esfinge. Um saber que o tornou rei, mas que também o levou ao incesto, ao desespero e à cegueira.

O analista deve usar o que conhece da teoria em prol de um fazer falar e não de um fazer calar. Há que se pensar, que o que se sabe jamais será suficiente para aplacar todas as dúvidas e todas as faltas.
Como analistas temos que ressuscitar a cada dia a Esfinge, para que os enigmas sigam presentes, pedindo para serem decifrados.

Jundiaí, Fevereiro de 2009.
Edilaine Bronzeri Pugliese
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Bibliografia
FREUD, Sigmund. Recomendações aos médicos que exercem a Psicanálise, in Obras Completas, RJ, Imago Editora, 1969, vol XII.
GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o Inconsciente, RJ, Jorge Zahar Editor, 1984.
GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Introdução à Metapsicologia Freudiana – 2, RJ, Jorge Zahar Editor, 1991.
MEZAN, Renato. A vingança da Esfinge: Ensaios de Psicanálise, SP, Brasiliense, 1995.
HORNSTEIN, Luis. Introdução à Psicanálise. SP, Ed. Escuta, 1989.
ALONSO, Silvia. A escuta psicanalítica. Revista Percurso, nº 1, 1988.
ALONSO, Silvia. Efeitos na clínica dos ideais instituídos. Revista Percurso, nº 3, 1989.
KON ROSENFELD, Helena. O estilo do escritor Sigmund Freud: um passeio por Totem e Tabu. Revista Percurso nº 4, 1990.
MASSON, Jeffrey Moussaieff. Carta à Fliess de 21/09/1897 (carta 69), in: A correspondência Completa de Sigmund Freud para Wilhem Fliess 1887 – 1904, RJ, Imago Editora, 1986.
[1] Wilhelm Fliess (1858 — 1928) médico alemão, especializado em cirurgia e otorrinolaringologia.[2] Sandor Ferenczi (1873-1933), médico psiquiatra, psicanalista húngaro.[3] Processo primário, Processo secundário – dois modos de funcionamento do aparelho psíquico. Pode-se diferencia-los através do modo de escoamento da energia psíquica.[4] Silvia Leonor Alonso – psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae SP[5] Luis Hornstein – psicanalista membro do “Foro Psicanalítico de Buenos Aires”.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Do luto à análise pessoal*

Ao discutir a questão da análise leiga, ou seja, a análise pelos não-médicos, diz Freud:
“O que exijo é que não possa exercer a psicanálise alguém que não tenha conquistado por meio de uma determinada preparação, o direito a uma tal atividade.” 1

Sendo o Inconsciente, a Transferência e o Édipo os pilares da descoberta freudiana a partir dos quais a análise é possível e a teoria se desenvolve, é de se supor que estas questões digam respeito à formação analítica.

No TRIEP pensamos que a formação deve se encaminhar de modo não a se instalar num confortável transatlântico que nos leve ao suposto porto seguro das teorias, mas deve se encaminhar para aprendermos a navegar nas tempestuosas águas do inconsciente onde a transferência muda o vento sem prévio aviso.

Acreditamos no tradicional tripé sobre o qual se ancora a formação do psicanalista: estudos teóricos, supervisões da prática e a análise pessoal do analista. E o compromisso com a formação implica a sustentação do tripé por todos, sem exceções.

Essas três vertentes devem fazer parte do projeto de formação de todos aqueles que desejam ocupar um lugar na clínica com seriedade e ética.

Em seu texto de 1912 Recomendações aos médicos que exercem a Psicanálise, diz Freud:
“Há alguns anos, dei como resposta à pergunta de como alguém se pode tornar analista:” Pela análise dos próprios sonhos.”Esta preparação, fora de dúvida, é suficiente para muitas pessoas, mas não para todos que desejam aprender análise. Nem pode todo mundo conseguir interpretar seus próprios sonhos sem auxílio externo...Todo aquele que tome o trabalho a sério deve escolher este caminho, que oferece mais de uma vantagem; o sacrifício que implica revelar-se a outra pessoa(...)2
Exercer a psicanálise é um direito que se conquista e a análise pessoal é com certeza o lugar básico da formação do analista. Para o trabalho na clínica, esse território permeado por angústias, dúvidas, perguntas das mais variadas ordens, é imprescindível que cada candidato ao lugar de psicanalista se prepare cuidando de buscar aliviar as dores do seu próprio viver.

Nesse mesmo texto que citado anteriormente, Freud coloca:
“...quem não se tiver dignado a tomar a precaução de ser analisado não só será punido por ser incapaz de aprender um pouco mais em relação a seus pacientes, mas correra também perigo mais sério, que pode tornar-se perigo também para os outros. Cairá facilmente na tentação de projetar para fora algumas das peculiaridades de sua própria personalidade, que indistintamente percebeu, no campo da ciência, como teoria de validade universal; levará o método psicanalítico ao descrédito e desencaminhará os inexperientes.”3

A constituição do sujeito psíquico é inevitável e necessariamente na dor (defesa e sintoma). O nosso modo de pensar e entender a vida e o viver tem na sua composição uma dor psíquica que precisa encontrar um lugar de expressão e compreensão. Esse lugar é o lugar de paciente, de analisando.

Quem diz que está “muito bem”, que é “resolvido”, que teve uma “infância normal” ou ainda, que “não consegue” fazer sua análise por problemas financeiros precisa se perguntar e muito sobre suas condições para ser psicanalista. Tem que se perguntar onde o sapato aperta, onde lhe dói.

Não é fácil pensar que temos desejos inconfessáveis, fazemos coisas sem motivo aparente, que não vivemos sob o império da inteligência e da razão, mas de algo que nós ultrapassa, nosso inconsciente. Ninguém escapa a isso – nem Sócrates, nem Hegel, nem Freud. E, além disso, contrariando o imaginário cultural estudar psicologia ou psicanálise não nos faz entendidos de tudo ou todos, não nos faz menos nervosos, mais coerentes ou equilibrados.

O processo analítico requer determinação e uma certa coragem, pois, será uma aventura na exploração das entranhas dos pensamentos malcheirosos e arriscados. Mas sem uma vontade de acalmar uma dor e conseguir viver melhor como enfrentar esse caminho da análise?

Reconhecendo o seu sofrimento psíquico, o desejo de resolver um conflito e precisar se curar o futuro psicanalista que busca e realiza uma análise dá um bom passo para se autorizar a ser analista. Deixa de engatinhar, se coloca de pé e dá os primeiros passos para a construção do percurso da sua formação.

O trabalho na clínica traz momentos árduos, acreditem que não serão poucos esses momentos, e será importante saber que a pratica que oferecemos aos nossos pacientes já curou alguém: nós mesmos.

A formação de um psicanalista supõe muita paciência para a construção artesanal do seu lugar profissional, disponibilidade de pensar no outro e em si mesmo e reconhecer que essa escolha profissional envolve suportar entrar em contato com pessoas diferentes de nós, e em determinados casos muito diferentes; ter pelas diferentes experiências humanas uma enorme curiosidade e apreço e não uma recusa, desprezo ou julgamento moral. Constituir-se na posição ética de que esse trabalho não é o de decidir o bem ou mal, o certo ou errado, quem tem razão, não se é um juiz e muito menos o dono da verdade sobre a vida.

O efeito da análise pessoal do analista, para além de acalmar a dor e se viver melhor, trará sentido a outra importante vertente – a relação do psicanalista com a teoria, com o saber.

Freud em sua Conferência XXXIV – A questão de uma weltanschauung (visão de mundo) colocando dialeticamente a religião, o marxismo e a psicanálise brilhantemente situa-nos sobre como trabalha o cientista:
...“trabalha como um escultor no seu modelo de argila, o qual, incansável, modifica o esboço primitivo, remove, acrescenta, até chegar àquilo que sente ser um satisfatório grau de semelhança com o objeto que vê ou imagina”.4
A Psicanálise é uma ciência, o psicanalista um cientista e isso quer dizer, seu trabalho deve se apoiar num espírito de estar sempre disposto a ser verificado. O cientista é aquele que se propõe sempre a se perguntar, não trabalha com certezas, mas com hipóteses, está incansavelmente disposto a rever seus construtos teóricos e não se atormenta ou se abate com críticas.

A teoria é um momento da elucidação, sempre lacunar e fragmentária. Experimentaremos, assim, dia após dia: dúvidas; formulações; reformulações; leituras e releituras no itinerário dos nossos questionamentos e descobertas.

A relação do psicanalista com a teoria, com o saber, deve ser o da busca de um conhecimento que leve a desalienação. Deve manter-se com uma disposição constante de interrogar e colocar em questão os modelos metodológicos. Essa disposição implicará em uma desidealização e todo um trabalho de luto da busca infantil de um mestre, de um construto teórico de perfeição e certezas absolutas.

Em seu texto “Luto e Melancolia” de 1917 Freud coloca que:
“O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém...”5


Há um trabalho de luto a realizarmos na nossa análise pessoal para nós tornarmos um psicanalista, a perda de “um ente querido”, e para alguns muito querido, o ideal de um estado pleno aonde se teria todas as respostas, todas as soluções ou seja, o ideal da onipotência infantil. Esse ideal infantil busca encontrar um mestre que tudo sabe e responde e por conseguinte também ser sua imagem e semelhança.

Perder o objeto é transformar-se. Daí, o luto implica em uma perda e também em um processo da saúde mental, pois, coloca-nos em transformação e na desalienação.

Esse trabalho de luto, a perda da onipotência infantil, se faz necessário porque a experiência da escuta, coloca-nos em um lugar difícil. Um lugar no qual se deve suportar as transferências (laços terapêuticos) um contato permanente com a incerteza, com a irrupção do desconhecido. E também, o trabalho de luto nos ajuda a aceitar não saber nada a priori sobre aquele que pede ajuda, conhecendo dele apenas aquilo que surgirá encontro após encontro. E que oferecemos a ele um interesse legítimo em acompanha-lo na sua busca de compreensão das perguntas que brotam do seu próprio desejo.

Vive-se na clínica com o equilíbrio instável, com sua complexidade e a da vida psíquica que são grandes demais, desse modo, nossas escolhas teóricas não serão “simples” leituras, muito menos um manual a ser seguido, mas uma busca marcada pela inquietude, angústia e questionamento ativo do desejo de saber.

Esse questionamento ativo do desejo de saber significa estudar, supervisionar sua prática, se por a pensar e se questionar sempre.

Pensar que a prática clínica seria uma mera aplicação de uma teoria tida como sagrada e que se estaria ali – no lugar do espaço clínico – para conduzir um outro oferecendo respostas as suas perguntas, seja quais forem, é no mínimo presunçoso e no máximo perigoso e abusivo.

Oferecemos um espaço de escuta e de diálogo, investigando e interrogando as motivações conscientes ou inconscientes para um sujeito que tenta buscar alívio para suas dores e se transformar segundo os seus próprios desejos.

Como aprender a analisar, então, sem passar pela experiência da própria análise?

Na análise pessoal, o analista retoma o contato com a criança que nele existe, melhor dizendo, com as etapas da sua infância que remetem à “crise” de loucura. Redescobre uma linguagem esquecida, as palavras perdidas de um dialeto materno: são essas palavras que lhe vão servir para escutar seu paciente.

A análise das dificuldades psicológicas do analista ajuda a abrir o campo para uma escuta genuína do paciente. Analisar-se é matar a criança ideal para dar lugar à criança real, é renunciar à onipotência infantil e, por que não, à ilusão do analista perfeito. É elaborar um luto. E, é nesta possibilidade de retorno que vamos rever os processos de idealização, a ilusão.

“A ilusão é algo que surge de um desejo: o de evitar o contato com a vulnerabilidade humana, criando uma figura de pai protetor, sem falhas, nem faltas, recriado na onipotência e na onipresença de uma figura divina. A ilusão narcísica de plenitude.”6 ·

Fazemos análise para deixarmos de nos repetir. Vamos para o divã e rememoramos para nos livrarmos da repetição inconsciente e reinventarmos nossa existência.

Para encerrar indicamos um poema. O Poema em linha reta de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos).

Indicamos a leitura e reflexão que esse poema coloca a todos, e principalmente aqueles que resistem em pensar que a análise pessoal do psicanalista não é uma mera retórica, um discurso vazio ou uma questão mercadológica. E a supervisão da prática clínica e/ou o estudo teórico não podem substituí-la, em hipótese nenhuma.
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*Texto baseado na Palestra apresentada na I Jornada de Estudos Psicodinâmicos do
Centro Universitário Padre Anchieta (Campus Prof. Pedro C. Fornari) em 03/10/08 pela Psicanalista Daisy M R Lino.
FREUD, Sigmund (1969) – Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas
Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro, Imago Ed. Ltda
1 ____________(1926) A Questão da Análise Leiga, Vol. XX, Pág. 226
2 __________(1912) Recomendações aos Médicos que exercem a Psicanálise, Vol. XII, Pág. 155
3 __________Ibíd. , Pág. 156
4 .____________(1932-1936) Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise, Conferência XXXV A Questão de uma Weltanschauung, Vol. XXII, Pág. 211
5 ___________(1917[1915]) Luto e Melancolia,Vol. XIV, Pág. 275

6 ALONSO, Silvia Leonor – Efeitos na clínica dos ideais instituídos, Percurso Revista de Psicanálise – Ano II - N° 3 - 2° Semestre de 1989.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Literatura de Auto-Ajuda: O Segredo da Fraude


No dia 24 de novembro de 2007 realizamos mais um encontro do Triep.
O tema - a fraude da literatura de auto-ajuda - foi abordado do ponto de vista da psicanálise.
Partimos da idéia que esse tipo de literatura, ao alienar ainda mais o sujeito contemporâneo acometido de narcisismo, afasta-o de pensar sua problemática, refletir sobre a origem da sua infelicidade.

Esse sujeito narcisista, seduzido pelas imagens que o mundo propõe como identidade, dá a si mesmo a ilusão de uma liberdade irrestrita, se toma por senhor de um destino cujo sentido reduz a reinvidicação de um objeto. Objeto concebido, imaginariamente, como promessa de felicidade absoluta.
A literatura de auto-ajuda, considerada por muitos como bênção, para alguns como piada, para nós é uma fraude.

Entendemos que ao aderir a ela o sujeito acometido desse traço comum à cultura atual - o narcisismo, passa a não teorizar sobre si mesmo, torna-se alheio à própria história e nega suas angústias mais constitutivas, para se lançar num mar de objetos de consumo dentre os quais a própria literatura de auto-ajuda.
Assim, náufrago de si mesmo, agarrado aos livros de auto-ajuda, se fragiliza passivo na ilusão de uma completude arbitrária, a serviço de seu sofrimento psíquico que o impede de reconhecer-se incompleto, humano.
O debate foi profícuo. O público abordou questões éticas, sobretudo, assim como algumas especificidades teórico-clínicas.
Questionou a postura dos profissionais da área psi em relação à literatura de auto-ajuda; e, também, se não haveria uma luz no fim do túnel, uma vez que, com o tempo os usuários desse tipo de literatura acabariam por se dar conta da fragilidade dessa proposta e do agravamento de seus sintomas.

Alguns fizeram aproximações entre a angústia provocada por uma pressão do mercado, que a cada minuto oferece mais objetos de consumo, e a demanda pela auto-ajuda.
Outros aproximaram Freud de Winnicott ao buscarem um paralelo entre o conceito de frizing e de narcisismo.

Não faltaram os que defenderam a literatura de auto-ajuda.

Até que alguém sintetizou da melhor maneira o tema do encontro, ao dizer que "a literatura de auto-ajuda ensina a não pensar, enquanto a psicanálise incentiva, exatamente, a reflexão sobre si-mesmo, seu contexto histórico e libidinal".