segunda-feira, 19 de julho de 2010
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Os “dez bons livros” de Freud
Em 1° de novembro de 1906, Sigmund Freud respondeu a uma carta do editor e livreiro Hugo Heller. Heller (1870-1923) era proprietário de uma livraria vienense, ponto de encontro de artistas e intelectuais. Em sua carta, enviada a diversos escritores, artistas e cientistas, Heller solicitava que o destinatário indicasse “dez bons livros”.
Freud respondeu o seguinte:
“O sr. deseja que eu lhe indique “dez bons livros”, e recusa-se a acrescentar uma palavra de explicações. Com isso, o sr. me encarrega não apenas de escolher os livros, mas de interpretar seu pedido. Habituado a prestar atenção a pequenos indícios, devo ater-me à formulação literal de sua enigmática pergunta. O sr. não disse “as dez maiores obras da literatura mundial”, caso em que, como tanto outros, eu teria que responder com Homero, com as tragédias de Sófocles, com o Fausto de Goethe, com o Hamlet de Shakespeare, com MacBeth etc. Não se trata, tampouco, dos dez livros mais significativos, entre os quais teriam que figurar os trabalhos científicos de Copérnico, do velho médico Johann Weier, sobre a feitiçaria, de Darwin, sobre a origem do homem, e muitos outros. O sr. não indagou sequer sobre os meus livros favoritos, entre os quais eu não teria esquecido o Paradise Lost de Milton e o Lazarus de Heine. A meu ver, seu texto põe um acento especial na palavra bons, e com esse predicado o sr. quer caracterizar os livros com que nos relacionamos do mesmo modo que com bons amigos, aos quais devemos algo do nosso conhecimento da vida e da nossa concepção do mundo, cujo contato nos proporcionou prazer, e que elogiamos diante de outros, sem que essa relação suscite um temor reverencial, uma sensação da própria insignificância diante da grandeza alheia. Indico-lhe portanto esses “bons livros”, que me vieram à mente sem muita reflexão.
Multatuli: Cartas e obras
Kipling: O livro da jângal
Anatole France: Sobre a pedra branca
Zola: Fecundidade
Merejkovski: Leonardo da Vinci
Gottfried Keller: A gente de Seldwyla
Conrad Ferdinand Meyer: Os últimos dias de Hutten
Macauley: Ensaios
Gomperz: Pensadores gregos
Mark Twain: Esboços
Não sei o que o sr. pensa fazer com essa lista. A mim mesmo, ela me parece estranha, a tal ponto que não posso abandoná-la sem acrescentar meus comentários. Não quero examinar por que esses e não outros “bons” livros, mas apenas esclarecer a relação entre o autor e sua obra. Nem sempre essa relação é tão óbvia como a que existe entre Kipling e Jungle Books, por exemplo. Na maioria dos casos, eu teria podido selecionar outra obra do mesmo autor, como por exemplo o Docteur Pascal, de Zola. O mesmo homem que nos presenteou com um bom livro muitas vezes nos deu também de presente vários bons livros. No caso de Multatuli, sinto-me impossibilitado de dar preferência a Cartas de amor em detrimento das cartas particulares, ou vice-versa, e por isso escrevi: Cartas e obras. Excluíram-se obras essencialmente literárias, de valor puramente poético, talvez porque seu pedido – bons livros – não parecesse referir-se diretamente a tais obras. Assim, no caso de Hutten, de C.F. Meyer, o “bom” prevaleceu sobre o “belo”, a “edificação” sobre o prazer estético.
Ao solicitar-me que indicasse “dez bons livros”, o sr. tocou num ponto sobre o qual muitíssimas coisas poderiam ser ditas. Termino, pois, para não ficar ainda mais loquaz.
Sigmund Freud”
Extraído do livro Os dez amigos de Freud, de Sergio Paulo Rouanet - Companhia das Letras - São Paulo, 2003.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
A DIFICULDADE DE DIZER NÃO (OU SIM)*
A necessidade narcisista de sermos amados nos torna covardes e nos leva a assentir
DURANTE toda minha infância, eu dizia "não" mesmo quando queria dizer "sim". Usava o não como uma palavra de apoio, uma maneira de começar a falar. Minha mãe: "Vou sair para fazer compras; algo que você gostaria para o jantar?". Eu, enérgico: "Não", acrescentando imediatamente: "Sim, estou a fim de ovos fritos (ou sei lá o quê)". Os adultos tentavam me corrigir: "Então, é sim ou não?". "Não, é sim", eu respondia.
Entendi esse meu hábito muito mais tarde, quando li "O Não e o Sim", de René Spitz (ed. Martins Fontes). No fim da faculdade, Spitz era um dos meus autores preferidos, o único, a meu ver, que conciliava a psicanálise com o estudo experimental do desenvolvimento infantil. No livro, pequeno e crucial, Spitz nota que, nas crianças, o uso do "não" aparece por volta do décimo oitavo mês de vida, logo quando elas costumam falar de si na terceira pessoa, como se precisassem (e conseguissem, enfim) se enxergar como seres distintos dos outros. Para Spitz, a aquisição da capacidade de dizer "não" é um grande evento da primeira época da vida: a conquista da primeira palavra que serve para dialogar e não só para designar um objeto. Mas, cuidado, especialmente no segundo ano de vida, o "não" teimoso da criança não significa que ela discorde do que está lhe sendo proposto ou imposto: a criança diz "não" para afirmar que, mesmo ao concordar ou obedecer, ela está exercendo sua própria vontade, a qual não se confunde com a do adulto.
Em suma, durante muito tempo, eu persisti na atitude de meus dois anos. Mais tarde, consegui me corrigir. Mas em termos; sobrou-me uma paixão pelas adversativas: mal consigo dizer "sim" sem acrescentar um "mas" que limita meu consentimento. É um jeito de dizer que aceito, mas minha aceitação não é incondicional. "Vamos ao cinema?". "Sim, mas à noite, não agora." O uso do sim e do não, no discurso de cada um de nós, pode ser um indicador psicológico valioso. Mas, para isso, é preciso distinguir entre "sim" e "não" "objetivos", que têm a ver com a questão da qual se trata (quero ou não tomar café ou votar nas próximas eleições), e "sim" e "não" "subjetivos", que são abstratos, ou seja, que expressam uma disposição de quem fala, quase sem levar em conta o que está sendo negado ou afirmado.
Se o "não" subjetivo é um grito de independência, o "sim" subjetivo é uma covardia, consiste em concordar para evitar os inconvenientes de uma negativa que aborreceria nosso interlocutor. Alguns exemplos desse "sim" covarde (e, em geral, objetivamente mentiroso). "Respondeu à minha carta?" "Sim, já mandei." "Gostou de minha performance?" "Sim, adorei." "Quer me ver de novo?" "Sim, te ligo amanhã." Mas também: "Você vai assinar a petição para expulsar os judeus do ensino público?" "Claro, claro, estou assinando."
Acontece que dizer "não" é arriscado. A confusão com o outro, aquela confusão que ameaça a primeira infância e contra a qual se erguia nosso "não" abstrato e rebelde, é substituída, com o passar do tempo, por mil dependências afetivas: "Desde os meus dois anos, não sou você, não me confundo com você, existo separadamente, mas, se eu perder seu amor (sua amizade, sua simpatia, sua benevolência), quem reconhecerá que existo? Será que posso existir sem a aprovação dos outros?". Em suma, o sim subjetivo é um consentimento abstrato (o objeto de consenso é indiferente e pode ser monstruoso), pois o que importa é agradar ao outro, não perder sua consideração. A necessidade narcisista de sermos amados nos torna covardes e nos leva a assentir. Por sua vez, nossa covardia fomenta explosões negativas, tanto mais violentas quanto mais nossa concordância foi preguiçosa. À força de dizer "sim" para que o outro goste de mim, eu corro o perigo de me perder e, de repente, posso apelar à negação abstrata, espalhafatosa e violenta, só para mostrar que não me confundo com o outro, penso com a minha cabeça. Bom, Spitz tinha razão, o uso do não e do sim permitem o diálogo humano. Mas é um diálogo que (sejamos otimistas) nem sempre tem a ver com as questões que estão sendo discutidas; ele tem mais a ver com uma necessidade subjetiva: digo "não" para me separar do outro ou digo "sim" para obter dele um olhar agradecido. Nos dois casos, tento apenas alimentar a ilusão de que existo.
Contardo Calligaris é psicanalista, doutor em psicologia clínica (Université de Provence) e colunista da Folha de S.Paulo. Italiano, hoje vive e clinica entre Nova York e São Paulo.
DURANTE toda minha infância, eu dizia "não" mesmo quando queria dizer "sim". Usava o não como uma palavra de apoio, uma maneira de começar a falar. Minha mãe: "Vou sair para fazer compras; algo que você gostaria para o jantar?". Eu, enérgico: "Não", acrescentando imediatamente: "Sim, estou a fim de ovos fritos (ou sei lá o quê)". Os adultos tentavam me corrigir: "Então, é sim ou não?". "Não, é sim", eu respondia.
Entendi esse meu hábito muito mais tarde, quando li "O Não e o Sim", de René Spitz (ed. Martins Fontes). No fim da faculdade, Spitz era um dos meus autores preferidos, o único, a meu ver, que conciliava a psicanálise com o estudo experimental do desenvolvimento infantil. No livro, pequeno e crucial, Spitz nota que, nas crianças, o uso do "não" aparece por volta do décimo oitavo mês de vida, logo quando elas costumam falar de si na terceira pessoa, como se precisassem (e conseguissem, enfim) se enxergar como seres distintos dos outros. Para Spitz, a aquisição da capacidade de dizer "não" é um grande evento da primeira época da vida: a conquista da primeira palavra que serve para dialogar e não só para designar um objeto. Mas, cuidado, especialmente no segundo ano de vida, o "não" teimoso da criança não significa que ela discorde do que está lhe sendo proposto ou imposto: a criança diz "não" para afirmar que, mesmo ao concordar ou obedecer, ela está exercendo sua própria vontade, a qual não se confunde com a do adulto.
Em suma, durante muito tempo, eu persisti na atitude de meus dois anos. Mais tarde, consegui me corrigir. Mas em termos; sobrou-me uma paixão pelas adversativas: mal consigo dizer "sim" sem acrescentar um "mas" que limita meu consentimento. É um jeito de dizer que aceito, mas minha aceitação não é incondicional. "Vamos ao cinema?". "Sim, mas à noite, não agora." O uso do sim e do não, no discurso de cada um de nós, pode ser um indicador psicológico valioso. Mas, para isso, é preciso distinguir entre "sim" e "não" "objetivos", que têm a ver com a questão da qual se trata (quero ou não tomar café ou votar nas próximas eleições), e "sim" e "não" "subjetivos", que são abstratos, ou seja, que expressam uma disposição de quem fala, quase sem levar em conta o que está sendo negado ou afirmado.
Se o "não" subjetivo é um grito de independência, o "sim" subjetivo é uma covardia, consiste em concordar para evitar os inconvenientes de uma negativa que aborreceria nosso interlocutor. Alguns exemplos desse "sim" covarde (e, em geral, objetivamente mentiroso). "Respondeu à minha carta?" "Sim, já mandei." "Gostou de minha performance?" "Sim, adorei." "Quer me ver de novo?" "Sim, te ligo amanhã." Mas também: "Você vai assinar a petição para expulsar os judeus do ensino público?" "Claro, claro, estou assinando."
Acontece que dizer "não" é arriscado. A confusão com o outro, aquela confusão que ameaça a primeira infância e contra a qual se erguia nosso "não" abstrato e rebelde, é substituída, com o passar do tempo, por mil dependências afetivas: "Desde os meus dois anos, não sou você, não me confundo com você, existo separadamente, mas, se eu perder seu amor (sua amizade, sua simpatia, sua benevolência), quem reconhecerá que existo? Será que posso existir sem a aprovação dos outros?". Em suma, o sim subjetivo é um consentimento abstrato (o objeto de consenso é indiferente e pode ser monstruoso), pois o que importa é agradar ao outro, não perder sua consideração. A necessidade narcisista de sermos amados nos torna covardes e nos leva a assentir. Por sua vez, nossa covardia fomenta explosões negativas, tanto mais violentas quanto mais nossa concordância foi preguiçosa. À força de dizer "sim" para que o outro goste de mim, eu corro o perigo de me perder e, de repente, posso apelar à negação abstrata, espalhafatosa e violenta, só para mostrar que não me confundo com o outro, penso com a minha cabeça. Bom, Spitz tinha razão, o uso do não e do sim permitem o diálogo humano. Mas é um diálogo que (sejamos otimistas) nem sempre tem a ver com as questões que estão sendo discutidas; ele tem mais a ver com uma necessidade subjetiva: digo "não" para me separar do outro ou digo "sim" para obter dele um olhar agradecido. Nos dois casos, tento apenas alimentar a ilusão de que existo.
Contardo Calligaris é psicanalista, doutor em psicologia clínica (Université de Provence) e colunista da Folha de S.Paulo. Italiano, hoje vive e clinica entre Nova York e São Paulo.
*Artigo publicado na Fôlha de São Paulo em setembro de 2009.
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Análise Institucional: uma clínica psicanalítica
Freud nunca negligenciou a técnica psicanalítica e se ocupou dela ora em momento específico de sua escrita, ora de maneira diluída nas análises de casos clínicos e nas considerações conceituais.
Podemos verificar na elaboração teórica freudiana a marca do privilégio da escuta do sofrimento psíquico em sua excentricidade. As perguntas que chegavam da clínica o faziam pensar e repensar analiticamente, não constituindo somente um espaço de mera aplicação do já conceitualizado. O refazer teórico característico da obra freudiana, ainda hoje, propicia a existência de perspectivas de conceber a prática analítica como um campo de investigação e tratamento não homogêneo.
Acreditamos fundamental a recriação da psicanálise em cada possibilidade de escuta do sofrimento em seus aspectos singulares e coletivos, e daí abordamos possibilidades clínicas que extrapolam a prática de consultório – individual.
A Análise Institucional, uma abordagem que desenvolve um conjunto de conceitos e instrumentos para a análise e intervenção nas instituições, surgiu no Brasil nos anos 70, congregando os mais diferentes tipos de profissionais. A expressão análise institucional não tem um sentido único, pois na realidade, ela se constituiu a partir de um conjunto de disciplinas e movimentos que ocorreram na sociedade francesa, a partir dos anos 40 e 50. Consideramos a "análise institucional" e a "socioanálise", de tradição dialética, originadas, sobretudo das obras de René Lourau e Georges Lapassade, e, de outro lado, a "esquizoanálise", inspirada na filosofia da diferença, relacionada a Félix Guattari e Gilles Deleuze.
Utilizamos a Análise Institucional como um recurso para atuar/intervir no interior de instituições, apoiada na referência psicanalítica, fazendo uma articulação com conceitos da análise institucional que se demonstraram potentes para o entendimento dos elementos do imaginário social atravessadores das práticas institucionais. Trata-se de considerar a saúde mental coletiva da instituição, o que significa examinar a presença de processos grupais dentro do psiquismo individual, ou seja, é possível analisar o discurso de um grupo como uma cadeia de associações onde se produzem diversos mecanismos psíquicos como são os deslocamentos, a condensação entre outros e fantasias referentes àquilo que suscita o encontro grupal.
A cura é pela fala, e permitir um grupo falar ou discursar sobre si mesmos, ou falar sobre as relações de trabalho, o dia a dia, tem uma função terapêutica dentro de uma instituição seja esta de cura, pedagógica ou de prestação de serviços. A psicanálise neste tipo de intervenções vai ao encontro de uma demanda e poderá haver um ato analítico se houver um profissional escutando e interpretando um grupo ou uma equipe discursando livremente. O grupo que descrevo aqui tem como tarefa, falar tudo aquilo que quiserem, referido de preferência ao trabalho, ao dia a dia, as relações entre colegas, com chefias, entre eles e outros setores da empresa. Em síntese falar tudo aquilo que quiserem sobre o cotidiano no trabalho. O importante é que este grupo analítico tem como finalidade realizar uma "cura" ou desvencilhar os processos inconscientes ou descobrir a origem das dificuldades.
O grupo analítico é um trabalho dentro do espaço institucional, organizacional e empresarial aonde o "discursar sobre o dia a dia de trabalho" permite elaborar as relações de trabalho, aprender a reconhecer as próprias limitações, encontrar um sentido a própria dificuldade, aceitar as diferenças, reconhecer o outro.
O trabalho psicanalítico dentro de uma instituição, portanto, não se limita ao espaço íntimo do encontro analítico com o paciente e nem um pouco o reproduz em “grupo”. É necessário pensar e refletir alguns aspectos específicos do quadro estabelecido pela e com a instituição. Como cada instituição apresenta suas próprias normas e leis de funcionamento, torna-se extremamente complexo o estudo dos vínculos institucionais. E, além disso, cada instituição vai constituindo, ao longo de sua história, posições fantasmáticas em relação à população que atende, ao redor do material que trabalha. Nessa relação, a instituição se encontra numa tensão permanente entre a separação e a alienação à imagem que constrói de seus clientes/usuários. Essa imagem, que regula as relações entre os agentes institucionais e seus clientes, está alicerçada numa construção social mais ampla, onde encontramos influências de todo tipo: históricas, políticas, estéticas, midiáticas, etc., que funcionam como poderosos obturadores à possibilidade do encontro singular, à emergência de um sujeito, a uma lógica discursiva que aponta para a alteridade, para a produção de diferença.
Freud nunca negligenciou a técnica psicanalítica e se ocupou dela ora em momento específico de sua escrita, ora de maneira diluída nas análises de casos clínicos e nas considerações conceituais.
Podemos verificar na elaboração teórica freudiana a marca do privilégio da escuta do sofrimento psíquico em sua excentricidade. As perguntas que chegavam da clínica o faziam pensar e repensar analiticamente, não constituindo somente um espaço de mera aplicação do já conceitualizado. O refazer teórico característico da obra freudiana, ainda hoje, propicia a existência de perspectivas de conceber a prática analítica como um campo de investigação e tratamento não homogêneo.
Acreditamos fundamental a recriação da psicanálise em cada possibilidade de escuta do sofrimento em seus aspectos singulares e coletivos, e daí abordamos possibilidades clínicas que extrapolam a prática de consultório – individual.
A Análise Institucional, uma abordagem que desenvolve um conjunto de conceitos e instrumentos para a análise e intervenção nas instituições, surgiu no Brasil nos anos 70, congregando os mais diferentes tipos de profissionais. A expressão análise institucional não tem um sentido único, pois na realidade, ela se constituiu a partir de um conjunto de disciplinas e movimentos que ocorreram na sociedade francesa, a partir dos anos 40 e 50. Consideramos a "análise institucional" e a "socioanálise", de tradição dialética, originadas, sobretudo das obras de René Lourau e Georges Lapassade, e, de outro lado, a "esquizoanálise", inspirada na filosofia da diferença, relacionada a Félix Guattari e Gilles Deleuze.
Utilizamos a Análise Institucional como um recurso para atuar/intervir no interior de instituições, apoiada na referência psicanalítica, fazendo uma articulação com conceitos da análise institucional que se demonstraram potentes para o entendimento dos elementos do imaginário social atravessadores das práticas institucionais. Trata-se de considerar a saúde mental coletiva da instituição, o que significa examinar a presença de processos grupais dentro do psiquismo individual, ou seja, é possível analisar o discurso de um grupo como uma cadeia de associações onde se produzem diversos mecanismos psíquicos como são os deslocamentos, a condensação entre outros e fantasias referentes àquilo que suscita o encontro grupal.
A cura é pela fala, e permitir um grupo falar ou discursar sobre si mesmos, ou falar sobre as relações de trabalho, o dia a dia, tem uma função terapêutica dentro de uma instituição seja esta de cura, pedagógica ou de prestação de serviços. A psicanálise neste tipo de intervenções vai ao encontro de uma demanda e poderá haver um ato analítico se houver um profissional escutando e interpretando um grupo ou uma equipe discursando livremente. O grupo que descrevo aqui tem como tarefa, falar tudo aquilo que quiserem, referido de preferência ao trabalho, ao dia a dia, as relações entre colegas, com chefias, entre eles e outros setores da empresa. Em síntese falar tudo aquilo que quiserem sobre o cotidiano no trabalho. O importante é que este grupo analítico tem como finalidade realizar uma "cura" ou desvencilhar os processos inconscientes ou descobrir a origem das dificuldades.
O grupo analítico é um trabalho dentro do espaço institucional, organizacional e empresarial aonde o "discursar sobre o dia a dia de trabalho" permite elaborar as relações de trabalho, aprender a reconhecer as próprias limitações, encontrar um sentido a própria dificuldade, aceitar as diferenças, reconhecer o outro.
O trabalho psicanalítico dentro de uma instituição, portanto, não se limita ao espaço íntimo do encontro analítico com o paciente e nem um pouco o reproduz em “grupo”. É necessário pensar e refletir alguns aspectos específicos do quadro estabelecido pela e com a instituição. Como cada instituição apresenta suas próprias normas e leis de funcionamento, torna-se extremamente complexo o estudo dos vínculos institucionais. E, além disso, cada instituição vai constituindo, ao longo de sua história, posições fantasmáticas em relação à população que atende, ao redor do material que trabalha. Nessa relação, a instituição se encontra numa tensão permanente entre a separação e a alienação à imagem que constrói de seus clientes/usuários. Essa imagem, que regula as relações entre os agentes institucionais e seus clientes, está alicerçada numa construção social mais ampla, onde encontramos influências de todo tipo: históricas, políticas, estéticas, midiáticas, etc., que funcionam como poderosos obturadores à possibilidade do encontro singular, à emergência de um sujeito, a uma lógica discursiva que aponta para a alteridade, para a produção de diferença.
Em 1930, Freud ressalta no seu trabalho “O mal estar na civilização” que o futuro da humanidade depende de como os homens enfrentam as perturbações coletivas. A psicanálise pode contribuir imensamente ao oferecer um espaço de elaboração da realidade psíquica mobilizada ou sustentada pelas instituições. A oportunidade de analisar e refletir sobre as dificuldades humanas no enfrentamento da realidade de uma instituição/empresa/organização, pode viabilizar as elaborações necessárias ao nosso próprio futuro.
DAISY MARIA RAMOS LINO
Psicanalista, Analista institucional e Responsável Técnica TRIEP
sábado, 27 de março de 2010
Sigmund Freud como no original*Trabalhos do criador da psicanálise ganham novas traduções feitas diretamente do alemão
Recentemente colocados sob domínio público, os textos de Sigmund Freud (1856- 1939) já começam a chegar às livrarias em suas novas roupagens, como esta providenciada pela Companhia das Letras. A editora planeja o lançamento da obra completa traduzida diretamente do alemão pelo germanista Paulo César de Souza (a exemplo do que vem fazendo a Imago desde 2004, sob coordenação de Luiz Alberto Hanns). O projeto editorial, organizado em 20 volumes, respeita a sequência cronológica dos textos, mas lança inicialmente os títulos publicados por volta de 1915, ou seja, de um período no qual o pensamento freudiano estava consolidado e em expansão teórica. Assim aparecem agora os volumes 10 (Observações Psicanalíticas sobre um Caso de Paranóia Relatado em Autobiografia - O Caso Schreber -, Artigos sobre Técnica e Outros Textos - 1911-1913); 12 (Introdução ao Narcisismo, Ensaios de Metapsicologia e Outros Textos - 1914-16); e 14 (História de Uma Neurose Infantil - O Homem dos Lobos -, Além do Princípio do Prazer e Outros Textos - 1917-20).
Temos aí trabalhos teóricos e técnicos da maior importância e dois dos famosos casos clínicos de Freud, o Caso Schreber e O Homem dos Lobos, que certamente encantarão o leitor curioso. Schreber foi um importante magistrado alemão que escreveu um registro biográfico no qual expõe com riqueza de detalhes (embora a família tenha censurado grande parte do texto) a transformação de seu corpo para ser a mulher de Deus e com ele engendrar uma nova raça de homens. A partir deste livro, Freud retraça as origens e os significados do delírio, mostrando como mesmo as ideias mais loucas e descabidas podem ser compreendidas, desde que remetidas à lógica própria do inconsciente. O mesmo pode ser dito sobre O Homem dos Lobos, jovem russo e rico que perambulava pela Europa atrás de quem o curasse de suas angústias e que, aos 4 anos, tivera um sonho no qual via uma árvore em cujos galhos estavam sentados alguns lobos (razão do apelido com o qual ficou conhecido), o que permitiu a Freud realizar uma controvertida construção.
Concomitantemente às obras de Freud, a editora relança a tese de doutorado do tradutor, As Palavras de Freud - O Vocabulário Freudiano e Suas Versões, defendida na USP, centrada no exame das dificuldades apresentadas na tradução de determinados termos "técnicos" fundamentais dentro da teoria freudiana. São eles Ich (ego), Es (id), Besetzung (catexia), Verdrängung (recalque ou repressão), Vorstellung (representação), Angst (angústia), Nachtraglichkeit (posterioridade), Verneinung (negação), Verwerfung (forclusão), Zwang (obsessão), Trieb (pulsão ou instinto) e Versagung (frustração). Esse foco poderia ter resultado em um texto árido, o que não ocorre, pois, para desenvolver a discussão filológica desses termos, Souza parte das duas grandes traduções paradigmáticas da obra freudiana que o antecederam - a inglesa Standard Edition, de James Strachey, e a Oeuvres Complètes, o projeto francês ainda em curso dirigido por Jean Laplanche - oferecendo um rico panorama de seus contextos históricos e institucionais. Seguimos com interesse o percurso da Standard Edition, durante décadas considerada o padrão-ouro das traduções dos textos freudianos. Seu prestígio diminuiu com o aparecimento das críticas de Bruno Bettelheim, publicadas - certamente não por coincidência - logo após a morte de Anna Freud, defensora de Strachey, fato que mostra a influência dos fatores políticos no trato da obra freudiana. Da mesma forma, tomamos conhecimento das grandes polêmicas que cercam ainda hoje a tradução francesa, vazada, na opinião de alguns, num bizarro "laplanchês". No capítulo sobre estilo e terminologia de Freud, Souza resume as análises estilísticas de Walter Muschg, Walter Schönau, François Roustang, Robert Holt, Patrick Mahony e Uwe Pörksen, dissecando os aspectos formais do texto freudiano, que oscila entre a prosa artística e a prosa científica, usando com desenvoltura tropos e figuras de retórica.
Souza faz uma anotação com a qual qualquer leitor de textos psicanalíticos imediatamente concorda: "Quem observa, ainda que panoramicamente, a produção e o modo de atuar dos meios psicanalíticos estrangeiros, constata um divórcio entre a prosa direta, sem adornos e apegada à referência clínica, própria da psicanálise nos países de expressão inglesa, e a prosa mais refinada e um tanto vaga, cônscia de si mesma e autorreferente, peculiar a boa parte do movimento psicanalítico francês." Nesse aspecto, os autores de língua inglesa, mesmo sem o talento literário de Freud, estão mais próximos de sua didática clareza, que procurou sempre se afastar das esfumaçadas formulações em que tão facilmente se abriga a falsa profundidade.
Temos aí trabalhos teóricos e técnicos da maior importância e dois dos famosos casos clínicos de Freud, o Caso Schreber e O Homem dos Lobos, que certamente encantarão o leitor curioso. Schreber foi um importante magistrado alemão que escreveu um registro biográfico no qual expõe com riqueza de detalhes (embora a família tenha censurado grande parte do texto) a transformação de seu corpo para ser a mulher de Deus e com ele engendrar uma nova raça de homens. A partir deste livro, Freud retraça as origens e os significados do delírio, mostrando como mesmo as ideias mais loucas e descabidas podem ser compreendidas, desde que remetidas à lógica própria do inconsciente. O mesmo pode ser dito sobre O Homem dos Lobos, jovem russo e rico que perambulava pela Europa atrás de quem o curasse de suas angústias e que, aos 4 anos, tivera um sonho no qual via uma árvore em cujos galhos estavam sentados alguns lobos (razão do apelido com o qual ficou conhecido), o que permitiu a Freud realizar uma controvertida construção.
Concomitantemente às obras de Freud, a editora relança a tese de doutorado do tradutor, As Palavras de Freud - O Vocabulário Freudiano e Suas Versões, defendida na USP, centrada no exame das dificuldades apresentadas na tradução de determinados termos "técnicos" fundamentais dentro da teoria freudiana. São eles Ich (ego), Es (id), Besetzung (catexia), Verdrängung (recalque ou repressão), Vorstellung (representação), Angst (angústia), Nachtraglichkeit (posterioridade), Verneinung (negação), Verwerfung (forclusão), Zwang (obsessão), Trieb (pulsão ou instinto) e Versagung (frustração). Esse foco poderia ter resultado em um texto árido, o que não ocorre, pois, para desenvolver a discussão filológica desses termos, Souza parte das duas grandes traduções paradigmáticas da obra freudiana que o antecederam - a inglesa Standard Edition, de James Strachey, e a Oeuvres Complètes, o projeto francês ainda em curso dirigido por Jean Laplanche - oferecendo um rico panorama de seus contextos históricos e institucionais. Seguimos com interesse o percurso da Standard Edition, durante décadas considerada o padrão-ouro das traduções dos textos freudianos. Seu prestígio diminuiu com o aparecimento das críticas de Bruno Bettelheim, publicadas - certamente não por coincidência - logo após a morte de Anna Freud, defensora de Strachey, fato que mostra a influência dos fatores políticos no trato da obra freudiana. Da mesma forma, tomamos conhecimento das grandes polêmicas que cercam ainda hoje a tradução francesa, vazada, na opinião de alguns, num bizarro "laplanchês". No capítulo sobre estilo e terminologia de Freud, Souza resume as análises estilísticas de Walter Muschg, Walter Schönau, François Roustang, Robert Holt, Patrick Mahony e Uwe Pörksen, dissecando os aspectos formais do texto freudiano, que oscila entre a prosa artística e a prosa científica, usando com desenvoltura tropos e figuras de retórica.
Souza faz uma anotação com a qual qualquer leitor de textos psicanalíticos imediatamente concorda: "Quem observa, ainda que panoramicamente, a produção e o modo de atuar dos meios psicanalíticos estrangeiros, constata um divórcio entre a prosa direta, sem adornos e apegada à referência clínica, própria da psicanálise nos países de expressão inglesa, e a prosa mais refinada e um tanto vaga, cônscia de si mesma e autorreferente, peculiar a boa parte do movimento psicanalítico francês." Nesse aspecto, os autores de língua inglesa, mesmo sem o talento literário de Freud, estão mais próximos de sua didática clareza, que procurou sempre se afastar das esfumaçadas formulações em que tão facilmente se abriga a falsa profundidade.
Sérgio Telles é psicanalista e escritor, autor de Visita Às Casas de Freud e Outras Viagens (Casa do Psicólogo), entre outros.
LançamentoDois eventos marcam o início da publicação destas novas traduções de Freud. No dia 29, começa, no CineSesc, a mostra Mal-Estar na Cultura. E, no dia 30, no Sesc Pinheiros, José Miguel Wisnik faz paralelos entre conceitos freudianos e obras literárias brasileiras, com participação de Caetano Veloso.
Resenha publicada no Jornal O Estado de São Paulo de 27/03/10
sexta-feira, 5 de março de 2010
ADOLESCÊNCIA E VIOLÊNCIA *
*(Artigo publicado na revista E-Sesc – no. 140 - Janeiro 2009)
“Em um mundo que parece cada dia mais violento, pretendemos debater a violência à qual os adolescentes, em especial, estão submetidos. Em que a violência da qual eles são vitimas se diferencia dos adultos? Quais são os riscos de uma adolescência submetida à violência?”
*(Artigo publicado na revista E-Sesc – no. 140 - Janeiro 2009)
“Em um mundo que parece cada dia mais violento, pretendemos debater a violência à qual os adolescentes, em especial, estão submetidos. Em que a violência da qual eles são vitimas se diferencia dos adultos? Quais são os riscos de uma adolescência submetida à violência?”
A questão proposta superpõe dois importantes problemas – o da violência e o da adolescência. Comecemos pela violência. Sempre que falamos sobre ela, a primeira coisa que fazemos é vê-la como um problema externo, que não nos diz respeito a não ser como eventuais vítimas inocentes. Jamais admitimos que nós mesmos possamos ser agentes produtores de violência.
Os violentos e agressivos são sempre os outros, nunca nós mesmos. Agimos de modo semelhante com a sexualidade. Estamos muito atentos e fazendo julgamentos sobre os comportamentos sexuais dos outros, como se nós mesmos não passássemos por vicissitudes semelhantes àquelas que tão severamente censuramos nos outros. Negamos e reprimimos nossos impulsos agressivos e sexuais. Até certo ponto isso é necessário.
Como Freud dizia, para vivermos em sociedade, não podemos dar plena vazão a nossos desejos sexuais e agressivos. Temos de controlá-los, caso contrário ficaria impossibilitada a convivência que com o outro. Mas esse controle não deve fazer com que neguemos a presença de tais fortes pulsões em nós mesmos e que as projetemos no outro, atribuindo-lhe com exclusividade aquilo que também possuímos. A projeção dos desejos agressivos e sexuais no outro, e sua concomitante negação em nós mesmos, é fonte de inesgotáveis desentendimentos entre os seres humanos. O ideal é que reconhecêssemos nossa constituição pulsional, que nos dota de sexualidade e agressividade, sendo tarefa de todos e de cada um a administração destas poderosas forças internas.
Assim, quando se fala da violência que atingiria o adolescente, tal afirmação pareceria colocá-lo como vítima indefesa e passiva, deixando de lado que a violência habita também o adolescente, pois ela nos habita a todos. Mas é verdade que os recursos internos para o manejo da violência diferem em função do nível de estruturação do psiquismo, estando ele ainda em processo de organização nas crianças e nos adolescentes. Falemos agora da adolescência. Ela é um período de extraordinária turbulência interna, no qual o corpo e o psiquismo sofrem amplas modificações. O adolescente deve deixar a vida infantil com todos seus valores e se defrontar com grandes desafios, especialmente aqueles ligados a sua personalidade, a sua identidade. O adolescente não é mais o filhinho de papai e mamãe, a quem deve obedecer sem discussão. Ele agora precisa se firmar como sujeito, deve definir sua sexualidade e descobrir a posição que vai ocupar no mundo dos adultos. O adolescente está exposto à violência interna de seus próprios desejos e conflitos, pois tanto sua sexualidade como sua agressividade adquirem aspectos e intensidades por ele até então desconhecidas. Seu complexo de Édipo ressurge com grande intensidade, deixando-o confuso e assustado ao constatar que agora poderia realizar suas velhas fantasias incestuosas inconscientes, coisa que seu corpo infantil impossibilitava. Da mesma forma, sua própria agressividade precisa ser modulada. O adolescente se depara com muitos desafios.
Como Freud dizia, para vivermos em sociedade, não podemos dar plena vazão a nossos desejos sexuais e agressivos. Temos de controlá-los, caso contrário ficaria impossibilitada a convivência que com o outro. Mas esse controle não deve fazer com que neguemos a presença de tais fortes pulsões em nós mesmos e que as projetemos no outro, atribuindo-lhe com exclusividade aquilo que também possuímos. A projeção dos desejos agressivos e sexuais no outro, e sua concomitante negação em nós mesmos, é fonte de inesgotáveis desentendimentos entre os seres humanos. O ideal é que reconhecêssemos nossa constituição pulsional, que nos dota de sexualidade e agressividade, sendo tarefa de todos e de cada um a administração destas poderosas forças internas.
Assim, quando se fala da violência que atingiria o adolescente, tal afirmação pareceria colocá-lo como vítima indefesa e passiva, deixando de lado que a violência habita também o adolescente, pois ela nos habita a todos. Mas é verdade que os recursos internos para o manejo da violência diferem em função do nível de estruturação do psiquismo, estando ele ainda em processo de organização nas crianças e nos adolescentes. Falemos agora da adolescência. Ela é um período de extraordinária turbulência interna, no qual o corpo e o psiquismo sofrem amplas modificações. O adolescente deve deixar a vida infantil com todos seus valores e se defrontar com grandes desafios, especialmente aqueles ligados a sua personalidade, a sua identidade. O adolescente não é mais o filhinho de papai e mamãe, a quem deve obedecer sem discussão. Ele agora precisa se firmar como sujeito, deve definir sua sexualidade e descobrir a posição que vai ocupar no mundo dos adultos. O adolescente está exposto à violência interna de seus próprios desejos e conflitos, pois tanto sua sexualidade como sua agressividade adquirem aspectos e intensidades por ele até então desconhecidas. Seu complexo de Édipo ressurge com grande intensidade, deixando-o confuso e assustado ao constatar que agora poderia realizar suas velhas fantasias incestuosas inconscientes, coisa que seu corpo infantil impossibilitava. Da mesma forma, sua própria agressividade precisa ser modulada. O adolescente se depara com muitos desafios.
Como lidar com os modelos que a sociedade lhe oferece para seu sexo, sua posição social, seu futuro? Deve se conformar com eles? Precisa se rebelar contra eles? Para impor sua identidade, deverá lutar contra os pais. Mesmo quando estes estão do seu lado e se dispõem a ajudá-lo, ainda assim ele tem de se desprender deles. Ao mesmo tempo em que ele quer fazer isso e seguir seu próprio caminho, teme se afastar dos pais e perder o lugar protegido que eles lhe têm proporcionado. Frente a angústia que tudo isso lhe provoca, o adolescente pode reagir com grande agressividade, voltada para os outros ou contra si mesmo, em condutas auto destrutivas. As questões sobre a identidade sexual ocupam um lugar central para os adolescentes. Os rapazes confundem masculinidade com agressividade e se engajam em estrepitosas exibições machistas. As meninas engravidam como uma forma de provar que são mulheres, apesar de terem as informações objetivas necessárias que as poupariam dos problemas daí decorrentes. Ambos podem ser levados a praticar sexo não seguro, expondo-se a doenças sexualmente transmissíveis ou de gravidezes não planejadas. Aqueles que descobrem ter uma sexualidade diversa da maioria padecem grandes agonias. Ao se afastar do protegido grupo familiar, o adolescente necessita vitalmente se incluir em outros grupos, que o amparem em seus conflitos identitários. Nos novos grupos, deve aprender a lidar com os fortes mecanismos que regem seus funcionamentos, com as lideranças, as disputas de facções rivais que podem uni-los ou fragmentá-los, a eleição de bodes expiatórios, etc. Nestes grupos, a afirmação da masculinidade faz com que os comportamentos agressivos nos rapazes sejam supervalorizados, da mesma forma que o comportamento sedutor por parte das meninas, o que gera situações potencialmente perigosas. Tais são os percalços quase inevitáveis que o adolescente tem de atravessar em sua busca de uma nova identidade. Este tumulto interno deixa os adolescentes especialmente vulneráveis às drogas e ao álcool, que são ingeridos como calmantes, no intuito de aplacar o sofrimento que lhes provoca o crescimento, a perda da identidade infantil, o ter de enfrentar desafios que, naquele instante, podem parecer-lhes imensos e intransponíveis.
Até agora, falei da violência interna própria do momento psíquico da adolescência. Mas, é claro, aspectos sociais e culturais podem acolher e proteger o adolescente neste momento de confusão identitária e violentas descargas sexuais e agressivas, ou deixá-lo entregue a si mesmo, agravando suas dificuldades. De modo geral, para que a adolescência transcorra do melhor modo possível, desembocando numa organização estável da identidade, os pais deveriam ocupar adequadamente suas funções paterna e materna. Teóricos da psicanálise julgam que, nas ultimas décadas, tem havido um progressivo enfraquecimento da figura paterna. Isso se dá por inúmeros fatores – o abandono dos valores ligados ao patriarcado, as conquistas do feminismo, por exemplo - o que tem criado novas dificuldades no já crítico processo da adolescência. Além disso, nos últimos anos a família também tem sofrido grandes alterações. Ao invés do modelo tradicional, a prática difundida do divórcio faz com que as famílias reconstituídas sejam cada vez mais numerosas e isto certamente não ajuda a atenuar os conflitos desencadeados pela adolescência. Num país como o nosso, de profundos abismos socioeconômicos, com grandes parcelas da população segregadas em condições sub-humanas de vida, é claro que o tumulto próprio da adolescência encontra uma retaguarda social e familiar muito precária. Frequentemente lemos nos jornais noticias sobre “chacinas”, a forma consagrada pela imprensa para se referir aos freqüentes assassinatos em massa de adolescentes e jovens moradores de bairros pobres das grandes cidades. Habitualmente tais chacinas são atribuídas a lutas de gangues de traficantes de drogas, acertos de contas, ação de grupos policiais. A indiferença da sociedade frente a estes bárbaros assassinatos fica ainda mais chocante ao se contrastá-la com o alarde que é produzido pela morte de um único adolescente das classes mais abastadas, coisa que raramente ocorre. A adolescência é um período de grande violência interna e essa violência interna pode ser neutralizada ou potencializada pelo meio ambiente, pela familia, pela sociedade. No Terceiro Mundo, a desigualdade social é, em si, uma violência que recai sobre todos nós. Sendo os adolescentes mais frágeis e susceptíveis, não é de admirar que sejam por ela mais atingidos
Sérgio Telles
Psicanalista, psiquiatra e escritor. Membro do Departamento de Psicanálise do Sedes - SPhttp://www.sergiotelles.com.br/
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Jacques-Marie Émile Lacan nasceu em Paris no dia 13 de abril de 1901 e faleceu em 9 de setembro de 1981. De família burguesa e educação extremamente católica, frequentou os melhores colégios, mas debateu-se com fundamentos católicos desde a adolescência seguindo assim por toda sua obra. Formado em medicina, passou da neurologia a psiquiatria e teve seu primeiro contato formal com a Psicanálise em 1951. A partir daí, passou a ocupar-se desta por toda vida, estando em frente à sua mesa de trabalho das 6 horas da manhã às 8 horas da noite. Leitor profundo da obra freudiana publicou sua primeira produção teórica (Escritos) de fato, somente em 1966.
De Lacan, como nos cita Colette Soler, “pintaram-se mil e um retratos contrastantes, sinal de uma transferência generalizada sobre sua pessoa”, mas o fato é que temos um teórico que em todo seu percurso empenhou-se em “denunciar” o quanto os pós-freudianos haviam se desviado da teoria original. Assim, Lacan propôs-se o “retorno à Freud” em busca do resgate da teoria freudiana. Para tal, utilizou-se da linguística, da antropologia e posteriormente da lógica e topologia, passando sempre seus ensinamentos, basicamente, de forma oral em aulas, seminários e conferências.
Marcou a Psicanálise com suas ideias consideradas por muitos como áridas e de difícil compreensão, além de transgressivas, uma vez que opunha-se às regras estabelecidas pela Associação Psicanalítica Internacional, especialmente no que diz respeito ao tempo das sessões e formação de analistas.
Estudar Lacan, de certa forma é retomar Freud, pois é nele que sua teoria encontra fundamentos e tem seu ponto de ancoragem, mesmo que isso não se apresente claramente num primeiro momento.
A reputação da obra lacaniana é de uma obra de difícil acesso, recheada de conceitos herméticos e até inacessíveis, porém, não podemos deixar de lembrar que é a partir de sua obra que derivaram importantes teorizações de pós lacanianos atuais e comuns hoje no estudo da Psicanálise e na prática psicanalítica: André Green, Jean Laplanche, Pontalis, Françoise Dolto, casal Mannoni, Piera Aulagnier entre outros.
Segundo Renato Mezan (Memória da Psicanálise, edição 8), “a psicanálise contemporânea parece viver um pluralismo de idéias” e sem dúvida, os alunos e discípulos de Lacan marcaram e marcam sua presença com novos desdobramentos teóricos, os quais abrem diferentes caminhos para o estudo do inconsciente. Em outras palavras, vários são os psicanalistas que endossam a proposta lacaniana de retorno à Freud e a realizam cada um a seu modo, avançando nas pesquisa de seus antecessores, muitas vezes de forma até mais consistente que seus mestres.
Lacan, que nos anos 70 muitas vezes foi visto como contestador, cada vez mais é estudado em diferentes Instituições. Do estudo crítico do esboço de sua vida às etapas de sua obra que vão desde o simbólico, a linguagem, ao real e sua tentativa de capturá-lo através da topologia e dos nós borromeanos podemos extrair as conseqüências na prática psicanalítica.
Estudar Lacan é estudar paralelamente Freud, além de ser um convite a reflexão psicanalítica da Escola Francesa e de todos seus desdobramentos na atualidade.
De Lacan, como nos cita Colette Soler, “pintaram-se mil e um retratos contrastantes, sinal de uma transferência generalizada sobre sua pessoa”, mas o fato é que temos um teórico que em todo seu percurso empenhou-se em “denunciar” o quanto os pós-freudianos haviam se desviado da teoria original. Assim, Lacan propôs-se o “retorno à Freud” em busca do resgate da teoria freudiana. Para tal, utilizou-se da linguística, da antropologia e posteriormente da lógica e topologia, passando sempre seus ensinamentos, basicamente, de forma oral em aulas, seminários e conferências.
Marcou a Psicanálise com suas ideias consideradas por muitos como áridas e de difícil compreensão, além de transgressivas, uma vez que opunha-se às regras estabelecidas pela Associação Psicanalítica Internacional, especialmente no que diz respeito ao tempo das sessões e formação de analistas.
Estudar Lacan, de certa forma é retomar Freud, pois é nele que sua teoria encontra fundamentos e tem seu ponto de ancoragem, mesmo que isso não se apresente claramente num primeiro momento.
A reputação da obra lacaniana é de uma obra de difícil acesso, recheada de conceitos herméticos e até inacessíveis, porém, não podemos deixar de lembrar que é a partir de sua obra que derivaram importantes teorizações de pós lacanianos atuais e comuns hoje no estudo da Psicanálise e na prática psicanalítica: André Green, Jean Laplanche, Pontalis, Françoise Dolto, casal Mannoni, Piera Aulagnier entre outros.
Segundo Renato Mezan (Memória da Psicanálise, edição 8), “a psicanálise contemporânea parece viver um pluralismo de idéias” e sem dúvida, os alunos e discípulos de Lacan marcaram e marcam sua presença com novos desdobramentos teóricos, os quais abrem diferentes caminhos para o estudo do inconsciente. Em outras palavras, vários são os psicanalistas que endossam a proposta lacaniana de retorno à Freud e a realizam cada um a seu modo, avançando nas pesquisa de seus antecessores, muitas vezes de forma até mais consistente que seus mestres.
Lacan, que nos anos 70 muitas vezes foi visto como contestador, cada vez mais é estudado em diferentes Instituições. Do estudo crítico do esboço de sua vida às etapas de sua obra que vão desde o simbólico, a linguagem, ao real e sua tentativa de capturá-lo através da topologia e dos nós borromeanos podemos extrair as conseqüências na prática psicanalítica.
Estudar Lacan é estudar paralelamente Freud, além de ser um convite a reflexão psicanalítica da Escola Francesa e de todos seus desdobramentos na atualidade.
SILVIA COARI
Psicanalista convidada do TRIEP para a coordenação do curso Iniciação ao Pensamento de Jacques Lacan.
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