sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

"Amor" letal *
Por Contardo Calligaris**

Por que sempre chega um dia em que ninguém aguenta mais cuidar?
Algumas reflexões depois de assistir a "Amor", de Michael Haneke. Adolescente, eu já achava bizarra a certeza com a qual alguns amigos se expressavam: "Se eu ficar 'assim'", diziam, "eu me mato na hora. E, por favor, se eu não me matar, seja generoso comigo, mate-me você".

O "assim" que justificava tamanha convicção dependia de relatos, leituras e filmes - ia desde uma impotência sexual talvez passageira (mas que parecia acabar com o charme da vida) até a condição terrificante do protagonista de "Jonny Vai à Guerra", livro e filme de Dalton Trumbo: o soldado Joe, sem braços, sem pernas, sem rosto, parece ser apenas uma carne disforme, enquanto a mente dele continua funcionando.

Eu não concordava com a certeza suicida de meus amigos; imaginava que, antes de decidir me matar, seria bom experimentar minha nova condição durante um tempo. Afinal, em geral, as imperfeições nunca impediram os humanos de viver - ao contrário.

Na época de minha adolescência, não dispúnhamos do exemplo do físico Stephen Hawking ou de Christy Brown, o protagonista de "Meu Pé Esquerdo", de Jim Sheridan. Em compensação, um amigo de meus pais, severamente inválido, disse-me, uma vez: "Você, por exemplo, não pode voar como as aves e é desafinado como um sino quebrado; ou seja, tem coisas que não pode fazer, e você vai procurar o valor de sua vida em outras coisas, que você pode fazer. Comigo não é diferente".

Entendi. Mas me sobrou um certo medo (justamente, pela leitura precoce de "Johnny Vai à Guerra"): poderia acontecer que, de imediato, por causa de um acidente cerebral ou, sei lá, de um incidente de carro, eu me encontrasse numa condição na qual eu não quisesse viver de jeito nenhum e na qual eu não tivesse sequer a capacidade material e mental de pôr fim à minha vida ou de pedir para um próximo que ele me ajudasse a morrer.

Anos atrás, conheci alguém realmente preocupado (muito mais do que eu) com essa eventualidade. Ele envelheceu desesperado, oscilando entre o medo de se matar cedo demais, quando ainda poderia viver um tempo que valesse a pena, e o perigo de esperar além da conta e decidir sair de cena quando ele não tivesse mais condições de se matar ou de pedir a alguém que o matasse.

O mesmo alguém se consolava pensando assim: no caso extremo em que eu não pudesse mais pedir, quem me ama (ou melhor, quem amava aquela pessoa que eu era antes) saberá decidir que eu, embora impedido de me manifestar por minha invalidez, não estou querendo mais viver. Nessa situação, para quem me ama (ou amava, que seja), me ajudar a morrer seria um gesto de amor.

Pois é. Não é tão fácil assim nem tão claro. Na sua coluna de sexta passada, Barbara Gancia escreveu, com razão, que "o fardo de cuidar dos idosos tornou-se um dos maiores dramas da atualidade". Os avanços da medicina fazem que, hoje, sejam cada vez mais numerosos os que cuidam de próximos que sobrevivem transformados pela idade, pela invalidez ou pela demência. E sobrevivem, muitas vezes, tanto irreconhecíveis quanto incapazes de reconhecer os que cuidam deles. Perguntas básicas.
1) Será que o outro que nós amávamos, se ele pudesse escolher, toparia viver como ele está agora?
2) Será que o ser do qual cuidamos hoje é o mesmo que nós amávamos antes do acidente, da invalidez ou da demência? Se ele não for o mesmo, será que esse "novo" ser não tem seus próprios critérios do que é uma vida que valha a pena de ser vivida - critérios diferentes dos do nosso amado de antes?
3) Difícil continuar amando alguém que não nos reconhece mais. Mas será que por isso o deixaríamos morrer - por ele não ser mais aquele ou aquela que amávamos?
4) Por que sempre chega um dia em que ninguém aguenta mais cuidar? É porque o custo (em todos os sentidos) é excessivo e queremos recuperar nossas vidas? Ou é porque é quase impossível fazer o luto de um amado que já se foi, mas continua de corpo presente?

Acontece que alguém se suicide depois de ter matado um amado inválido e demente, de que não consegue mais cuidar. É mais que uma maneira de evitar a culpa: renunciando a viver sem você, confirmo que foi por amor que matei você - ou melhor, que matei o desconhecido que tinha tomado seu lugar.

Pois é, foi mesmo por amor que matei você? Ou por vingança, por você ter me deixado sozinho?

Seja como for, fica confirmado, embora num sentido inabitual, que o amor resiste dificilmente ao tempo.

*artigo publicado na Folha de S. paulo, 31/01/2013
** Contardo Calligaris, italiano, é psicanalista, doutor em psicologia clínica e escritor.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013



O pensar como doença*
Por Vladimir Safatle**
   "O estado de reflexão é contra a natureza. O homem que medita é um animal depravado." Tais afirmações de Rousseau parecem servir de guia involuntário para setores hegemônicos da clínica do sofrimento psíquico.
   Há anos, a filosofa francesa Joëlle Proust foi capaz de afirmar que o sofrimento psíquico não teria relações com a forma com que o paciente reflete sobre seus sintomas a partir de suas próprias convicções e motivações.
   Com isso, ela apenas dava forma a um princípio que parece guiar dimensões maiores da psiquiatria contemporânea. Ou seja, tudo se passa como se não houvesse relações entre a maneira com que sofremos e a maneira com que pensamos e procuramos justificar nossas vidas a partir de valores e normas.
   Essa é uma boa maneira de evitar o trabalho mais doloroso exigido pelo tratamento de modalidades de sofrimento psíquico, a saber, a crítica dos valores, normas e formas de pensar que constituem, tacitamente, nosso horizonte de uma vida bem-sucedida.
   A fim de evitar tal trabalho crítico, que certamente é o que há de mais difícil, parece que nos tranquilizamos com ideias como as da professora Proust. Elas acabam por servir para fortalecer a crença de que só haveria cura lá onde abandonássemos o esforço de pensar sobre nós mesmos. No fundo, talvez porque ainda estejamos presos a resquícios deste antigo paralelismo que associava, por exemplo, a melancolia ao ato de "pensar demais".
   Décadas atrás, François Truffaut fez um belo filme sobre uma sociedade no futuro onde a polícia queimava livros porque eles trariam infelicidade. Melhor seria garantir a felicidade social por meio de uma política de uso exaustivo de medicamentos.
   Tal filme foi a metáfora perfeita para um fenômeno que o sociólogo Alain Ehrenberg chamou, décadas depois, de "uso cosmético" de antidepressivos e afins.
   Por "uso cosmético" entendamos o uso de larga continuidade que acaba por visar conservar performances sociais bem avaliadas, evitando ao máximo a experiência com transtornos de humor. Ele é o resultado inevitável do modelo de medicação que impera atualmente. Trata-se de uma distorção daquilo que deveria ser a regra, a saber, o uso focal ligado exclusivamente a situações e momentos de crise aguda.
   Tal uso focal procura apenas garantir as condições de possibilidade para que o verdadeiro tratamento ocorra. Um tratamento que poderá mostrar como, se é a reflexão que nos adoece, é ela também que nos cura.

*artigo publicado Folha de S. Paulo em 27/11/2012
** Vladimir  Safatle, filósofo, professor universitário e colunista da Folha de São Paulo.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012



Psicotrópicos: Os verdadeiros perigos
Por Ana Beatriz T. Facchini* 

Um estudo realizado na França sobre a utilização de psicotrópicos revelou que sua utilidade é incontestável, mas seu uso é alarmante!
Prescritos e liberados pelos clínicos gerais, o uso errado dos “medicamentos da alma” pode levar a efeitos desastrosos. Os franceses são os principais consumidores mundiais em várias categorias: antidepressivos, ansiolíticos, neurolépticos e tranquilizantes são prescritos correntemente.
O escritor Guy Hugnet (“Psicotrópicos, a Pesquisa”), denuncia uma overdose nacional. Alimentados pelas receitas aberrantes (ele fornece alguns exemplos horripilantes em seu livro), os lucros da indústria farmacêutica não justificam uma parelha com a “medicalização do mal estar”.
Em 2008, uma quinzena de medicamentos e sua gama de efeitos secundários foram denunciados. Para os antidepressivos da família do Prozac, Irving Kirsch, professor de psicologia britânico, relacionou uma lista impressionante: disfunção sexual, insônia, ganho de peso, diarreia, náuseas, sonolência, reações cutâneas, nervosismo, anorexia, transpiração excessiva... Sem esquecer as benzodiazepinas, que recentemente apontaram para o risco de demência senil.
Os médicos, muitas vezes, fazem uma prescrição reflexa, mesmo quando existem alternativas não medicamentosas.
EM NÚMEROS
Na França, 75 milhões de caixas de ansiolíticos foram vendidas em 2010. Nesse ano, 20% dos franceses consumiram pelo menos uma vez benzodiazepina ou medicação semelhante.  É o segundo maior consumidor de ansiolíticos da Europa. Vem logo atrás dos portugueses, que por sua vez consomem 9 vezes mais que alemães e ingleses ( fonte: AFSSAPS – Janeiro/2012).
Solidamente organizadas, as indústrias farmacêuticas com seus lobbies e poder de formação de opinião, não cessam de fazer fortuna. Não hesitam em inventar através da hegemônica e americana classificação DSM, transtornos mentais imaginários.
O DSM 1 (1951) relacionou a existência de 100 doenças, o DSM 2 (1968) relacionou 145 e pasmem, 515 doenças anunciadas para 2013!
Na revista Veja de 28/11/12, foi publicada uma matéria de capa sobre a depressão e suas consequências. Esta apresenta um novo medicamento “Promessa de Cura” chamado CETAMINA.
A capa da revista estampa: “A Cetamina é a primeira esperança de tratamento totalmente eficaz da doença que afeta quarenta milhões de brasileiros”
Medicalizar o mal estar... será este o caminho? Evitar qualquer desprazer a qualquer custo???
Para saber mais acesse o link:
http://pt.scribd.com/doc/114233644/Os-verdadeiros-perigos-dos-psicotropicos

*Psicanalista e participante do TRIEP




sexta-feira, 19 de outubro de 2012

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

segunda-feira, 16 de julho de 2012


O Valor da Vida
Uma entrevista rara de Freud - Tradução de Paulo Cesar Souza (20/4/2010)
Fonte: http://www.espacopsicanalitico.com.br/Freudentrevista.htm

Entre as preciosidades encontradas na biblioteca da Sociedade Sigmund Freud está essa entrevista. Foi concedida ao jornalista americano George Sylvester Viereck, em 1926. Deve ter sido publicada na imprensa americana da época. Acreditava-se que estivesse perdida, quando o Boletim da Sigmund Freud Haus publicou uma versão condensada, em 1976. Na verdade, o texto integral havia sido publicado no volume Psychoanalysis and the Fut número especial do “Journal of Psychology”, de Nova Iorque, em 1957. É esse texto que aqui reproduzimos, provavelmente pela primeira vez em português.

"Setenta anos ensinaram-me a aceitar a vida com serena humildade".
Quem fala é o professor Sigmund Freud, o grande explorador da alma. O cenário da nossa conversa foi uma casa de verão no Semmering, uma montanha nos Alpes austríacos. Eu havia visto o pai da psicanálise pela última vez em sua casa modesta na capital austríaca. Os poucos anos entre minha última visita e a atual multiplicaram as rugas na sua fronte. Intensificaram a sua palidez de sábio. Sua face estava tensa, como se sentisse dor. Sua mente estava alerta, seu espírito firme, sua cortesia impecável como sempre, mas um ligeiro impedimento da fala me perturbou. Parece que um tumor maligno no maxilar superior necessitou ser operado. Desde então Freud usa uma prótese, para ele uma causa de constante irritação. 

S. Freud: Detesto o meu maxilar mecânico, porque a luta com o aparelho me consome tanta energia preciosa. Mas prefiro ele a maxilar nenhum. Ainda prefiro a existência à extinção. Talvez os deuses sejam gentis conosco, tornando a vida mais desagradável à medida que envelhecemos. Por fim, a morte nos parece menos intolerável do que os fardos que carregamos.
Freud se recusa a admitir que o destino lhe reserva algo especial.
- Por que – disse calmamente – deveria eu esperar um tratamento especial? A velhice, com suas agruras chegam para todos. Eu não me rebelo contra a ordem universal. Afinal, mais de setenta anos. Tive o bastante para comer. Apreciei muitas coisas – a companhia de minha mulher, meus filhos, o pôr do sol. Observei as plantas crescerem na primavera. De vez em quando tive uma mão amiga para apertar. Vez ou outra encontrei um ser humano que quase me compreendeu. Que mais posso querer?
George Sylvester Viereck: O senhor teve a fama, disse que sua obra influi na literatura de cada país. O homem olha a vida e a si mesmo com outros olhos, por causa do senhor. E recentemente, no seu septuagésimo aniversário, o mundo se uniu para homenageá-lo – com exceção da sua própria Universidade.
S. Freud: Se a Universidade de Viena me demonstrasse reconhecimento, eu ficaria embaraçado. Não há razão em aceitar a mim e a minha obra porque tenho setenta anos. Eu não atribuo importância insensata aos decimais. A fama chega apenas quando morremos, e francamente, o que vem depois não me interessa. Não aspiro à glória póstuma. Minha modéstia não é virtude.
George Sylvester Viereck: Não significa nada o fato de que o seu nome vai viver?
S. Freud: Absolutamente nada, mesmo que ele viva o que não é certo. Estou bem mais preocupado com o destino de meus filhos. Espero que suas vidas não venham a ser difíceis. Não posso ajudá-los muito. A guerra praticamente liquidou com minhas posses, o que havia poupado durante a vida. Mas posso me dar por satisfeito. O trabalho é minha fortuna. 
Estávamos subindo e descendo uma pequena trilha no jardim da casa. Freud acariciou ternamente um arbusto que florescia.
S. Freud: Estou muito mais interessado neste botão do que no que possa me acontecer depois que estiver morto.
George Sylvester Viereck: Então o senhor é, afinal, um profundo pessimista?
S. Freud: Não, não sou. Não permito que nenhuma reflexão filosófica estrague a minha fruição das coisas simples da vida.
George Sylvester Viereck: O senhor acredita na persistência da personalidade após a morte, de alguma forma que seja?
S. Freud: Não penso nisso. Tudo o que vive perece. Por que deveria o homem construir uma exceção?
George Sylvester Viereck: Gostaria de retornar em alguma forma, de ser resgatado do pó? O senhor não tem, em outras palavras, desejo de imortalidade?
S. Freud: Sinceramente não. Se a gente reconhece os motivos egoístas por trás de conduta humana, não tem o mínimo desejo de voltar à vida, movendo-se num círculo, seria ainda a mesma. Além disso, mesmo se o eterno retorno das coisas, para usar a expressão de Nietzsche, nos dotasse novamente do nosso invólucro carnal, para que serviria, sem memória? Não haveria elo entre passado e futuro. Pelo que me toca estou perfeitamente satisfeito em saber que o eterno aborrecimento de viver finalmente passará. Nossa vida é necessariamente uma série de compromissos, uma luta interminável entre o ego e seu ambiente. O desejo de prolongar a vida excessivamente me parece absurdo.
George Sylvester Viereck: Bernard Shaw sustenta que vivemos muito pouco. Ele acha que o homem pode prolongar a vida se assim desejar, levando sua vontade a atuar sobre as forças da evolução. Ele crê que a humanidade pode reaver a longevidade dos patriarcas.
S. Freud: É possível que a morte em si não seja uma necessidade biológica. Talvez morramos porque desejamos morrer. Assim como amor e ódio por uma pessoa habitam em nosso peito ao mesmo tempo, assim também toda a vida conjuga o desejo de manter-se e o desejo da própria destruição. Do mesmo modo com um pequeno elástico esticado tende a assumir a forma original, assim também toda a matéria viva, consciente ou inconscientemente, busca readquirir a completa, a absoluta inércia da existência inorgânica. O impulso de vida e o impulso de morte habitam lado a lado dentro de nós. A Morte é a companheira do Amor. Juntos eles regem o mundo. Isto é o que diz o meu livro: Além do Princípio do Prazer. No começo, a psicanálise supôs que o Amor tinha toda a importância. Agora sabemos que a Morte é igualmente importante. Biologicamente, todo ser vivo, não importa quão intensamente a vida queime dentro dele, anseia pelo Nirvana, pela cessação da “febre chamada viver”, anseia pelo seio de Abraão. O desejo pode ser encoberto por digressões. Não obstante, o objetivo derradeiro da vida é a sua própria extinção.
George Sylvester Viereck: Isto, exclamei, é a filosofia da autodestruição. Ela justifica o auto-extermínio. Levaria logicamente ao suicídio universal imaginado por Eduard von Hartamann.
S. Freud: A humanidade não escolhe o suicídio porque a lei do seu ser desaprova a via direta para o seu fim. A vida tem que completar o seu ciclo de existência. Em todo ser normal, a pulsão de vida é forte o bastante para contrabalançar a pulsão de morte, embora no final resulte mais forte. Podemos entreter a fantasia de que a Morte nos vem por nossa própria vontade. Seria mais possível que pudéssemos vencer a Morte, não fosse por seu aliado dentro de nós. Neste sentido, acrescentou Freud com um sorriso, pode ser justificado dizer que toda a morte é suicídio disfarçado.
Estava ficando frio no jardim. Prosseguimos a conversa no gabinete. Vi uma pilha de manuscritos sobre a mesa, com a caligrafia clara de Freud.
George Sylvester Viereck: Em que o senhor está trabalhando?
S. Freud: Estou escrevendo uma defesa da análise leiga, da psicanálise praticada por leigos. Os doutores querem tornar a análise ilegal para os não médicos. A História, essa velha plagiadora, repete-se após cada descoberta. Os doutores combatem cada nova verdade no começo. Depois procuram monopoliza-la.
George Sylvester Viereck: O senhor teve muito apoio dos leigos?
S. Freud: Alguns dos meus melhores discípulos são leigos.
George Sylvester Viereck: O senhor está praticando muito psicanálise?
S. Freud: Certamente. Neste momento estou trabalhando num caso muito difícil, tentando desatar os conflitos psíquicos de um interessante novo paciente. Minha filha também é psicanalista, como você vê…
Nesse ponto apareceu Miss Anna Freud acompanhada por seu paciente, um garoto de onze anos, de feições inconfundivelmente anglo-saxônicas.
George Sylvester Viereck: O senhor já analisou a si mesmo?
S. Freud: Certamente. O psicanalista deve constantemente analisar a si mesmo. Analisando a nós mesmos, ficamos mais capacitados a analisar os outros. O psicanalista é como o bode expiatório dos hebreus. Os outros descarregam seus pecados sobre ele. Ele deve praticar sua arte à perfeição para desvencilhar-se do fardo jogado sobre ele.
George Sylvester Viereck: Minha impressão, observei, é de que a psicanálise desperta em todos que a praticam o espírito da caridade cristão. Nada existe na vida humana que a psicanálise não possa nos fazer compreender. “Tout comprec’est tout pardonner”.
S. Freud: Pelo contrário! – bravejou Freud, suas feições assumindo a severidade de um profeta hebreu. Compreender tudo não é perdoar tudo. A análise nos ensina não apenas o que podemos suportar, mas também o que podemos evitar. Ela nos diz o que deve ser eliminado. A tolerância com o mal não é de maneira alguma um corolário do conhecimento.
Compreendi subitamente porque Freud havia litigado com os seguidores que o haviam abandonado, porque ele não perdoa a sua dissensão do caminho reto da ortodoxia psicanalítica. Seu senso do que é direito é herança dos seus ancestrais. Uma herança de que ele se orgulha como se orgulha de sua raça.
S. Freud: Minha língua, ele me explicou, é o alemão. Minha cultura, minha realização é alemã. Eu me considero um intelectual alemão, até perceber o crescimento do preconceito anti-semita na Alemanha e na Áustria. Desde então prefiro me considerar judeu.
Fiquei algo desapontado com esta observação. Parecia-me que o espírito de Freud deveria habitar nas alturas, além de qualquer preconceito de raças que ele deveria ser imune a qualquer rancor pessoal. No entanto, precisamente a sua indignação, a sua honesta ira, tornava o mais atraente como ser humano. Aquiles seria intolerável, não fosse por seu calcanhar!
George Sylvester Viereck: Fico contente, Herr Professor, de que também o senhor tenha seus complexos, de que também o senhor demonstre que é um mortal!
S. Freud: Nossos complexos são a fonte de nossa fraqueza; mas com frequência são também a fonte de nossa força.

segunda-feira, 25 de junho de 2012



Corpos despedaçados*
Por Sérgio Telles**
                O assassinato do herdeiro do grupo Yoki Marcos Matsunaga por sua mulher Elize tem vários elementos que ressoam no imaginário coletivo. Em primeiro lugar, o fato de ter sido ela uma prostituta "salva" pelo cliente que com ela se casou. Esse é um forte estereótipo fantasmático da vida amorosa, a ponto de Freud ter-lhe dedicado um trabalho escrito em 1910 e ainda perfeitamente atual, pois as verdades do psiquismo não caducam. Em Um Tipo Especial de Escolha de Objeto Feita pelos Homens, Freud mostra como as imagens da prostituta e da mãe podem fundir-se em função das vicissitudes do Complexo de Édipo. Mas o mais impactante no caso é o esquartejamento que Elize praticou depois de matar o marido. Para muitos, um ato mais violento do que o próprio assassinato, pois evidencia a presença de um ódio desmesurado que não se contenta em tirar a vida do desafeto e precisa ir mais além, destruindo-lhe o corpo.
O comportamento individual de Elize dá continuidade a uma prática social comandada pela nobreza medieval europeia, que de forma semelhante punia os crimes de "alta traição", aqueles que afrontavam o rei e os símbolos de sua majestade. O criminoso era então condenado à pena de enforcamento, evisceração e esquartejamento, nisso se acrescentando muitas vezes a trituração de ossos, a castração e a decapitação. Em algumas ocasiões, o enforcamento podia ser interrompido antes da morte do condenado para que ele, ainda vivo, sofresse as dores da evisceração e castração. Seu coração e as vísceras eram imediatamente queimados numa fogueira preparada para esse fim, pois se acreditava que ali residiam sua corrupção e maldade. A castração o privava dos símbolos de poder e da procriação. Ao decapitá-lo, expressamente puniam-se suas loucas ideias de enfrentar o rei. Os pedaços do corpo eram expostos em locais de grande afluência. Com essa execução espetacular, de máxima visibilidade pública, o poder reafirmava de forma exemplar sua força e admoestava para o risco de a ele se contrapor.
A carga simbólica maior decorria da crença religiosa. Com mais convicção do que hoje, acreditava-se que no Juízo Final a alma voltaria a habitar os corpos que então ressuscitariam. Daí a importância da integridade do corpo. Ao destruí-lo, o poder eliminava física e espiritualmente o condenado, ou seja, neste e no outro mundo, impossibilitava seu ingresso na vida eterna e era essa a maior punição imaginável.
Em Portugal, o suplício judiciário foi usado também na Inquisição e aplicado a nosso herói da Inconfidência Mineira, o Tiradentes.
Não tão remotamente, procedimento semelhante foi aplicado aqui, no Brasil, com os corpos de Lampião e seu bando, cujas cabeças decapitadas ficaram expostas no Museu Nina Ribeiro de Salvador até 1969.
Algo semelhante continua ocorrendo atualmente no México, em função da guerra entre os cartéis do narcotráfico, na disputa pelo mercado da droga. Em Ciudad Juarez - onde se digladiam o grupo La Línea, que tradicionalmente controlava o tráfico na região, e o cartel de Sinaloa, chefiado por Joaquín Guzmán ("El Chapo") -, frequentemente são encontrados corpos esquartejados, desmembrados, decapitados, desfigurados pelo ácido. Exatamente como faziam os reis europeus e com os mesmos objetivos, os barões da droga querem com isso intimidar os inimigos, proclamando um poder ilimitado e inquestionável, capaz de eliminar qualquer um que ouse desafiá-lo. A única diferença é que antigamente essas execuções ritualísticas eram acontecimentos únicos, excepcionais, realizados com muita pompa em grandes encenações. No México de hoje, são acontecimentos rotineiros, banalizados, frente aos quais a população se anestesia para conseguir sobreviver.
Jonathan Littell é autor de As Benevolentes (Objetiva /Alfaguara), livro lançado em 2006 e vencedor dos Prêmios da Academia Francesa e Goncourt. O título remete ao mito grego das Erínias ou Fúrias, que perseguiam Orestes por ter ele assassinato sua mãe Clitemnestra, e o livro trata do nazismo através de seu personagem principal, um aristocrático oficial da SS. Littell publicou agora na London Review of Books (7/6/2012) o texto Lost in the Void, um assustador relato sobre a situação caótica de Ciudad Juarez, totalmente controlada pelo narcotráfico. Ao falar dos assassinatos sistemáticos, diz que a forma pela qual os corpos sofreram mutilações revela uma semiologia conhecida por todos. Se o corpo vem sem sapatos, é porque o falecido foi expulso do cartel. Se vem com as mãos decepadas e colocadas no bolso, é indício de que foi punido por ter roubado o cartel. Se tem um dedo cortado e enfiado na boca ou no ânus, é por ter denunciado alguém à polícia. Se aparece com a pele do rosto arrancada ("como casca de banana", diz ele), é sinal que foi considerado traidor do grupo.
O que ligaria a ex-garota de programa paranaense, os reis medievais da Europa e os atuais barões da droga na fronteira mexicana é o exercício do ódio, a destruição do corpo do objeto execrado. Compartilham uma vingança onipotente contra uma insuportável ofensa ao narcisismo, esteja este amparado institucionalmente ou não. A exibição do corpo esquartejado, desmembrado, dissolvido no ácido é uma demonstração intimidadora do poder absoluto, esteja ele dentro ou fora da lei. Mas Elize, ao contrário dos reis e dos narcotraficantes, não quer exibir o corpo esquartejado, quer escondê-lo. De fato, aí aparece uma diferença entre as três situações, relacionada com o exercício efetivo do poder. Ao sofrer a ofensa narcísica (a rejeição do marido), Elize onipotentemente se vinga, matando-o e desconstruindo seu corpo. Mas ela não perdeu o contato com a realidade, sabe que, se descoberta, sofrerá as consequências de seu ato. Daí precisar esconder o corpo, ao contrário dos outros dois exemplos, que, por terem grande poder (legítimo ou não) e até mesmo para reafirmá-lo, podem exibir abertamente a vingança.
Sejam quais forem as motivações e justificativas conscientes para realizar o esquartejamento do corpo do morto (razões de Estado, intimidações por parte de mafiosos, eliminação de provas incriminadoras), penso que deve sempre existir um substrato inconsciente muito primitivo, algo próximo do canibalismo, sobre o qual falamos aqui recentemente. No canibalismo predomina a ambivalência, o ódio faz matar o objeto e destruir seu corpo, o amor quer preservá-lo e com esse objetivo o ingere. Nas execuções e nos assassinatos como o realizado por Elize, predomina o ódio. O objeto é morto, o corpo é destruído e abandonado como detrito despojado de toda humanidade, mera evidência do poder daquele que o destruiu.
*artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo - 23/06/12.
**psicanalista e escritor.